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PROGRAMA DE AJUDA HUMANITÁRIA

 

Projeto Prevenir é Poder
A Justiça e a Terapia Familiar na
Construção da Paz e a Não Violência

   Violência Contra Homens
   Violência Contra Idosos

    
BRASÍLIA, NOVEMBRO DE 2009
Projeto Prevenir é Poder.
A Justiça e a Terapia Familiar na Construção da Paz e a Não Violência

ÍNDICE (clique para ir ao assunto)
                     Introdução 
Capítulo I:   Violência contra crianças
Capítulo II:  Violência contra adolescentes
Capítulo III: Violência do abuso sexual intrafamiliar
Capítulo IV: Violência contra mulheres
Capítulo V:  
Violência contra homens
Capítulo VI: 
Violência contra idosos
 

A Justiça e a Terapia Familiar na Construção da Paz e a Não Violência

Prof.ª Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri
 

Introdução

O que precisamos aprender é reconhecer como os problemas locais e globais estão interconectados. 
Nenhum dos problemas do nosso tempo podem ser entendidos de maneira isolada.
Para resolvê-los, precisamos aprender como pensar sistemicamente
em termos de relacionamentos, padrões e contextos.
(Capra, 2008)

A mudança mais empolgante para nosso globo é a de novos valores, onde a busca de direitos civis, pela paz, a justiça social, os alimentos saudáveis, os cuidados com a saúde e novos hábitos de consumo, trabalhados com a mitigação do aquecimento global, vão incluir as complementariedades ocultas nas incompatibilidades. Falar de violência, nesse novo paradigma, é articular novas compreensões a todos os protagonistas desse drama.
       Sabemos que a educação é o melhor caminho para a mudança de paradigmas e a família, a escola e a comunidade são os primeiros grandes vínculos de inserção da sustentabilidade de padrões éticos na vida dos cidadãos. Precisamos pensar numa atmosfera que nos una a todos: sexólogos, juízes, psicólogos, médicos, assistentes sociais, advogados, promotores, educadores, pais, professores e famílias em uma consciência de co-responsabilidade.
       Numa época em que se fala tanto de sustentabilidade, é preciso refletir também sobre quais comportamentos violentos precisam ser revistos em seus valores morais e éticos. Um comportamento social ecológico precisa sanar as feridas passadas e prevenir as futuras, numa consciência amparada pela espiritualidade, do sentido do saber que todos estamos ligados ao todo, na busca da justiça ecológica e social.
       A Organização das Nações Unidas (ONU) definiu o conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida associados à cultura de paz na Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz, divulgada em 13 de setembro de 1999. Diversas instituições em todo o mundo aderiram a esta declaração e se empenham na concretização destes ideais.
       Em 2004, a ONU definiu a Cultura de Paz como um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados no respeito à vida, no fim da violência e na promoção e prática da não-violência por meio da educação, do diálogo e da cooperação. No pleno respeito aos princípios de soberania, integridade territorial e independência política dos Estados e de não ingerência nos assuntos que são, essencialmente, de jurisdição interna dos Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e o direito internacional. No pleno respeito e na promoção de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais; No compromisso com a solução pacífica dos conflitos. Nos esforços para satisfazer as necessidades de desenvolvimento e proteção do meio-ambiente para as gerações presente e futuras. No respeito e promoção do direito ao desenvolvimento. No respeito e fomento à igualdade de direitos e oportunidades de mulheres e homens. No respeito e fomento ao direito de todas as pessoas à liberdade de expressão, opinião e informação. Na adesão aos princípios de liberdade, justiça, democracia, tolerância, solidariedade, cooperação, pluralismo, diversidade cultural, diálogo e entendimento em todos os níveis da sociedade e entre as nações e animados por uma atmosfera nacional e internacional que favoreça a paz.
       O que envolve ser não-violento? A não-violência precisa ter existência nas áreas dos pensamentos, das palavras e da ação. É necessário que o corpo também se decida pela não-violência. A filosofia é sempre uma re-flexão, ou seja, um voltar-se sobre si mesmo, sobre a própria experiência e a própria ação.
       O medo da própria morte aparece como o grande propulsor da ação violenta. É como se matando o outro eu me vingasse de ser mortal e fortalecesse minha ilusão de imortalidade. É no reconhecimento do outro que a existência humana começa e este reconhecimento ocorre de modo natural quando enxergarmos o outro. Colocar-se no lugar do outro é olhá-lo, percebê-lo e sentí-lo com os seus olhos, pensamentos e sentimentos.
       Aristóteles anuncia virtudes cardeais para serem nutridas: coragem, prudência, temperança, justiça e o exercício diário da prática de perdoar, como importante meio de quebrar o encadeamento ação violenta/reação violenta. O perdão vem romper com a reciprocidade e a imitação da violência, buscando a liberdade; enquanto que o ressentimento, o rancor e o ódio aprisionam o indivíduo aos grilhões do passado.
       Nós, humanos, somos a sociedade mais complexa dos seres vivos. Podemos criar, acalentar, educar e formar nossa prole e, ao mesmo tempo, agredir, humilhar, destruir, abusar e matar essa mesma descendência. A violência permeia a nossa história, em cada cultura do passado e do presente, ao longo da nossa evolução. Especialmente nos chocam a violência intrafamiliar, seja entre cônjuges, contra crianças, mulheres, homens, bebês e idosos.
       Um dos problemas da era global e da internet, é a banalização que a divulgação violenta do chamado mundo plano propicia. Cenas e imagens que deveriam nos causar repulsa, podem ser significadas como entretenimento e diversão fascinantes e ocupar espaços lúdicos e educativos de nossas crianças e adolescentes.
       Há heterogeneidade e complexidade na violência, desde comportamentos, idéias, ações e palavras. Esta violência deve ser contextualizada, pois influencia e é influenciada pelas histórias de adolescentes que matam colegas nas escolas, mães que assassinam seus filhos, homens que matam suas parceiras e crianças, mulheres que espancam e humilham seus parceiros, bombas e terrorismo efetuados em nome de deuses, torturas e genocídios, entre outras. Esta polidimensionalidade e complexidade devem conter, no assunto que pretendemos abordar neste artigo, o impacto da violência e do medo no desenvolvimento de nossas crianças, adolescentes, famílias, mulheres, homens e idosos.
       Em 1974, a Organização Mundial de Saúde (OMS), já denunciava que o lar é o lugar mais violento das Américas e o FBI, em 1995, alegou que 48% de violências contra crianças ocorrem dentro de casa de várias formas: pelos pais biológicos, namorados e namoradas de pais separados, pais e mães adotivos, padrastos e madrastas, tios, primos e irmãos mais velhos. O grau de toxidade desses abusos, inclui a humilhação, a exploração e a degradação a que a vítima é submetida.
       Em 1989 a luta contra essa violência foi incluída no Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8069/90 e na Convenção Internacional dos Direitos da Criança (1989). Violência sexual contra crianças e adolescentes é crime contra a vida. O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, prevê penas.
       A lei Maria da Penha, nº. 11.340/06, sancionada em 7 de agosto de 2006, trouxe importantes mudanças nos tipos de crimes de violência contra a mulher e os procedimentos judiciais correspondentes. Um dos destaques dessa lei é a caracterização da violência doméstica como uma violação dos direitos humanos.
       Será que podemos aí incluir como disparadores de violência familiar a mídia? Alguns programas de televisão, de videogames, da internet, de algumas músicas e do cinema podem ser classificados como abusivos para nossas crianças?
       Pesquisas realizadas em 1995, realizadas por Houston, demonstraram que a exposição de crianças à mídia, que exibe vários tipos de programas violentos nos lares, constituem a maior força de valores culturais que contribuem para a banalização da violência, dentro da esfera protetora familiar. Este é também um dos grandes paradoxos da violência intrafamiliar: a família violenta é protetora, confunde e submete suas vítimas.
       É na complexidade e circularidade que propomos aqui uma visão sistêmica, multicausal e com necessidades de intervenções prolitransdisciplinares à violência, onde todos os protagonistas: vítimas, agressores e co-agressores, devem ser tratados, cuidados e educados.
       Urge uma psicoeducação da paz que leve em consideração a co-construção sócio familiar da não-violência. Para isto, é preciso ter a conscientização de que a violência é um fenômeno que precisa da desconstrução das alternativas únicas de afastamento, punição e/ou prisão do agressor; para uma atitude não apenas disciplinatória, onde esse personagem agressor possa também ser tratado na profundidade necessária ao desenvolvimento familiar e social.
       Outras questões dessa politransdisciplinariedade aqui citada, é a necessária revisão das metodologias de avaliação à situação traumática vivida por toda família, especialmente por parte de todos os profissionais que executam as intervenções: médicos, policiais, psicólogos, assistentes sociais e juizes, entre outros. As chamadas falsas denúncias, por exemplo, podem significar retraumatizações, igualmente humilhantes e degradantes às vítimas das famílias violentas e violentadas.
       Nossas políticas públicas de saúde e sociedade civil necessitam de capacitações reais profundas e amplas para atender agressores sexuais, vítimas e co-agressores; numa visão “empoderada” de novos recursos para os tratamentos adequados, que a família e a sociedade precisam. Sem falar das duvidosas absolvições que instituições escolares e religiosas produzem, caracterizando uma sociedade que se mostra, às vezes, abusiva e permissiva.
       Profissionais e comunidade necessitam construir uma rede mais capacitada e enfrentadora da violência a que nossas crianças, adolescentes, mulheres, homens e idosos são, pelo silêncio e segredos, cruelmente submetidos.
       A idéia do Projeto PREVENIR É PODER foi uma feliz coincidência de objetivos, na década de oitenta, da F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde de São Paulo e do Rotary Club de São Paulo Butantã, cujo trabalho coordenado pela autora, com inúmeros trabalhos realizados em favor do combate à AIDS e às violências em geral, iniciou em 1986, um projeto que já beneficiou mais de 20 mil pessoas no Brasil: crianças, adolescentes, mulheres, homens, idosos, famílias e educadores, num objetivo comum de “prevenir e empoderar” as famílias, seus membros e sua comunidade, numa luta vitoriosa de orientação e prevenção contra este mal que aflige a humanidade: a violência.
       A metodologia usada neste Projeto Prevenir é Poder é o Sociodrama Construtivista da Violência (Zampieri, 1996) e tem como mérito sua capacidade de atingir os indivíduos psicologicamente, na esfera de sua identidade pessoal, à medida em que amplia a informação e a personaliza ao transmití-la, por meio de vivências das violências diversas no lar e na sociedade em geral, contextualizada e representada nas mais diversas situações do cotidiano das vidas do público-alvo, suas relações amorosas, de gênero, de poder, seus métodos contraceptivos, seus padrões morais, religiosos e éticos. É uma metodologia avaliada em defesa de teses e monografias de mestrado, doutorado e pós doutorado e pode oferecer um comprometimento pessoal entre os participantes, que, por sua vez, podem funcionar como elemento multiplicador dessa educação preventiva.
       O objetivo geral deste Projeto PREVENIR É PODER, é criar uma linguagem comum e capacitação sobre trabalhos, educação e prevenção primária, secundária e terciária da violência. Este específico que aqui denominados de: PREVENIR É PODER: A JUSTIÇA E A TERAPIA FAMILIAR NA CONSTRUÇÃO DA PAZ E A NÃO-VIOLÊNCIA, é proposto e promovido pelas parcerias entre: o Tribunal de Justiça de Brasília, o INTERPSI de Brasília e a Pontifícia Católica de Goiás, e tem como objetivos específicos co-construir estratégias de prevenção de violências a crianças, adolescentes, mulheres, homens e idosos e educar adultos que influenciam a rede sócio-familiar dessas pessoas. Também o de co-criar estratégias para eventuais denúncias e encaminhamentos de violências intra e extra familiares, e multiplicar este trabalho treinando profissionais das áreas da saúde mental e da justiça.
       As estratégias aplicadas são pesquisas das informações existentes sobre violência através de questionários, de Cinedramas Construtivistas, de Sociodramas Construtivistas tematizados, com o uso de estimulações bilatérias, exposições dialogadas; oficinas de teorização e de capacitação técnica para a luta contra a violência e a construção da Paz.
       Há 500 anos Leonardo da Vinci preconizou a fundamental interdependência de todos os fenômenos naturais e humanos na compreensão e busca de saídas para a vida no cosmos. É preciso falar de um modo sustentável de viver, num aspecto social de justiça ecológica, ética e social. A violência, que ocorre neste exato momento, em tantos casos, nos convida à ação. Urge uma co-construção com o sentido de solidariedade para com as pessoas e suas famílias violentas, presentes e futuras. Um movimento que pretende dar início a novos processos de uma cultura da Paz, como preconiza a ONU e como, ousada e realisticamente, pretendemos nós.
       A parceria da Terapia Familiar com a Justiça são os grandes pilares para este PROJETO PREVENIR É PODER: A JUSTIÇA E A TERAPIA FAMILIAR NA CONSTRUÇÃO DA PAZ E A NÃO VIOLÊNCIA em Brasília neste mês de novembro de 2009, onde o INTERPSI, a PUCGO e o Tribunal de Justiça, juntos, constroem esta aliança pela PAZ e a não violência, capacitando profissionais da saúde, da educação e da justiça para a força da conscientização e o “empoderamento” de intervenções pela Paz!

CAPÍTULO I: VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS

Gercini Lina Siqueira
Helenice Gama Dias de Lima
Maria Aparecida Medeiros da Fonseca
Monique Guerreiro de Moura
 Valéria Cristina Fagundes

       Desde o século XVII no Brasil - colônia, o abandono de crianças vinha se tornando um problema que preocupava autoridades que o denunciavam solicitando providências do rei. Havia muitas crianças enjeitadas, abandonadas e foi criado, no século XVIII, o sistema da Roda: essas crianças eram colocadas numa “roda”, dispositivo cilíndrico que rodava do exterior para o interior, onde as crianças eram recolhidas. Era esse o sistema legal e assistencial para as crianças abandonadas ou enjeitadas. Foi um período de desvalorização da criança, inclusive de sua existência e vida (Silveira Faleiros,1995).
       No Brasil - império no século XIX, a tônica da legislação para a infância, nas primeiras décadas, faz menção ao recolhimento de crianças órfãs e expostas a riscos, preocupação baseada na ideologia cristã de amparar a infância (ibidem).
       Como o Brasil caminhava para a urbanização e a industrialização, no final do século XIX, ganharam importância os conhecimentos médicos sobre higiene e a família passou a ser o alvo privilegiado dos higienistas e, assim, médicos e juristas debruçaram-se sobre a criança, criando novos saberes que indicavam a consciência da importância da infância para o ideal de nação civilizada (ibidem).
       Com o advento da República no século XX, especialmente em suas duas primeiras décadas, teve lugar o período mais profícuo da história da legislação brasileira para a infância (Rizzini, 1995).
       Foi a partir do século XIX e metade do século XX que o padrão de cuidado com os filhos passou a ser caracterizado por modo de ajuda, no qual se considera que as crianças sabem do que precisam como qualquer outra pessoa. As mudanças no modo de cuidar dos filhos provocaram impacto tanto nas crianças quanto nos pais.
       A sociedade civil brasileira despertou para uma mobilização intensa em favor da criança e do adolescente, pela gravidade do fenômeno da violência. Começou, então, a se organizar em fóruns de debates que pressionaram a formulação de leis de amparo à infância, numa perspectiva de direitos e de proteção integral. Surge o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente -, criado pela Lei 8.069, aprovada em junho de 1990, em substituição ao Código de Menores de 1979, que continha um caráter arbitrário quanto às noções do menor em situação irregular e de periculosidade. O ECA representou um marco histórico de respeito e dignidade de um ser antes considerado “coisificado”, mero objeto. Sabe-se das dificuldades estruturais quanto a sua aplicação na sociedade brasileira. Essa doutrina propõe políticas sociais e ações especiais com vistas à garantia de direitos à infância e à adolescência, restabelecendo a regulamentação de direitos e a doutrina da proteção integral que asseguram a todas as crianças e adolescentes, indistintamente, os direitos fundamentais de seres humanos no exercício pleno da cidadania. Assim, o ECA considera como crianças os indivíduos de até 12 anos de idade incompletos.
       A infância deve ser considerada uma condição do ser criança, sendo importante respeitá-la e considerar seu universo de representações, visto que ela é um sujeito participante das relações sociais inserido no processo histórico, social, cultural e psicológico. O registro de suas representações significa possibilitar à criança escrever sua própria história que até então foi produzida somente pelos adultos como uma história sobre a criança.
       A criança constrói a sua matriz de identidade através das experiências vividas com os membros da sua família. A família é a matriz do desenvolvimento psicossocial da criança e ela deve propiciar a acomodação da sua participação em diversos grupos, subsistemas familiares e a uma sociedade para lhe garantir o sentido de pertencimento, de separação e de individuação. A família e a criança crescem juntas e a maneira como os seus membros atravessam as mudanças pertinentes ao desenvolvimento das etapas do seu crescimento modela e programa os comportamentos da criança. É na família que a criança tem atendidas as suas necessidades básicas de proteção, socialização, apoio e afeto. Se a família é um sistema aberto, em transformação, atento à hierarquia de poder, à complementaridade de funções e aceita a interdependência de papéis, estabelecendo fronteiras claras entre os subsistemas, garantirá o desenvolvimento de habilidades interpessoais favoráveis à comunicação saudável entre os seus membros. Sendo assim, a criança sentir-se-á pertencendo àquela família específica e à medida que ela cresce será preparada para se separar e individuar-se com segurança e com a certeza de poder contar sempre com o apoio da “sua família” (Minuchin, 1990). Por outro lado, se não há nitidez das fronteiras dentro de uma família, a comunicação se torna difícil, as funções protetoras ficam prejudicadas, podendo desenvolver padrões disfuncionais de relacionamento, ocasionando o desenvolvimento truncado da criança. Pode haver uma possível repetição disso nas relações adultas: é o caso da violência, assunto que pretendemos tratar aqui.
       Segundo Gabel (1997), violência implica o uso de força física (estupro, sevícias) ou psicológica (ameaças, abuso de autoridade). Podemos incluir também atos cometidos contra indivíduos, cuja idade e/ou deficiência mental os tornem incapazes de compreender seu significado. Quanto à violência infantil, esta pode ser caracterizada como todo ato capaz de causar constrangimento físico ou moral no indivíduo. Além das marcas físicas, a violência deixa seqüelas emocionais que futuramente irão atrasar/prejudicar o aprendizado, o desenvolvimento físico e emocional, relações sociais, além de gerar um impacto de longo prazo com repercussões na vida familiar e social.
       No Brasil, assim como em outras partes do mundo, em diferentes culturas e classes sociais, independente de sexo ou etnia, crianças e adolescentes são vítimas da violência doméstica, sendo este um fenômeno universal e endêmico.
      
Existem quatro formas mais comuns de violência intrafamiliar: a física, a psicológica, a negligência e a sexual.

* A violência física ocorre quando alguém causa ou tenta causar dano por meio de força física, de algum tipo de arma ou instrumento que possa causar lesões internas, externas ou ambas.

* A violência psicológica inclui toda ação ou omissão que causa ou visa a causar dano à auto-estima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa.

* A negligência é a omissão de responsabilidade de um ou mais membros da família em relação a outro, sobretudo àqueles que precisam de ajuda por questões de idade ou alguma condição física, permanente ou temporária.

* A violência sexual é toda ação na qual uma pessoa, em situação de poder, obriga uma outra à realização de práticas sexuais, utilizando força física, influência psicológica ou uso de armas ou drogas (DAY ET. AL).

       O Relatório de 2002, elaborado pela Organização Mundial de Saúde, aponta que, na maioria dos países, meninas apresentam maior risco do que meninos para o infanticídio, abuso sexual, negligência física e nutricional, assim como para a prostituição forçada. Segundo o documento, os meninos, em vários países, apresentam maior risco de sofrer castigos físicos mais graves. Da mesma forma, bebês prematuros, gêmeos e deficientes físicos ou mentais demonstram estar sob maior risco de abuso físico e negligência, características capazes de interferir na formação do vínculo ou do apego, tornando esta população mais vulnerável ao abuso, embora tais fatores não apareçam como preponderantes para a violência quando outros fatores são considerados, como variantes parentais e sociais. Crianças que testemunham violência, por sua vez, estão mais predispostas a reproduzir, quando adultas, relacionamentos disfuncionais com suas próprias famílias.
       A violência gera várias conseqüências:

1 – Manifestações da violência psicológica:

Danos imediatos: • pesadelos repetitivos; • ansiedade, raiva, culpa, vergonha; • medo do agressor e de pessoa do mesmo sexo; • quadros fóbico-ansiosos e depressivo-agudos; • queixas psicossomáticas; • isolamento social e sentimentos de estigmatização.

Danos tardios: • aumento significativo na incidência de transtornos psiquiátricos; • dissociação afetiva, pensamentos invasivos, ideação suicida e fobias mais agudas; • níveis intensos de ansiedade, medo, depressão, isolamento, raiva, hostilidade e culpa; • cognição distorcida, tais como sensação crônica de perigo e confusão, pensamento ilógico, imagens distorcidas do mundo e dificuldade de perceber a realidade; • redução na compreensão de papéis complexos e dificuldade para resolver problemas interpessoais.


2 - Manifestações da violência física:

O local mais acometido pela violência física no corpo da criança e do adolescente é a pele. A lesão pode incluir desde vermelhidão, equimoses ou hematomas, até queimaduras de 1º a 3º grau. É comum encontrarem-se marcas do instrumento utilizado para espancar crianças ou adolescentes. Elas podem apresentar forma de vara, de fios, de cinto ou até mesmo da mão do agressor. Uma das manifestações mais graves da violência física contra a criança é a Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome). Caracteriza-se por lesões de gravidade variável, que ocorrem quando uma criança, geralmente um lactente, é severa ou violentamente sacudida. Pode causar cegueira ou lesões oftalmológicas, atraso no desenvolvimento, convulsões, lesões da espinha, lesões cerebrais, culminando com a morte.


3 - Manifestações de negligência:

A negligência pode envolver falha na alimentação adequada, em providenciar cuidados médicos ou em proteger a criança de perigos, atraso nas vacinas, perder documentos, deixar crianças sozinhas ou fora da escola.


4 - Manifestações da violência sexual:

A curto prazo: • secularização excessiva, como atividade masturbatória compulsiva; •distúrbios do sono, aprendizagem, alimentação e conduta isolada • banhos freqüentes • sintomas psicóticos • quadros ansiosos, obsessivo-compulsivos, depressão, • expressões repetidas através de gestos; • sentimentos de rejeição, confusão, humilhação, vergonha e medo.

A longo prazo: • abuso de álcool e outras drogas; • promiscuidade; • disfunções sexuais; • coitofobia • disfunções menstruais • imagem corporal pobre; • sexualização ou abuso de seus filhos; • comportamento auto e heterodestrutivo; • baixa auto-estima e culpa; • sentimentos de vergonha e traição; • distúrbios psiquiátricos; • homossexualismo.

A violência física contra crianças ainda é um fenômeno marcante nas famílias brasileiras. Virou “mania” bater nas crianças para educá-las (Azevedo & Guerra, 2001).
       A violência física contra crianças ainda é um fenômeno marcante nas famílias brasileiras. Virou “mania” bater nas crianças para educá-las (Azevedo & Guerra, 2001).
       Educar de modo autoritário significa moldar, controlar e julgar os comportamentos e as atitudes dos filhos de acordo com o padrão de conduta estabelecida pelos pais. Eles supervalorizam a obediência à autoridade como uma virtude e utilizam medidas punitivas, e até mesmo abusivas, para “quebrar a vontade do filho”, caso sintam que sua autoridade está ameaçada. (Ellis, 1997).
       O limite de tolerância é mínimo e “quase sempre os pais batem nos filhos porque não conseguem controlar sua própria impulsividade. Quando eles próprios não conseguem substituir ações por palavras, transmitem aos filhos que muita coisa se resolve “no tapa e no grito” (Maldonado, 1999).
       Azevedo & Guerra ( 2001) referem que “toda ação que causa dor física numa criança, desde um simples tapa até o espancamento fatal, representam um só continuum de violência”, ou seja, a punição física de crianças é considerada como violência, mesmo sendo chamada “punição mais leve (do tipo, palmada no bumbum), já que tem implicações de dor física. Dessa forma, uma simples palmada pode representar uma porta aberta para quadros de violência mais grave.
       Na violência sexual, manifesta-se, como o expressa Saffioti (2005), o poder do macho. Esse poder é o maior poder exercido dentro do contexto familiar e se exerce sobre o corpo e a psique da criança. Esta é submetida, pois não tem escolha, ao poder/prazer do mais forte e ao segredo sobre esta relação. O abuso sexual é, assim, o aproveitamento de crianças para a sua participação em atividades sexuais por parte de uma pessoa, dotada de autoridade e poder e reconhecida pela criança que se encontra em posição de desigualdade.
       O abuso sexual envolve uma série de atos que implicam uma rede de silêncio, tolerância, conivência, medo e impunidade por parte dos membros da família onde ocorre o abuso, bem como por parte de amigos, vizinhos, companheiros de escola/trabalho/lazer, professores e pessoal dos serviços de saúde e de segurança (Ferrari, 2002).
       A violência é um fenômeno multifatorial. Assim, faz-se necessário um olhar multidimensional para que sua identificação seja cada vez mais perceptível, e que estratégias eficazes sejam desenvolvidas para a sua prevenção. Contudo, na sociedade moderna a violência contra crianças tem crescido paulatinamente, o que nos impulsiona a refletir sobre tal fenômeno e suas conseqüências na saúde mental das crianças. A prevenção garante direitos e, sobretudo, a saúde psicológica e emocional das nossas crianças e adolescentes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
 
GABEL, M. (1997)Crianças vítimas de abuso sexual. Summus, São Paulo.
 
RIZZINI, I. & PILOTTI, F. (1995) A arte de governar crianças: a história das políticas sociais, da legislação e da assistência à infância no Brasil. Ed. Universitária Santa Úrsula, Rio de Janeiro.
 
TREMBLAY, R. E., GERVAIS, J., PETITCLERC, A. (2008) Prevenir a violência pelo aprendizado na primeira infância. Centro de Excelência para o Desenvolvimento da Primeira Infância – Universidade de Montreal: Canadá.
 

CAPÍTULO II : VIOLÊNCIA CONTRA ADOLESCENTES

Carmen Lúcia Lucas da Silva
Girlene Marques Pinheiro
Ivalda Alves Moraes


       Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), adolescente é o indivíduo que se encontra entre os dez e vinte anos de idade. Já no Estatuto da criança e do adolescente (ECA), lei 8.069 de 1990, Art 2°, é estabelecido outra faixa etária dos doze aos dezoito anos.
É uma fase do desenvolvimento humano, marcada por um período de transição entre a infância e a vida adulta onde ocorrem intensas modificações nos aspectos biológico, mental e social, caracterizado por um contexto demasiadamente complicado de inseguranças, medos, iniciativa, autonomia e construção da identidade constantemente questionados em busca de uma confirmação. Esse conjunto de transformações caracteriza a crise normal da adolescência e tem repercussões diretas na sua vida relacional, sobretudo com os pais. O fenômeno mais visível a que o pré-adolescente e o adolescente têm que se acostumar durante este período é a transformação fisiológica e morfológica. Estes são associados à fase conhecida como “puberdade” (“idade viril”) que está ligada com o aparecimento da menstruação e da pilosidade púbica nas garotas e pela emissão de esperma pelos rapazes. Todos esses fenômenos físicos suscitam reações psicológicas (que é marcado pelas primeiras reações emocionais e psicossociais, cujas manifestações variam em função da cultura e da pessoa) e produzem efeitos sobre a personalidade do indivíduo na formação da identidade, que requer adaptação.
       Alguns aspectos da identidade pessoal envolvem características sobre as quais o adolescente não tem controle, como o sexo, raça, etnia e nível socioeconômico. Além dessas características preestabelecidas, o adolescente começa a se auto-avaliar em varias dimensões diferentes: aceitação social pelos colegas, habilidades acadêmicas e esportivas, habilidades no trabalho, aparência pessoal e outros aspectos que o adolescente sente necessidade de escolher de acordo com seus valores.
       A família, conforme Alarcão (2002) é demarcada por diferentes etapas, chamadas por ele de ciclo vital da família, que tem sido tomado como referência à família nuclear tradicional, composta por pai, mãe e filhos, embora seja comum encontrar novas constituições  e configurações da família atualmente. Para que se possa haver uma compreensão global sobre o ciclo vital, dividem-no em cinco etapas, que se inicia com a Formação do Casal que é o nascimento da família nuclear onde o casal une-se também à respectiva família de origem dos parceiros – heranças familiares e aquisições novas. A segunda etapa consiste na Família com filhos pequenos, período marcado pelo nascimento do primeiro filho. Alarcão (2002) complementa, afirmando que é nesta altura que os pais sobem de geração, passando a ter responsabilidades e experiências que anteriormente pertenciam aos seus próprios pais. É nesta fase que a díade alarga-se a uma tríade, há uma nova reelaboração, distribuições e transformações de papéis e funções na dinâmica familiar. A terceira etapa é a Família com filhos na escola, momento em que há a abertura do sistema familiar ao mundo extra-familiar. É nessa fase que a família é posta à prova no exterior no que diz respeito a sua imagem, tanto pela competência da criança com relação a seu desempenho escolar quanto àquela competência que possui para conviver com os outros. A quarta etapa é a Família com filhos adolescentes que demarca novo equilíbrio entre o individual, o familiar e o social, não só do adolescente, mas com todos os membros da família e o sistema como um todo.Por ultimo, a etapa da Família com filhos adultos em que há a saída dos filhos (síndrome do ninho vazio) e a chegada de novos membros como netos, genros e noras. Nesse período, os pais passam por situações de doenças, aposentadoria e perdas, entre outros.
       A família é vista como um sistema, uma reunião, um grupo, um conjunto de pessoas que define uma teia relacional de globalidade e, só assim nessa perspectiva holística é que poderá haver uma compreensão correta sobre o sentido do que é família (Relvas, 2000). Segundo esta autora a família é “entendida como um organismo vivo, portanto, é de se supor que ela também sofra um processo de desenvolvimento no sentido de sua evolução. O desenvolvimento familiar é a mudança da família como grupo, bem como às mudanças nos seus membros individuais, ao nível funcional, interacional e estrutural” (p. 16).
       A família é o local onde a natureza e a cultura se encontram, juntamente com as bases das atitudes sexuais, assumindo posturas mais significativamente culturais do que inatas. Sendo considerada um sistema maior dentro dos componentes familiares, é composta pelo subsistema conjugal, subsistema filhos e subsistema fraterno e na  fase  da adolescência, ela não mais emerge como o centro do mundo na vida do adolescente, sendo este o momento em que, para Wagner et al (2002), as regras costumam ser questionadas e até mesmo contestadas, o que de fato necessário para a construção de sua identidade. Como um sistema, encontra-se inserida em outros sistemas, como é o caso da sociedade e ao mesmo tempo em que determina algumas de suas características também sofre as influências de seus padrões estabelecidos.
       Relvas (2000, p. 145) assinala que “Mais do que em qualquer outra etapa é imperioso o alargamento dos espaços individuais no seio da família, sem que isso conduza ao esboroamento do próprio espaço grupal que, apesar de redefinido, deve ser reforçado na sua coesão.” A autora ressalta que o que é tradicionalmente esperado como papel da família é a preparação ao longo das etapas anteriores do jovem para a socialização e a individualização e isso, só poderá ser desempenhado com sucesso se houver pelos demais membros da família e principalmente dos pais, uma (re)afirmação individual. A forma como cada família vive e convive é primordial para que se perceba como é o desempenho desse jovem frente a essa fase, levando-se em conta o peso do contexto social, uma vez que são grandes as expectativas criadas em torno da adolescência.
       Por ser a adolescência um processo que demanda profundas transformações, em especial a comunicação familiar, uma das tarefas da família consiste em aumentar a flexibilidade a fim de promover a integração de independência dos filhos (Wagner, et al 2005). O contexto familiar torna-se extremamente importante, viabilizando o diálogo satisfatório entre pais e filhos, uma vez que se observa neste período o início do cuidado dos adolescentes em filtrar as informações antes de contá-las aos pais.
       Nas famílias, cujas relações são caracteristicamente muito rígidas, a dificuldade de comunicação entre pais e filhos pode ser mais freqüentes, pois os jovens acabam perdendo a confiança que têm em seus pais e estes, outrora, tornam-se incapazes de perceber as mudanças ocorridas em seus filhos. Resumindo, a adolescência é uma fase de intensas emoções e na qual o sujeito busca a consolidação da sua própria identidade e com estas manifestações ocorre também o afastamento dos pais e um maior envolvimento com o grupo. Esse afastamento em muitos momentos pode ser interpretado como rebeldia, mesmo não havendo motivos para isso. Sendo que a adolescência é expressa de uma maneira geral através de comportamentos e desejos ambivalentes, na qual definem como os jovens vivenciam e relatam suas experiências familiares.
       Alarcão (2002) complementa dizendo que esta é a etapa mais longa e difícil do ciclo vital, na medida em que exige um permanente equilíbrio entre as exigências do sistema familiar e as aspirações de cada membro da família, pois é nessa etapa são depositados nos adolescentes as mais contraditórias expectativas, ora com atitudes paternalistas de quem já viu muito e tudo sabe, ora com uma atitude de reverência pela irreverência e capacidade de correr riscos que os caracteriza. Relvas (2000, p. 148) afirma que “prisioneiros destas injunções os adolescentes procuram encontrar as terceiras vias de respostas, que algumas vezes assumem caráter marginal ou patológico – se sou e não sou, o que fazer – e tentam ser não sendo, estar na comunidade não estando, através, por exemplo da violência.”
       A família revela-se como um sistema integrado, que busca manter a estabilidade e o senso de equilíbrio em seus relacionamentos internos e externos, no decorrer de sua história. No entanto, também contemplam a possibilidade de que tal estabilidade possa ser ameaçada por mudanças e por períodos de desequilíbrio (crises imprevisíveis). Uma crise prevista, no decorrer do ciclo vital de desenvolvimento, pode ser exemplificada pela troca de funções e responsabilidades exercidas pelos pais em relação aos seus filhos. Durante a infância, os papéis familiares são, principalmente, de nutrição, de proteção e de socialização. Com a entrada na adolescência, o relacionamento e o funcionamento da família mudam. Os adolescentes necessitam mais apoio e orientação que o cuidado dedicado a eles anteriormente. No decorrer da vida, essa função é exercida num contexto dinâmico de organização e de relação e poder. Nesse contexto emergem: distribuição desigual de autoridade e poder entre os membros da família; relação centrada em papéis e funções rigidamente definidas; indiferenciação dos papéis com apagamento de limites entre os membros; ambiente estressor, com dificuldade de diálogo e descontrole de agressividade; estrutura de funcionamento fechada, com pobre interação social; situações de crises ou perdas (morte, separação, migração, entre outras); baixo nível de desenvolvimento da autonomia dos indivíduos; história de violência familiar na família de origem das pessoas envolvidas; abuso de drogas; antecedentes criminais ou uso de armas; comprometimento psicológico/psiquiátrico dos indivíduos; dependência econômica/emocional e baixa auto-estima entre os membros (BRASIL, 2002).  Todos esses fatores predispõem à violência.
       Por causa dessas crises e desequilíbrios, que podem ser momentâneos ao longo do ciclo vital da família, a violência intrafamiliar não é, na maioria dos casos, claramente identificável. Origina-se de relações interpessoais assimétricas e hierárquicas, marcadas por desigualdade e subordinação (Koller, 1999 apud DE ANTONI; KOLLER, 2000). Pode ser fruto de uma crise não resolvida na família, ou um padrão de relacionamento que acompanha a história familiar daquele grupo. A ocorrência de violência intrafamiliar pode ser ocultada como um segredo, o que revela a coesão doentia deste grupo. O ingresso na adolescência, que se evidencia pela transformação emocional e cognitiva, pode tornar, no entanto, o (a) jovem mais capaz de enfrentar e desvelar a situação de violência e, assim, buscar recursos diferenciados para amenizar ou resolver esta situação. Estes adolescentes podem denunciar o agressor, defender-se dele ou saírem de casa (De Antoni; Koller, 2000).
       A violência não é fenômeno social exclusivo de nossa época, mas sim resultado de uma cultura que vem se estabelecendo ao longo da história, na qual as relações de poder desempenham papel fundamental. São permeadas por questões de gênero e de hierarquia, chegando-se a uma sociedade preponderantemente adultocêntrica e machista em que, segundo se pode deduzir, o segmento social mais frágil é o da mulher-criança (SAFFIOTI, 1989 apud HABIGZANG et al, 2006).
       No tocante à vitimização de adolescentes dentro dos lares, diz-se que esta seria inerente a relações subjetivas, interpessoais e hierárquicas, em que há um abuso do poder característico, por parte do adulto responsável (OLIVEIRA, 1989 apud HABIGZANG et al, 2006). O mesmo autor enfatiza que essa sujeição de jovens a diversas formas de maus-tratos no ambiente familiar pode ter duração indefinida, devido à sacralidade dessa instituição e à autoridade que os pais exercem sobre seus filhos, impondo-lhes um pacto de silêncio e, por vezes, de cumplicidade.
       Em outras palavras, a violência doméstica poderia ser a expressão do excesso do poder disciplinador e coercitivo dos pais ou responsáveis, que faz da vítima um objeto, desrespeitando seus direitos fundamentais, à vida, à liberdade, à integridade física e a segurança. Em termos operacionais, ela compreenderia:

(...) qualquer dano físico ou psicológico não acidental contra um menor de dezesseis ou dezoito anos – segundo o regime de cada país -, ocasionado por seus pais ou cuidadores, que ocorre como resultado de ações físicas, sexuais ou emocionais, por omissão ou comissão, e que ameaçam o desenvolvimento normal, tanto físico como psicológico da criança (Fuster; Ochoa, 1995, apud apud HABIGZANG et al, 2006. p. 379).


       As conseqüências decorrentes da vivência de violência parecem ser inúmeras, porém há certa dificuldade em descrevê-las de modo sistemático, porque, dependendo do caso, as seqüelas são agravadas ou amenizadas com o tempo e podem se manifestar tardiamente ou, ainda, nunca aparecerem e se ter a situação da pessoa considerada como “assintomática” (CEREZO, 1995 apud HABIGZANG et al, 2006). Contudo, existe a presença de uma série de problemas em crianças, que poderiam ser decorrentes dos maus tratos familiares e que englobam desde comprometimentos orgânicos até emocionais e/ou psicossociais, destacando-se os danos ao desenvolvimento neurológico, intelectual, social, a baixa auto-estima, os comportamentos agressivos, o isolamento, as dificuldades de relacionamento, depressão, ideação de homicídio e de suicídio, dificuldade de adaptação sexual, sentimento de culpa, abandono da escola, prostituição e rejeição familiar; e, é importante enfatizar, com conseqüências que estariam sendo observadas a curto e a longo prazo.
       Focalizando mais especificamente aspectos psicossociais, Bringiotti (1999 apud HABIGZANG et al, 2006) afirma que uma relação de violência na infância produz problemas que certamente se manifestarão frente a outras pessoas. Assim, esses jovens, comparados aos que não sofreram maus tratos, apresentam um número alto de vínculos inseguros e têm mais condutas de esquiva diante de adultos não familiares. Por outro lado, nas relações com pares, as crianças e adolescentes maltratados tendem a exibir maior agressividade e menor tolerância à frustração, o que sugere terem elas dificuldades em assumir as perspectivas do outro e em discriminar suas emoções para poder desenvolver um modelo de relação simétrico, baseado no sentimento de igualdade e de confiança, visto que suas experiências são caracterizadas pela exploração, submissão e violação.
       Quanto às representações de si mesmas, ainda segundo Bringiotti (1999 apud HABIGZANG et al, 2006), essas crianças e adolescentes carecem de confiança nelas próprias, suas perspectivas de futuro são incertas, além de expressarem mais freqüentemente sintomas de tristeza e depressão. Também é comum que se observem atrasos no desenvolvimento cognitivo, decorrente de uma lenta aquisição de habilidades acadêmicas, concorrendo assim para a repetência e atraso escolar. No que diz respeito ao desenvolvimento moral, Fuster e Ochoa (1995 apud HABIGZANG et al, 2006) sugerem que as crianças e adolescentes maltratados manifestam uma compreensão deficiente de regras sociais e, citando alguns estudos, destacam que as vítimas de maus-tratos constroem seus juízos morais e sociais a partir de suas experiências e, portanto, podem internalizar padrões de conduta que refletem as normas/valores subjacentes à vivência de abuso/negligência.
       Como se vê a violência contra crianças e adolescentes pode afetar todos os aspectos da vida da criança, como psicológicos, físicos, comportamentais, acadêmicos, sexuais, interpessoais, espirituais, comprometendo a auto-estima e estimulando a ocorrência de violência subseqüente. Há uma tendência em subestimar os efeitos da violência doméstica contra a criança e o adolescente como menos sérios, acreditando que o impacto parece ser temporário e desaparecer no transcorrer do desenvolvimento infantil. O trauma não deve ser desconsiderado por seus efeitos a longo prazo não serem evidenciados de imediato. Deve ser reconhecido como um sério problema da infância. Mesmo que crianças vitimizadas sejam retiradas de suas casas, os efeitos da experiência vivida repercutirão em toda sua vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
 
ALARCÃO, M. (2002) (des) Equilíbrios Familiares. Editora Quarteto, 2ª Ed.
 
BRASIL. Ministério da Saúde. (2002) Violência intrafamiliar: orientações para a prática em serviço. Brasília (DF): Ministério da Saúde.
 
DE ANTONI, C; KOLLER, S.H. (2000) A visão da familia entre os adolescentes que sofreram violência intrafamiliar. Est. Psicol., vol. 5, n. 2, jul/dez, Natal.
 
HABIGZANG, L.F; AZEVEDO G.A; KOLLER, S.H et al. (2006) Fatores de risco e de proteção na rede de atendimento a criança e adolescente vitimas de violência domestica. Revista Psic. Reflexão e Critica. Vol. 19, n. 3, Porto Alegre, p. 379-390. Disponível em: <www.scielo.br.> Acesso em 31 de outubro de 2009.
 
PENSO M. A. (2003)Artigo da Tese de Doutorado Dinâmicas Familiares e Construções Identitárias de Adolescentes Envolvidos em Atos Infracionais e com Drogas. Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília.
 
RELVAS, A.P.(2000) O ciclo vital da família: Perspectiva Sistémica. Editora Afrontamento, 2ª Ed.
 
WAGNER, A; et al. (2005) Estratégias de comunicação familiar: a perspectiva dos filhos adolescentes. Psicologia Reflexão e Crítica. Porto Alegre, v. 18, n. 2. Disponível em: www.scielo.br Acesso em 21 de Novembro de 2006.


CAPÍTULO III: VIOLÊNCIAS SEXUAIS INTRAFAMILIARES.
NARRATIVAS, TRAUMAS, SOCIODRAMA CONSTRUTIVISTA E EMDR.

Prof.ª Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri

Se pensarmos que crianças vítimas de abusos sexuais dentro de casa, ficam mais vulneráveis à violência escolar também, iniciaremos uma compreensão aterrorizadora, e mais profunda, da complexa tríade da violência e de abusos a que nossas crianças podem ser submetidas: sociedade, escola, família.
       Recordo-me de um atendimento clínico onde um homem adulto de nome fictício Pedro, já com seus 50 anos, e de bom nível socioeconômico e intelectual, durante uma sessão de EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) dizia:

“... eu via meu pai, pela fresta da porta do meu quarto, obrigando a minha mãe a ter sexo com ele... eu gritava para ele parar com aquilo, eu chorava desesperado e pedia um socorro que ninguém escutava... e quando ele me pegava no meu quarto, eu gritava pela minha mãe, mas ela não me ouvia... hoje eu vejo que ela preferia que ele abusasse de mim como quisesse, porque assim ela ficava livre dele... não sei de quem mais tenho raiva, de meu pai ou de minha mãe... O que mais me dava desgosto era no dia seguinte, os dois rindo juntos... eles eram uns sem vergonhas...”


       Milhares de crianças são vítimas e politraumatizadas por violências no lar, na escola e na comunidade. Para muitas delas, o lar, a escola e a comunidade são locus de medo, dominação, negligência e abusos.
       É preciso ver para crer? Ou crer para ver?  Se é preciso saber que não vemos o que negamos perceber, dar visibilidade a lares e escolas abusivas é uma das nossas responsabilidades como psicoterapeutas sexuais.   Se nos conscientizarmos da realidade abusiva familiar a que nossas crianças estão expostas, certamente passaremos a enxergar os sinais invisíveis dos hematomas de suas almas feridas.

       OS MITOS

       Há vários mitos com relação à violência e abusos infantis como: que isso pode ser do direito privado de cada família e que ninguém deve interferir; que as crianças e adolescentes são provocadoras do abuso por terem atitudes sedutoras e/ou erotizadas; que é uma questão de pobreza e de pessoas pouco instruídas ou de classe social mais baixa. Todavia, este fenômeno não é exclusivo de nenhum critério de raça, cor, etnia ou cultura. Não há, na maioria das vezes, episódios isolados e, infelizmente, os casos mais freqüentes estão entre pais biológicos e filhas e filhos. A pobreza não é a causadora da violência intrafamiliar e de toda a negligência a que nossas crianças são submetidas, mas um dos fatores de risco, somado a outros como, a rejeição da revelação, da visibilidade e ação preventiva e terapêutica a essas questões.

       COMO SÃO OS ABUSADORES?

       Os abusadores sexuais intrafamiliares são essencialmente homens, em torno de 94%. (Barudy, 1998). Estabelecem com as vítimas um processo de pedofilização: uma categoria de abuso do poder, que é comparada à tortura limpa, onde um familiar adulto destrói uma criança ou adolescente, de uma forma tão refinada e manipuladora emocionalmente, que a vítima, muitas vezes, nem consegue se reconhecer como tal. São pessoas chamadas de distintas, de todas as classes sociais, de varias profissões, raças, religiões, etnias de varias nacionalidades. Apesar de seus aspectos exteriores de normalidade, essas pessoas, quando nos falam na prática clínica, sentem-se interiormente frágeis como adultos. Frequentemente têm problemas de auto-estima e de relacionamento, especialmente homens que não se sentem capazes de enfrentar sua masculinidade como imaginam que deveriam e que não são capazes; e buscam, como uma espécie de solução às suas angústias e temores existenciais, o abuso de crianças e adolescentes.
       Seus processos de individuação têm problemas por não antigirem a maturidade esperada em níveis psicossociais e relacionais e alguns deles relatam sentirem-se pressionados sob forças como: sedução, culpabilização e/ou segredos, por seus sistemas familiares e o entorno social. Costumam apresentar dificuldades de autonomia emocional para participar de relações emocionais com seus pares.
       Gilberto, nome fictício de um executivo de 41 anos, dizia:

“... eu me sentia gradualmente tomado por uma angústia, um vazio enorme no peito e na boca do estômago... o segredo e o isolamento que eu me impunha desde adolescente... a esposa era doce e me respeitava em muitas crises de mau humor... daí a solidão me excitava... a idéia ia tomando conta de mim... a coisa ia crescendo, crescendo e eu queria um alívio... depois de consumar o ato... eu me aliviava... e esquecia...”

Muitas vezes estes abusadores estão atados às suas infâncias, cuja lembrança é a única fase relatada como feliz e profundamente gratificante. Em algumas sessões de psicoterapia, deixam claras suas posições de prisão a relações triangulares com seus pais, onde foram eleitos como “confidentes” ou “parceiros emocionais” de um deles contra o outro.
       Outros ofensores sexuais, quando trabalhados em nossa prática clínica, trazem experiências traumáticas de suas infâncias, de onde vieram com importantes carências afetivas que se manifestam por buscas de forças e de poder, que podem dissimular sentimentos de raiva e de medo do mundo adulto. São pessoas que relatam tendências a “coisificar” suas vítimas, com quem têm, às vezes, a ilusão de serem superiores.
       Mário, nome fictício de um senhor advogado de 42 anos, relatou:

“... eu me sentia tão estimulado pela inocência da minha menina que adormecia no carro, no banco de trás... comecei a acariciar sua genitália levemente, primeiro sobre a calcinha e depois debaixo dela... parei o carro e me masturbava enquanto acariciava a minha própria filha com três aninhos... parecia uma excitação de menino... eu ficava exaltadamente feliz... poderoso, inteiro...feliz... mas bastava ela se mexer ou virar de lado que eu me assustava e parava imediatamente... Daí eu me sentia tenso de novo, como quando tive as primeira relações sexuais com as namoradas... Eu só me aliviava quando fantasiava aquela situação de novo... e me masturbava muitas vezes...compulsivamente...”

       Problemas de apego e angústias de separação são lembradas em sessões de EMDR com abusadores sexuais, em minha experiência clinica. Relatam-nas como elementos de fragilidade, como se não tivessem feito lutos adequados e sentem-se como perdedores, especialmente, em situações de desapegos, como diversos momentos críticos nas esperadas crises previsíveis ao longo do ciclo de suas vidas familiares. Há ainda, depoimentos de tendência a isolamento social e grandes dificuldades para controlar frustrações decorrentes da vida adulta, social, amorosa e familiar.

“... eu era tido como um garoto amoroso e tímido... quase não saia de casa, passava os domingos dentro de casa ou com a família... me assustavam as garotas...eu me achava pouco atraente... e odiava a possibilidade de ser rejeitado, então preferia não arriscar nada... Descobri que namorar as meninas mais feias e mais pobres era uma saída... Com 16 anos eu peguei a filha da minha empregada, que tinha uns 3 ou 4 anos e me masturbava me esfregando no bumbum dela... daí a coisa foi crescendo e crescendo... hoje eu tenho que fugir da internet... porque fotos de meninas nuas me chamam para uma recaída...”

(Depoimento de Sérgio, nome fictício de um homem com 67 anos e profissional bem sucedido na área de finanças).

       Homens como Sérgio carecem de auto afirmação de suas visibilidades, e têm representação do gênero masculino transtornados, atribuído a atributos de poder, de dominação e de força; tipicamente protagonistas de uma cultura familiar patriarcal e falocrática, que acredita que o homem deve provar sua superioridade às mulheres e às crianças. Utilizam a sua sexualidade como instrumento de força, com desconexões emocionais importantes.

“... Parecia que eu entrava num transe quando eu acariciava a minha filha à noite... eu ia cobrí-la... todas as noites e ali eu me masturbava... a delicadeza e a fragilidade dela era o que mais me excitava... a cara de anjo dormindo... o cabelo sedoso, a pele macia de criança...”

(Assim falou o mesmo fictício Sérgio em uma sessão de psicoterapia)

Há abusadores em série e abusadores circunstanciais. Nos primeiros, encontramos compulsivos crônicos e repetitivos atos de pedofilia. Nos segundos, os abusos são cometidos em momentos de crises existenciais ligadas a sentimentos de angústia e impotência, em fases de divórcio, de conflitos conjugais, fracassos profissionais e perda de potência sexual, entre outros.
       Barudy (1998) chama de pedófilos obsessivos, aqueles que têm como alvo principal e exclusivo, crianças para suas satisfações sexuais, com quem têm uma ilusão de amor recíproco. Podem ser cuidadores e protetores destas crianças e tentam racionalizar seus abusos como positivos, não apresentando sentimentos de vergonha, nem de arrependimento.
       Flávio, nome fictício de um dentista de 35 anos, casado e pai de dois meninos e de uma menina, que abusou sexualmente dos 3 aos 9 anos, relatou:

“... ela é a minha princesa... eu sempre a protegi do mundo masculino e grosseiro... nunca a penetrei, nunca a machuquei... eu sempre a colocava de costas para mim, no meu colo e esfregava meu pênis nas pernas dela... era uma espécie de brincadeira... ela ficava quietinha, não falava nada... era nosso segredo... acho que todos os pais sentem essa vontade... e eu jamais iria machucar a minha filha... é uma sociedade hipócrita a nossa.. quem não quer uma brincadeirinha de amor, sem malícia, bem inocente... com uma criança doce...uma princesa meiga...”

       Há uma espécie de fixação sexual sobre o corpo infantil, com um certo mito de um “amor” por crianças, provavelmente como representação de uma intoxicação afetiva erotizada nas infâncias desses abusadores.

“... meu tio morava conosco e hoje eu sei que ele era doido... descobri numa gaveta um monte de fotografias de crianças nuas e eu o espiei várias vezes se masturbando e olhando para aquelas fotos... eu tinha uns seis anos... depois eu roubei uma foto dele e me masturbava, ou parecia que me masturbava... na adolescência. As meninas peladas nos banheiros no clube...tomando banho...eu me escondia e ficava num murinho espiando... sempre me excitou menina nua, bem pequena... daí... eu não me controlei e abusei de minha sobrinha pequenina... eu a ensinava a dirigir o carro e a colocava no meu colo, com o meu pênis para fora...”

       Este foi um relato de Henrique, 47 anos, nome fictício de um comerciante, que trabalhava também numa ONG que cuida de crianças...

“... depois foi com as amiguinhas de minha filha que iam brincar lá em casa, depois com as meninas da ONG... sempre de três ou quatro anos... elas não percebem direito o que acontece...”

Murray Bowen (1994) fala da capacidade da construção do ego individual quando as pessoas podem diferenciar-se gradual e emocionalmente de seus pais e de suas famílias de origem ao longo de suas vidas. Nessa visão os abusadores sexuais intrafamiliares são emaranhados emocionalmente com suas famílias de origem e possuem débil individuação integrada ou seja: ou se sentem muito dependentes ou muito e magicamente independentes emocionalmente de seus familiares. Buscam dominar a angústia de desintegração através da “fusão” com os contatos sexuais com as crianças. Algumas vezes são homens com quadros depressivos, não expressamente violentos e com uma certa passividade emocional que lembra as situações sexuais onde eles próprios foram abusados em sua infância.
       Cristiano, nome fictício de um professor universitário de 39 anos, revelou:

“...na hora que meu meio irmão chegava da escola... meu coração já ficava acelerado e eu tinha uma certa falta de ar... ele dizia que era porque eu gostava de chupar o pau dele... e ficava excitado. Ele era meu ídolo e dez anos mais velho que eu... bom... eu senti uma coisa parecida quando eu beijava a genitália da minha filha de 5 anos...”

       Essas narrativas, obviamente modificadas para a preservação de sigilos, são, infelizmente freqüentes nos relatos dos abusadores sexuais. Elas estão “escondidas” em famílias aparentemente consideradas perfeitas. Com pais, mães, tios, avós e irmãos aparentemente perfeitos. O abusador sexual não tem cara de monstro, nem aparentemente são monstruosos os lares que eles protegem e provém.

       E AS MÃES CO-ABUSADORAS?

Algumas mães negam-se a ver o que revelam seus filhos abusados. Algumas delas podem ter sido socializadas em ideologias familiares de modelos patriarcais altamente abusivos. Outras, também foram abusadas sexualmente nas idades de suas filhas e filhos abusados. Protagonistas de uma identidade sócio-histórica, cerca de um terço dessas mulheres está em relações conjugais conflitivas e foram abusadas físico, sexual e/ou psicologicamente em suas famílias de origem. Paradoxalmente, estas mulheres também se sentem culpadas por não satisfazer sexual e amorosamente seus homens violentos e são treinadas a desculpá-los. Algumas delas são chamadas  as quem “amam demais” ou co-dependentes afetivas. Mesmo quando essas mães, as chamadas co-abusadoras, aparentam ser controladoras e fortes, é perigoso e reducionista rotulá-las como passivas e irresponsáveis, pois, muitas vezes, são sobreviventes de verdadeiras tragédias emocionais familiares, onde prematuramente desenvolveram posturas exteriores de fortes e de poderosas, camuflando fragilidades afetivas profundas.
       Algumas dessas mães apresentam-se como agressivas e, como descreve Selvini Palazzoli (1978), são aparentemente autônomas, mas desejosas de intimidades afetivas e emocionais.
       Na prática clínica, observamos algumas mães que, na hora da revelação do abuso sexual intrafamiliar, falam da incredulidade de que são acometidas e descrevem de seus maridos como respeitadores e bons pais. A idéia desse homem ter abusado seus filhos ou sobrinhos, lhes parece inconcebível.
       A Sra. Maria, mãe de dois meninos, como ficticiamente aqui chamamos, uma mulher de 39 anos, cujo marido abusou de duas sobrinhas, filhas de sua irmã mais velha, afirmou:

“... ele seria a última pessoa de quem eu desconfiaria uma monstruosidade dessas. O que sempre me encantou nele foi a bondade, o altruísmo, a gentileza comigo e com meus familiares... Nunca vou poder me perdoar por ter sido tão cega...”

Em situações mais complexas, há mães que parecem cúmplices do abuso, pois tinham algumas desconfianças, mas não conseguiam proteger suas crianças ou adolescentes. São dependentes do abusador física, econômica e/ou emocionalmente e sentem-se impotentes para assegurar proteção a seus filhos e/ou dependentes. São essas as mulheres que mais apresentam recaídas em tentar se aproximar novamente destes maridos e retiram ou negam as queixas colocadas nos meios de justiça.
       Silvana, 38 anos, vítima sexual de seu pai biológico dos 5 aos 14 anos, falava de sua mãe:

“... ela me contou recentemente que se achava pouco importante para todos, menos para ele, meu pai... e que ele era bom e fazia com que ela se sentisse protegida e segura. Ela tinha medo de ficar sozinha para o resto da vida. Seu pai, o meu avô, batia muito nela...bebia, batia na mãe e nos irmãos... E que meu pai, pelo menos, não bebia e não batia na gente... Ela dizia que ele era um marido e um pai para nós, muito melhor que o pai dela... Ela parece que me ofereceu de bandeja para ele... para agradecer porque ele não batia nela... que crueldade e egoísmo... não sei quem era pior: ele ou ela. Eu lembro de colocar tampas de panelas na minha cama para fazer barulho quando ele ia... eu batia a cabeça na parede... ela nunca escutou, nunca acordou...”

       Em outras situações, mais raras em minha experiência clínica, porém presentes na literatura especializada (Barudy, 1992) estão as mães que participam ativamente do abuso, muitas vezes incitando o marido abusador. Apenas trabalhei com estes casos em situações de supervisão de colegas que trabalhavam com crianças institucionalizadas. Todas estas observações me fazem pensar em cumplicidades complexas e invisíveis, dos adultos de famílias abusadoras sexualmente. Provavelmente são casais pouco diferenciados emocionalmente que têm dificuldades em distinguir o real do imaginado ou idealizado.

“... eu fiquei informada de tudo, mas achei exagero proibí-lo de ficar com as filhas e sobrinhas... achava que com meu amor e parceria, ele ficaria totalmente curado... até que ele voltou a abusar de nossa netinha e aí eu não agüentei...”

(Sofia, 67 anos, nome fictício).

QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS MAIS FREQUENTES DOS ABUSOS SEXUAIS INTRAFAMILIARES?

O agressor sexual familiar exerce sobre a vítima, que depende dele de maneira vital, um controle importante, seja com mentiras, com sugestionabilidades, com chantagens emocionais ou ameaças.
       Além disso, e como se não bastasse, a dor, o medo, a impotência e as possibilidades de a vítima sentir alguma forma de prazer, são freqüentes. Com a manipulação dos laços afetivos dessa relação, vitimas desenvolvem pensamentos culpabilizantes e a obrigação do silêncio e do segredo. Traumas revelados por angústia, medo, alienações e dissociações, entre outros, estão presentes em algumas vítimas crianças e adolescentes.

“... eu achava que, por ser uma menina bonita, que tinha coxas grossas e bumbum arrebitado, era culpada por fazer meu pai me desejar sexualmente... além disso, como eu poderia, sendo tão má pessoa, destruir o sustento financeiro e econômico de toda a minha família?.... eu me sentia totalmente dependente dele... e minha mãe era fraca, eu tinha que proteger todos...”

Assim relatou Érica, nome fictício de uma jovem de 23 anos, que finalmente, na psicoterapia, revelou o abuso sexual a que foi submetida dos 4 aos 17 anos, pelo pai e por um tio paterno. O depoimento de Érica nos revela o que chamamos de “efeito vampirizador” onde a vítima torna-se a culpada, a má e não merecedora de proteção.
       A traumatização pela violência sexual intrafamiliar, cujas vítimas recebem alimentos afetivos sexualizados, com mensagens falsas e culpabilizantes, podem apresentar flashbacks, alucinações, labilidades emocionais, transtornos do sono e da alimentação; hipergivilância, hiperatividade, evitação, petrificação afetiva, isolamento, perda de interesses sociais, familiares, lúdicos e de lazer; transtornos de memória e de concentração, fobias, pânico, depressão e idéias suicidas, entre outros.
       Quando essas vítimas apresentam, também, a “síndrome de adaptação” (Summit, 1983) ou de “alienação sacrificial” (Barudy, 1992) podem manifestar: sedução, erotismo exagerado para sua idade, agressividade sexual, masturbação compulsiva, promiscuidade sexual, jogos sexuais agressivos, transtornos de identidade sexual, prostituição e atração posterior por parceiros (as) abusivos.

“... eu só sabia seduzir para busca afeto... e isso me rotulava de safada na família. Então, quando meu marido a que eu contei o segredo, revelou à minha família e bateu no meu pai, todos foram contra mim, de novo... e disseram como eu fui uma pequena putinha, desde os cinco anos de idade... falaram tantos horrores de mim, que tive medo de meu marido achar isso também... aliás eu ainda tenho esse medo... que um dia ele se vire contra mim...”
(Narrativa de Joana, 32 anos, abusada pelo pai, avô paterno e motorista da família)

Outras características encontradas em crianças, adolescentes e vítimas de abusos sexuais intrafamiliares são: diminuições das capacidades de sentir emoções associadas à intimidade, ao contato físico e à sexualidade. Quadros de anorgasmia primária e secundária, e de vaginismo, entre outros, podem ser denunciadores de abusos sexuais intrafamiliares.
       Já falamos também da dissociação com um mecanismo defensivo, onde a vítima, para resistir à agressão, entregou seu corpo ao agressor, mas não seus pensamentos e alma.

“... eu me imaginava com um ursinho abraçado a mim e deitada com o meu bumbum numa estrada cheia de pedrinhas... por isso podia ter alguma dor...”

(Joana, 32 anos)

As famílias com filhos crianças e adolescentes simbolizam a matriz da educação sexual, é o local nutridor da saúde, do bem estar e dos direitos a uma vida sexual sem doenças e sem gravidezes indesejadas.  Uma vida sem violências e sem danos sexuais, prazerosa e livre de preconceitos.
       Entendemos que o abuso sexual é o ato ou o jogo sexual onde o adulto submete a criança ou o adolescente, por uma relação desigual de poder, para se satisfazer e/ou estimular sexualmente, impondo-se pela força física, por seduções, oferecendo presentes ou por ameaças  quaisquer às próprias vítimas.
       Propomos uma educação sexual que esteja comprometida com os vários temas de referência culturalmente constituídos, que influenciam a maneira como os brasileiros compreendem, interpretam e constroem suas próprias experiências sexuais. Esses sistemas de referências basicamente são: perspectivas de gênero, valores religiosos, perspectivas de sexualidade saudável e doente, permitida e pecaminosa e perspectivas do erótico, onde o sexo não se volta apenas para a procriação, mas também para a busca do prazer. A tradição escolar de ensino da sexualidade, habitualmente se reporta aos temas apenas da genética e biologia ligados à reprodução humana. Parece que o erotismo é a pedra – de – toque do nosso atraso em termos de divulgação referente ao comportamento sexual. Faz parte dos direitos da criança o direito de pensar também sobre a sua própria sexualidade.
       Sabemos da importância da co-educação entre pais, professores e seus respectivos filhos e alunos, onde a sexualidade possa estimular o desenvolvimento da auto estima das crianças; uma educação que lhes ofereça conhecimento sobre seus corpos, de forma a terem a melhor imagem corporal, que se aceitem como pessoas sexuadas e que desenvolvam seus processos de identidade sexual da forma mais harmônica, espirituosa e amorosa possível.
       A sexualidade deve ser apresentada de forma integrada em todas as quatro dimensões da pessoa humana, quais sejam: a biológica, a psicológica, social e espiritual. Isto é importante na busca da maturidade individual através do projeto de vida de cada um. Este projeto deve privilegiar, também, aspectos de normas de higiene sexual, reflexões sobre a influência de meios de comunicação social nos comportamentos e atitudes das crianças e, finalmente, processos de valores éticos humanos e do que seja a violência sexual e emocional.
       Como identidade sexual é um processo que se descobre aproximadamente entre dois e sete anos, é fundamental que as crianças recebam educação sexual de seus pais e professores nessa faixa etária. Isto evitaria conflitos internos e a não aceitação de sua imagem corporal e sexual. Além de prepará-los para perceber, dentro de sua idade, quando um processo de sedução pode ter características de abuso sexual e psicológico, e capacitá-los, então, a quebrar o silêncio e a buscar apoio e proteção. Educar pais, pagens, professores e profissionais afins, auxilia a comunicação e visualização deste fenômeno negado bem como a capacitação destas pessoas para sair da impotência e buscar ajuda multiprofissional.

A PSICOTERAPIA FAMILIAR SOCIODRAMÁTICA CONSTRUTIVISTA E O EMDR NO TRATAMENTO DE TRAUMAS
      
DOS ABUSOS SEXUAIS INTRAFAMILIARES

       Na abordagem psicoterápica do EMDR consideramos como inseparáveis: pensamentos, memória sensorial, emoção e experiência corporal, como componentes da vida psicológica. Grand (2006) diz que as sensações corporais são uma forma de comunicação visceral que pode trazer importantes informações ao processo psicoterapêutico, quando processadas com estímulos bilaterais. As recordações decorridas durante o processamento do EMDR, ajudam a mente a interpretá-las e como há integração das recordações e emoção no processamento. EMDR possibilita conexões neurofisiológicas entre as várias partes do cérebro e do corpo dentro de um sistema. Pessoas com problemas pós traumáticos, poderão ter dificuldades para realizar essas conexões. Habitualmente, crenças negativas aqui se sustentam sistematicamente nos traumas. Pelo processamento do EMDR podemos trazer crenças e sensações positivas. Que podem estimular vários recursos neurofisiológicos, e psicológicos do paciente, numa aplicação para auto-conhecimento de como possuem, ainda, recursos para lidarem com situações de vulnerabilidade emocional e corporal.
       Pessoas mais deprimidas vivem no passado e as mais ansiosas, no futuro. O EMDR traz a pessoa para o presente, na chamada atenção dual, onde presente e passado estão diferenciados e estimulados. EMDR, assim favorece a remissão e/ou minimização dos traumas das pessoas.
       Há em nossas vidas, um processo de relatividade de memórias, que as mantem em estado latente. Izquierdo (2002) diz que isto pode ser um mecanismo de defesa; especialmente de episódios dolorosos, humilhantes ou aterrorizantes e que podem provocar estresses importantes. Isto é uma forma de reagir ao medo só na presença de situações que o exigem, não a qualquer hora. Diz ainda, o autor, que “há cosias que nosso cérebro recorda, mas nós não” (IZQUIERDO, 2002, p. 110).
       Pessoas que agem de maneira defendida podem estar sendo impedidas, por aspectos do seu contexto, de se comportar ou pensar de maneiras válidas e saudáveis. Normalmente esses problemas estão ligados à cultura de gênero, que impede a discussão de alguns valores, mitos e tabus, especialmente no que se refere à sexualidade. Quando no Sociodrama Construtivista discutimos os temos impedidos, nos vários níveis do sistema familiar e/ou conjugal, pode-se decidir a melhor maneira de mudar um relacionamento, usando para tal inclusive, as mudanças internas que podem constituir barreiras artificiais nos níveis intrapsíquicos.
       Von Glaserfeld (2000,p. 39) chamava de perspectivismo o conjunto de pressupostos de uma pessoa que determina como ela vê os fato de sua vida. Por isto, o terapeuta sociodramatista construtivista vê a mente como o nível mais básico de qualquer sistema humano, que tem níveis múltiplos que interação acrescentamos a isto, o conceito de recursividade, que se refere às interações entre os vários sistemas inter e intrapsíquicos que, com o tempo faz com quem comportamentos e crenças sobre a natureza da condição humana influenciam-se consistente e reciprocamente. Assim, não conhecemos a realidade objetivamente porque a realidade é uma construção interna associada às realidade externas.
       Interpsiquicamente falando, a mente tem diálogos internos que pode capacitá-la resolver problemas, controlar e liderar as visas das pessoas com novas perspectiva, aplicadas, criativa e saudáveis.

       CONSIDERAÇÕES FINAIS

Precisamos perceber, nas complexidades das narrativas dos abusos sexuais intrafamiliares, pais abusadores submissos, com esposas dominantes e filhos dominados; pais abusadores dominantes, esposas dominantes e filhos abusados que funcionam como reguladores da relação conjugal, pais abusadores, esposas submissas dominadas e filhos abusados protetores e precocemente adultilizados; uma complexidade multifatorial, com dificuldades e tensões econômicas, estresses familiares inúmeros.
       Há modernidades que exigem visões de mundo concentradas no poder do ter e na substituição das invisibilidades de dores do ser. Sentimentos de impotência, fracasso social e inferioridade estão presentes nos familiares abusadores. Este problema nos diz respeito. Somos co-responsáveis por ele.
       Consideramos a família como um sistema vivo, que possui uma estrutura e organização próprias e com recursos para lidar com as diversas crises previsíveis de seu ciclo vital, mantemos também a idéia de que ela tem um caráter autônomo: com identidade e iniciativas próprias e um caráter heterônimo: com suas dependências diversas do seu meio ambiental. Os dois aspectos colaboram, intercomunicando-se, para mudanças necessárias ao crescimento da família, com a evolução de seus membros. É necessária uma capacidade de integração harmoniosa entre a família e o meio sem perder sua autonomia. De todas as interações familiares, a relação homem e mulher, em seus papéis de: pai - mãe; mulher - homem, esposo – esposa e amantes, entre outros; é a mais importante, no que se refere aos impactos sobre as crianças. Este é outro problema que nos afeta diretamente; sexólogos e terapeutas; pois quando há perturbações nesse sub-sistema conjugal, e uma sobrecarga de peso pelas alterações intra e interpsiquicas, estes casais podem produzir violências sexuais, com sua prole ou parentes próximos infantis, e acabam com um excesso de fechamento e hermetismo, alimentados pelos segredos de abusos, que conduz, também, a uma espécie de degradação de suas potencialidades criativas e reprodutoras de saídas saudáveis. Desta forma, tais casais e suas famílias, apresentam sintomas, muitas vezes invisíveis ao meio em geral. Maturana e Varela (1984) falam de condutas , que permanecem através das gerações, pelos significados dados às situações violentas, que podem acabar sendo um modo de viver, transmitido pela linguagem também. O adultismo e o machismo, que estão na base dos comportamentos violentos, são exemplos dessas ideologias dominantes, herdadas na transgeracionalidade. Como sexólogos e terapeutas, podemos desconstruir esse poder violento na reflexão conjunta.
       Outro elemento base de famílias abusivas, de acordo com Egeland e Stroufe (1981) são os transtornos de apego de crianças vítimas de abusos sexuais intrafamiliares. Sabemos que, para as crianças, os laços de apego são sinônimos de sobrevivência. Pais pouco disponíveis e poucos cuidadores emocionalmente são encontrados em famílias abusivas. Podemos, como educadores sexuais, ter intervenções transformadoras na colaboração para pais mais sadios.
       O abusador influencia na abusação e vice-versa. Desta forma, é preciso lembrar que famílias mais pobres são mais detectáveis que as mais ricas, quanto às violências sexuais intrafamiliares e , inclusive, mais aceitas por nossa cultura como passiveis de ter todo esse problema. No entanto, em todas as classes sociais, há violências sexuais exercidas contra crianças e adolescentes, dentro do sagrado lar. A cegueira ao poder que alimenta o segredo do abuso é nosso problema também.
       A cultura com princípios morais e religiosos rígidos, com grande crise de valores, com a veneração pela força e pelo poder, com o buscado hedonismo a qualquer preço, com a fragilidade de vínculos com as famílias extensas e a sociedade, acúmulo de frustrações e solidão alimentada pelos segredos, constituem elementos que também exercem um papel importante na produção do abuso sexual intrafamiliar, onde a “coisificação” das crianças e dos adolescentes são fontes de satisfação imediata, erótica e sexual. Como podemos, por exemplo, contribuir com uma mídia mais educadora e menos tóxica?
       Jorge Barudy (1998) diz que o próprio Freud (1913) foi um dos primeiros a reconhecer a existência e freqüência dos abusos sexuais. Todavia, forçado pela pressão social de sua época, acabou defendendo a idéia de que a maioria dos abusos tratava-se de fantasias infantis. Ferenzi (1982) foi um dos primeiros psicanalistas a opor-se a estas idéias de fantasias e insistiu no caráter real e profundamente traumático das experiências sexuais entre adultos e crianças.
       Nos paradigmas clínicos que chamamos de pós modernos, a articulação entre o EMDR e o Sociodrama Construtivista Familiar, traz resultados eficazes nos tratamentos dos traumas individuais conjugais e familiares, nas diversas disfunções sexuais e afetivas que direta e indiretamente têm, na sua trama, abusos sexuais intrafamiliares. Os Sociodramas Construtivistas da Violência Sexual Intrafamiliar, pretendem, também, a psicoeducação para prevenção primária deste fenômeno.

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SHAPIRO, F. (2004) EMDR: Uma Terapia innovadora para superar la ansiedad. Buenos Aires: Sociedad Argentina de Psicotrauma.
 

CAPÍTULO IV : VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES

Ana Vilma Dias de Lucena Silveira
Karina Borges Medeiros
Marcia Angélica F. P. Dourado
Maria Cristina do Nascimento Alves
Mariana Martins Juras

       A violência doméstica contra a mulher tem destaque em nosso país, especialmente a partir da aprovação da Lei 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha. É um fenômeno antigo, ainda enraizado em nossa cultura, onde, por muito tempo, prevaleceu a doutrina do patriarcado (Lima & Santos, 2009;  Hirigoyen, 2006).
       Neste sentido, serão apresentadas neste texto algumas considerações importantes para a atuação profissional junto a esta população, como: pressupostos teóricos, tipos de violência contra a mulher e intervenção profissional.
      É importante ressaltar que a apresentação dessas teorias, neste texto, será apenas elucidativa, necessário aprofundar o conhecimento em cada um desses eixos teóricos. Neste sentido, serão sugeridas referências bibliográficas ao final do texto.
     É fundamental que se discuta o conceito de gênero, que é uma categoria essencialmente cultural e social, em que compreende-se que não se nasce homem ou mulher, e sim torna-se homem ou mulher ao longo do desenvolvimento cultural e social (Diniz, 2003; Saffioti, 1999). É necessário refletir, também, acerca da hierarquia que foi construída entre os gêneros em nossa cultura, onde favoreceu-se o estabelecimento do patriarcado.
      A cultura do patriarcado, construída na vida familiar e influenciada pela sociedade, favorece o estabelecimento de papéis de masculino e feminino rígidos como, por exemplo, as funções de mando e controle mais voltada aos homens, e de cuidado às mulheres. Além disso, nossa cultura também promove sentimentos de vergonha, medo e culpa por parte da mulher e condutas de vitimização e justificação por parte do homem, em casos de violência doméstica. Esses processos dificultam que as mulheres procurem ajuda, não sentindo-se apoiadas e validadas em seu sofrimento.
        A teoria sistêmica propõe que violência doméstica contra a mulher é um fenômeno complexo e multidimensional. A partir desta visão, passamos a observar os indivíduos em relações, em seus sistemas mais amplos, como a família, a comunidade, a sociedade e a cultura, além de proporcionar processos de competência e autonomia as pessoas (Vasconcellos, 1995, 2003).
      Os episódios de violência podem ser entendidos a partir de um ciclo de violência que vai sendo construído e, muitas vezes, consiste um padrão de relacionamento violento entre o casal. O ciclo de violência é formado por três fases: aumento da tensão; tensão máxima/explosão e lua de mel/arrependimento (Walker, 1979; Angelim, 2004).

       Para o aumento da tensão, há uma crescente de intensidade e freqüência da violência que, algumas vezes, não é nem percebida como tal. A explosão é o estopim da violência, onde uma agressão muito grande é proferida contra a mulher, momento em que ela pode buscar ajuda. Após isto, o agressor demonstra arrependimento pelo ato violento e amorosidade, onde irá contextualizar e justificar o ato violento, a fim de preservar o vínculo afetivo.
       Podemos analisar a teoria do duplo vínculo nos casos de violência conjugal, onde estão presentes freqüente paradoxos e contradições nesta relação. Um dos principais paradoxos vivenciados pelas mulheres que sofrem violência doméstica é a frase “Eu te bato porque te amo”, que leva a mulher a permanecer em um estado de confusão em relação à vivência de amor e de violência, concomitantemente (Angelim & Diniz, 2009; Penfold, 2006).
       De acordo com a noção jurídica sobre a Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) todos os profissionais que atuam com a violência contra a mulher, independente de sua área de atuação, devem conhecer profundamente essa lei, a fim de orientar toda a sociedade sobre os direitos das mulheres, em serem respeitadas em sua dignidade e integridade física, moral, psicológica, sexual e espiritual.
       As violências contra a mulher pode assumir várias formas:

§                     Física: É a ofensa à integridade física ou saúde corporal que pode ou não deixar marcas, como tapas, socos, empurrões, tiro.
§                    
Psicológica: são condutas que causam o dano emocional, prejudicam a auto estima, vise controlar suas ações, como ameaças, contrangimentos, humilhações, vigilâncias constantes, perseguições, etc.
§                     Sexual: Constrangimento com o propósito de limitar a auto determinação sexual e reprodutiva da mulher, seja submetendo-a a prostituição, impedindo-a de usar métodos contraceptivos, obrigando-a a manter relações sexuais ou qualquer outro meio.
§                     Moral: Qualquer ofensa contra a honra, injúria, calúnia ou difamação.
§                     Patrimonial: Qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens e etc.
§                     Espiritual: Qualquer conduta que vise limitar ou proibir a mulher de exercer suas crenças, valores e costumes de sua religiosidade.

       Ressaltamos que todos esses tipos de violência não se apresentam de forma isolada e que estão interligados.
       A mulher, em situação de violência, é um sujeito de direitos e é nesse contexto que todo e qualquer serviço de atendimento deve ser a ela oferecido, o que significa que o plano de intervenção deve ser elaborado em conjunto com ela e suas escolhas devem ser respeitadas. As mulheres não têm que provar a situação de violência a que foram submetidas. Os profissionais devem ouvi-las, acreditar no seu relato e tratá-las sem preconceito.
       Neste contexto, é importante que toda a família envolvida na situação tenha espaço para as escutas, tanto a mulher, quanto o agressor, filhos e familiares; uma vez que todos sofrem quando vivenciam um ato violento. Outros membros da rede local também podem ter espaço de discussão e reflexão sobre o tema, como membros de igreja, escolas e vizinhança, entre outros. A violência contra a mulher é um fenômeno cultural e deve ser trabalhado junto aos seus atores.
       A atuação interdisciplinar também é fundamental para este trabalho, em que toda a rede de atendimento (saúde, justiça, educação, conselhos de direitos, entre outros) deve estar articulada com o objetivo de promover atenção integral à mulher e à sua família.
       Por fim, a atualização teórica do profissional que lida com a violência doméstica contra a mulher deve ser constante e promover auto-reflexões sobre seus valores e crenças, especialmente voltados à questão de gênero. Nenhum de nós está isento das influências culturais e, portanto, é necessário questionar nossos próprios conceitos, a fim de que possamos analisar nossas intervenções com essas famílias.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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HIRIGOYEN, M-F. (2006) A violência no casal: da coação psicológica à agressão física. (M. H. Kühner, trad). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

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PENFOLD, R. B. (2006). Mas ele diz que me ama. Graphic novel de uma relação violenta. (D. Pelizzari, trad.). Rio de Janeiro: Ediour o. (Trabalho original publicado em 2005)

SAFFIOTI, H. I. B. (1999). Já se mete a colher em briga de marido e mulher. Perspectiva, São Paulo, 13(4), 82-91. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/spp/v13n4/v13n4a08.pdf

VASCONCELLOS, M. J. E. de (1995). Terapia Familiar Sistêmica: bases cibernéticas. Campinas: Psy II.

VASCONCELLOS, M. J. E. de (2003).
Pensamento Sistêmico: o novo paradigma da ciência. Campinas
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WALKER, L. E (1979). The battered woman. Nova York : Harper & Row.


CAPÍTULO V: VIOLÊNCIA CONTRA HOMENS

Beatriz Chaves Ros de Castro
Denis Soares da Rocha Tavares
Karine Reis Almeida
Luiz Felipe Castelo Branco da Silva
 Roseli de Fátima M. de Lima Dutra.

       Embora a literatura referente à violência contra o homem não seja tão vasta quanto à dirigida à mulher, os estudos e reflexões sobre o tema podem indicar caminhos para sua compreensão e contextualização.
       Em qualquer sociedade, há valores culturais que definem e distinguem os comportamentos masculino e feminino. Em nossa sociedade de tradição machista e patriarcalista, as expectativas sobre o desempenho dos papéis masculinos possuem suas características próprias.
       Ao mesmo tempo em que se destina ao homem o papel de dominador social e mantenedor de sua família, espera-se dele a capacidade de suportar doses diárias de frustração no desempenho destes papéis. Essa ambigüidade apresenta-se como uma violência dissimulada, de origem dispersa nas relações sociais, que afeta e aprisiona o homem. Tais circunstâncias podem ter como destino a depressão, a violência contra semelhantes ou si próprio, ou a banalização e naturalização na inserção em contextos ou situações de violência. Em sintonia com este quadro há o fato de que, para muitos indivíduos do sexo masculino, a violência é aprendida como uma forma preponderantemente masculina de resolução de conflitos. Assim, o garoto que apreende de seus pais o papel de gênero que inclui a violência como um dos elementos definidores, aprende não somente a efetuá-la como também a se submeter a ela, pois suportar a violência também é um dos valores definidores da masculinidade.
       Seguindo o raciocínio de que do homem se espera o desempenho do poder, o homem atual, desprovido de autoridade no espaço público, no trabalho e na política, tende a transferir a tentativa de exercê-lo em outros contextos, vivenciando a contradição de possuidor e desprovido de tal poder em sua esfera cotidiana próxima e íntima. Assim, assiste-se às explosões de violência em campos de futebol, de forma explícita, ou de forma sutil, no ambiente doméstico. Neste ambiente, a cristalização do homem como agressor, pelas características físicas evidentes, oculta sua posição de vítima, quando, por sua companheira, lhes são dirigidas frases depreciativas, insultantes, humilhante ou desonrosas, pois o coloca em cheque quanto a sua capacidade de exercer o papel de gênero a ele destinado. Desta forma, é necessário para a compreensão da violência a que o homem está submetido, a ampliação do campo de visão.
       A violência doméstica não pode ser compreendida apenas de forma linear, colocando o homem como o algoz originário de toda a ação, mas entendê-la também como uma demonstração de fraqueza e impotência diante da destituição de sua força e poder.
       A marginalização em relação ao poder organizador do Estado, também contribui sobremaneira com a exposição de certos grupos a serem ciclicamente autores e vítimas da violência, tais como favelados ou presidiários. Espera-se do homem que organize a falta de ordem, quando aparentemente são a força e a violência os únicos veículos possíveis para a sobrevivência física e garantia da integridade emocional. A isso se acrescenta a imposição do uso da violência como meio culturalmente masculinos para a elevação ou manutenção do status junto a outros indivíduos. Assim, não é de se estranhar que os homens são estatisticamente as principais vítimas de homicídio, geralmente tendo como autores, outros homens.
       E, para concluir, sobre a presença do Estado, bem observa Pascal. Segundo ele, “a justiça separada da força é impotente” e, por sua vez, “a força separada da justiça é tirânica”. Assim a violência é o uso injusto da força (Pascal apud Faye, 1996, p.260; Arblaster, 1996, p.803). Portanto, o governo que “assegura a arbitragem” a justiça “entre os membros do corpo político é forte, mas não violento” (Boudon e Bourricaud, 1993, p.606), assim como a lei, enquanto injusta, torna-se violenta, mesmo que legal.

Tipo de causa

Mulheres
%

Homens
%

Doenças infecciosas e parasitarias

5.4

5.7

Neoplasias (tumores)

17.4

14.0

Doenças do aparelho circulatório

36.0

28.6

Doenças no aparelho respiratório

13.4

11.2

Afecções originarias no período perinatal

2.4

2.4

Causas externas (1)

5.4

22.3

Demais causas definidas

20.0

15.8

Total

100

100

Gráfico 5.2.1 Mortalidade proporcional por grupos de idade segundo o sexo. Estado RJ. Ano 2003.1,442,327,73,62,915,56,81,22428,411,111,5203,6
<1 ano1-1415-2930-4445-5960-7475 e mais Mulheres Homens

       Fonte: Ministério de Saúde /SVS - Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM
       Assim como a mortalidade masculina se distribui de forma mais eqüitativa por todos os grupos de idade, a feminina se produz na faixa etária de 60 a 74 e sobretudo a partir dos 75 anos. A proporção entre os 15 e 29 anos mostra uma realidade de morte que afeta diretamente a população jovem masculina.
       Pedir para homens observarem em quais desses itens eles se reconhecem em seus relacionamentos com sua parceiras, seus parceiros ou familiares. Isto pode tornar mais visível a violência a que o homem pode estar sendo submetido.

A sua parceira: 
 

1.      bate, esmurra, esbofeteia, empurra ou morde você?
2.      ameaça feri-lo ou aos seus filhos?
3.      ameaça ferir amigos ou membros da família?
4.      tem súbitos acessos de raiva ou fúria?
5.      comporta-se de maneira superprotetora?
6.      fica com ciúmes sem motivo?
7.      não o deixa visitar a sua família ou os seus amigos?
8.      não o deixa trabalhar ou estudar?
9.      destrói sua propriedade pessoal ou objetos de valor sentimental?
10.  não o deixa ter acesso aos bens da família, como contas bancárias, cartões de crédito ou o carro.
11.  controla todas as finanças e, obriga-o a prestar contas daquilo que você gasta?
12.  obriga-o a fazer sexo contra a sua vontade?
13.  força-o a participar de atos sexuais que você não aprecia?
14.  insulta-o ou chama-a por nomes pejorativos?
15.  usa a intimidação ou a manipulação para controlá-lo ou a seus filhos?
16.  humilha-o diante dos filhos?
17.  transforma incidentes insignificantes em grandes discussões?
18.  maltrata ou ameaça maltratar animais de estimação?


       Uma educação de ação deve promover que cada pessoa torne-se responsável por sua existência e atitudes.
       A responsabilidade é pessoal e podemos ser o que nós mesmos fazemos de nossas circunstâncias na auto determinação pela paz.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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CAPÍTULO VI – VIOLÊNCIA CONTRA IDOSOS

Anna Cristina Pires de Mello
Denise Macedo Barbosa Villa
Enrique Maia
Maria Angélica S. R. de Barcelos


       Velhice é uma etapa da vida, assim como a infância e a adolescência, e velho é quem tem 60 anos ou mais. Porém, dizer que a velhice inicia aos 60 anos, é mero produto de uma definição social. A sociedade estabelece uma idade para o início da velhice em resposta às mudanças evolutivas comuns à maioria das pessoas dos vários grupos etários, considerando os fatores biológicos, históricos e sociais, segundo Neri e Freire (2000 apud SARTI, 2001). Assim, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu 60 anos para os países em desenvolvimento, e 65 para os países desenvolvidos, tendo como referência a idade para a aposentadoria e a expectativa de vida, que é maior nos países desenvolvidos.
       Sobre esse marco etário, são calculados os índices de envelhecimento da população, crescentes em todo o mundo. As estatísticas nacionais recentes indicam que também no Brasil o contingente de idosos tem crescido de forma considerável e estima-se que, até o ano de 2020, o país contará com 40 milhões de velhos (<www.ibge.gov.br>), constituindo-se no sexto país com mais velhos no mundo.
       A última etapa, a idade da velhice, começa após a aposentadoria, depois que os filhos já se foram. Erikson Erikson, em seu livro  “O Ciclo de Vida Completo” (1998), estabelece que é bom chegar à velhice, se não ficaram problemas não resolvidos em etapas anteriores. Esta etapa parece ser a mais difícil de todas, porque ela vem quando ocorre um distanciamento social, um sentimento de inutilidade, marca da nossa sociedade.  Alguns se aposentam de trabalhos que tiveram durante toda  a sua vida; outros percebem que sua tarefa como pais chegou ao fim e a maioria crê que suas contribuições não são mais necessárias. Nesse momento, sente-se a morte eminente. Além disso, o velho não produz e se sente inútil. Querendo provar a si mesmo e aos outros que ainda existe, ele acaba se tornando chato por suas interferências em questões diversas. Por outro lado, as pessoas se abstêm de um apego ao velho por saberem que sofrerão a qualquer momento com a sua morte. Assim, muitos são rejeitados e acabam vitimados pela solidão, principalmente nos casos em que o cônjuge já faleceu. Esse cenário é mais comum nas áreas urbanas. Nos meios rurais, o idoso tem muitas maneiras de se sentir útil e integrado à família. A perda é o tema predominante, característico das experiências emocionais dos idosos. Um idoso deve lidar com muitas perdas, mudança do status e prestígio profissional, e declínio das habilidades físicas e da saúde. Isso faz com que eles gastem grande quantidade de energia emocional e física no luto, na resolução desse e na adaptação às mudanças. Uma resposta mal adaptada à perda é a depressão.
       Mas o avanço tecnológico está proporcionando melhorias na qualidade de vida em geral e nos cuidados à saúde em particular. O progresso inegável da medicina tem permitido que a população idosa alcance padrões de bem-estar nunca vividos antes; novos medicamentos, novas tecnologias de diagnóstico, novos recursos de intervenção sobre o corpo permitem o prolongamento da saúde, a redução da doença e com isso menor comprometimento da autonomia física com o avançar da idade. No entanto, o despreparo das instituições e dos sujeitos para lidar com as questões sociais e psíquicas próprias do envelhecimento tem feito crescer o conjunto de sofrimentos socialmente impingidos aos idosos. Entre eles, está a violência, que aumenta consideravelmente em todo o mundo.
       A família é um complexo sistema de relações e interações entre seus membros e o meio em que se encontra, sua dinâmica influencia cada indivíduo em seu próprio desenvolvimento e reflete a situação e época social. É necessário conhecer e compreender a sua estrutura e dinâmica, de maneira contínua ao longo do tempo, pois só assim se conseguirá uma ampla visão do seu conceito. Os retratos dos diferentes momentos, porém, são importantes para a compreensão da evolução do seu desenvolvimento.
       Sob a ótica das autoras Carter e McGoldrick (1995), a família funciona como um sistema que se move através do tempo, e difere dos demais sistemas sociais pela sua complexidade e pelo valor dos relacionamentos estabelecidos entre os membros, que ora são incorporados ao grupo e ora o deixam. As autoras delinearam estágios do ciclo de vida familiar que tratam de diferentes momentos que a família norte americana de classe média vivencia. O primeiro estágio é chamado de “Saindo de casa: jovens solteiros”, cuja ênfase está na maneira com que o indivíduo negocia a sua independência com a família de origem, assim como o seu afastamento para nesse momento estabelecer objetivos pessoais, e assumir responsabilidades. O segundo estágio “A união de famílias no casamento: O novo casal”, diz respeito à união dos parceiros com um novo sistema e assim o estabelecimento de novas relações. Em seguida “Famílias com filhos pequenos” envolve a chegada de um novo membro e a questão da educação deste paralelamente às demais tarefas do casal; “Famílias com adolescentes”, novos valores são estabelecidos pelo adolescente, muitas vezes diferentes daqueles dos pais; “Lançando os filhos e seguindo em frente”, os filhos deixam a casa para tornarem-se independentes, e mais tarde apresentam os cônjuges ao sistema; e “Famílias no estágio tardio da vida”, os agora avós procuram se adequar à aposentadoria e aceitar suas condições físicas.
       Não menosprezando a importância das outras etapas, destacamos neste trabalho esse último estágio citado pelas autoras, para obtermos uma compreensão maior sobre a família nesta fase e os processos de violência que se apresentam contra o idoso.
       A família é definida como um grupo enraizado numa sociedade que sofreu mudanças importantes decorrentes da maior participação da mulher no mercado de trabalho, da redução do tamanho da família, do surgimento de novos papéis de gênero e da maior longevidade, mas  tem uma trajetória que lhe delega responsabilidades sociais, especialmente perante o idoso, a família vem assumindo um papel importante e inovador, na medida em que o envelhecimento acelerado da população que estamos constatando é um processo recente e ainda pouco estudado pelas ciências sociais.
       A Constituição Federal de 1988 apresenta a família como base da sociedade e coloca como dever da família, da sociedade e do Estado “amparar as pessoas idosas assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem estar e garantindo-lhes o direito à vida”. Parte do princípio de que a família precisa aprender a situar-se com relação aos seus velhos. Para tanto, é benéfico orientá-la sobre como tratá-los, o que lhes oferecer, o que lhes pedir, como relacionar-se com eles nas diversas esferas da vida familiar e social. Busca-se conscientizá-la, ou melhor, convencê-la, de que as pessoas com mais de sessenta e cinco anos continuam sendo úteis (MAFFIOLETTI, 2005).
       A situação familiar dessas pessoas, nesta fase da vida, reflete a influência de fatores demográficos e de saúde, ocorridos em etapas anteriores do ciclo vital. O tamanho da prole, a mortalidade diferencial, a viuvez, as separações, os recasamentos, as migrações vão conformando, ao longo do tempo, distintos tipos de arranjos familiares e domésticos, os quais, com o passar da idade, adquirem características específicas, que podem colocar o idoso, do ponto de vista emocional e material, em situação de segurança ou de vulnerabilidade.
       Com as fragilidades que muitas vezes acompanham o processo de envelhecimento é comum surgirem conflitos entre os filhos quando a situação dos pais passa a lhes exigir novas responsabilidades e cuidados. Percebemos, em nossa experiência prática, que os idosos carregam a expectativa de receberem atenção e cuidados dos filhos e netos no momento em que perderem ou tiverem suas capacidades diminuídas, sendo este um fantasma constante a perseguir e preocupar os mais velhos. Goldani (1999 apud SARTI, 2001) lembra que são numerosos os resultados de pesquisas internacionais que desmistificam a idéia de que residir com filhos ou fazer parte de uma família extensa é garantia para uma velhice segura ou livre de violência e maus-tratos.  Denúncias de violência física contra idosos aparecem nos casos em que diferentes gerações convivem na mesma unidade doméstica (Debert, 1999 apud SARTI, 2001).
       Segundo Maffioletti (2005) na realidade, a família precisa de um período de adaptação para aceitar e administrar com serenidade a nova situação, de forma a respeitar as necessidades dos pais e evitar que se sintam um encargo para os filhos. Daí a importância do idoso concentrar esforços para, nos mais diversos sentidos, não se entregar à inatividade evitando o mais possível o sentimento de dependência da família que tanto aflige o idoso.
       A lei estabelece que todo cidadão tem o dever de denunciar à autoridade competente qualquer forma de negligência, maus-tratos ou desrespeito ao idoso. As violências contra idosos se manifestam de três formas:

(a) estrutural: aquela que ocorre pela desigualdade social e é naturalizada nas manifestações  de pobreza, de miséria e de discriminação. Um exemplo que leva a essa situação é o próprio salário mínimo recebido pelo o idoso que não lhe dá condições de obter um boa qualidade de vida.
(b) institucional: está presente na prestação de serviços de saúde, assistência e previdência social que prestam serviços, na maioria dos casos, exercidos com burocracia impessoal e discriminadora. São exemplos, a exposição a longas filas, a falta de comunicação ou a comunicação confusa e a ausência de uma relação pessoal compreensiva. Também compreende aqui as instituições, clinicas e casas de repouso onde as pessoas são maltratadas, despersonalizadas, destituídas de qualquer poder e vontade, faltando-lhes alimentação, higiene e cuidados médicos adequados. Idosos são vistos, em muitos casos, como ocupantes de um leito.
(c) interpessoal: que se refere às interações e relações cotidianas ou também podemos chamar de violência familiar que são particularmente os abusos e negligências que se reproduzem por choque de gerações, por problemas de espaço físico e por dificuldades financeiras que costumam se somar a um imaginário social que considera a velhice como ‘decadência’ e os idosos como “passado” e “descartáveis”. Estudos sobre a violência contra idosos mostram que os autores dessa modalidade de violência são em geral adultos maduros, mais comumente filhos e netos das vítimas, mas também amigos, inquilinos e cuidadores (Fernandes; Assis, 1999).


       O agressor familiar, em geral, se caracteriza assim:


v    
vive na mesma casa que a vítima;
v     depende do idoso ou o idoso depende dele;
v     é abusador de álcool e drogas, ou o idoso dependente dele é abusador ;
v     tem vínculos afetivos frouxos e pouco comunicativos com o idoso;
v     vive socialmente isolado e assim mantém o idoso;
v     sofreu ou sofre agressões por parte dos idosos; depressão ou transtorno mental.

Os vínculos estreitos entre agressores e vítimas indicam a necessidade de se levar em conta os elos de dependência entre ambos, o histórico de sua relação e a dinâmica transgeracional, fatores que podem não apenas constituir as condições mais imediatas que precipitam a violência como representar obstáculos importantes para sua redução. Por isso, a natureza e a qualidade do vínculo entre o agressor e a vítima serão especialmente importantes na definição das formas de intervenção que querem reduzir a violência.
       Segundo a autora quando fazemos referência ao gênero, as mulheres idosas são vitimas de violência no interior da casa mais do que os homens, enquanto esses são vitimas na rua. Mas constata-se que ambos os sexos são vulneráveis quando apresentam dependência física ou mentalmente, quando apresentam problemas de esquecimento, confusão mental, alterações no sono, incontinência, dificuldades de locomoção, necessitando de cuidados intensivos em suas atividades da vida diária.
       Conforme Fernandes e Assis (1999) as formas mais comuns de violência familiar contra o idoso são assim classificadas:

1) os abusos físicos, entendidos como ações agressivas e brutais que podem ocasionar fraturas, hematomas, queimaduras ou outros danos físicos);
2) os abusos psicológicos, definidos como as diversas formas de privação ambiental, social ou verbal; a negação de direitos, as humilhações ou o uso de palavras e expressões que insultam ou ofendem; os preconceitos e a exclusão do convívio social;
3) os abusos financeiros ou a exploração econômica, definidos como a apropriação de rendimentos ou o uso ilícito de fundos, propriedades e outros ativos que pertençam ao idoso; geralmente cometidos por familiares, em tentativas de forçar procurações que lhes dêem acesso a bens patrimoniais dos velhos; na realização de vendas de bens e imóveis sem o seu consentimento; por meio da expulsão deles do seu tradicional espaço físico e social do lar ou por seu confinamento em algum aposento mínimo em residências que por direito lhes pertencem, dentre outras formas de coação. Os abusos também são cometidos pelo próprio Estado nas questões referentes a aposentadoria, pensões e concessão de benefícios, planos de saúde, bancos e lojas. Devido a idade também são vitimas de estelionatários devido a sua vulnerabilidade física e econômica em agências bancárias, caixas eletrônicas, lojas, ruas e transportes e de várias modalidades de crimes cometidos por inescrupulosos que tripudiam sobre.
4) a negligência, entendida como a situação na qual o responsável permite que o idoso experimente sofrimento. A negligência é caracterizada como ativa quando o ato é deliberado, e como passiva quando resulta de conhecimento inadequado das necessidades do idoso ou de estresses do cuidador, resultante da necessidade de ministrar cuidados prolongados;
5)  Abuso sexual, violência sexual são termos que se referem ao ato ou jogo sexual de caráter homo ou hetero-relacional, utilizando pessoas idosas. Esses abusos visam a obter excitação, relação sexual ou práticas eróticas por meio de aliciamento, violência física ou ameaças.
6) Abandono é uma forma de violência que se manifesta pela ausência ou deserção dos responsáveis governamentais, institucionais ou familiares de prestarem socorro a uma pessoa idosa que necessite de proteção.

 
      
Os acidentes de transportes e as quedas também são considerados formas de violência contra o idoso, pois, as quedas podem ser atribuídas a vários fatores: fragilidade física, uso de medicamentos que costumam provocar algum tipo de alteração no equilíbrio, na visão, ou estão associadas à presença de enfermidades como osteoporose. Os meios de transporte, com pessoas e assistência despreparada para o atendimento adequado ao idoso, elevam as causas de mortes, lesões e traumas em idosos, bem como as casas de repouso, instituições e até mesmo a própria casa que não possui instalações que acomodem adequadamente o idoso.
       A identificação dessas formas de violência requer intervenção interdisciplinar e atenção dirigida para os sinais de sua ocorrência. O comportamento agressivo e hostil do cuidador, sua ausência de disponibilidade para prestar os cuidados diários requeridos pela pessoa idosa, assim como a preocupação excessiva com o controle do idoso ou a queixa reiterada da carga que ele representa, são indícios de que a relação deve ser melhor examinada. Além disso, certos tipos de lesões e ferimentos freqüentes no idoso; sua aparência descuidada; desnutrição; comportamento muito agressivo ou apático; afastamento, isolamento; tristeza ou abatimento profundo são também sinais que merecem investigação. Desta maneira, em conseqüência dos maus tratos sofridos muitos idosos passam a sentir depressão, alienação, desordem pós-traumática, sentimentos de culpa e negação das ocorrências e situações que os vitimam e a viver em desesperança.
       Intervir na questão da violência doméstica implica em trabalhar as relações, denunciando a quebra do respeito e da proteção nas relações de trocas afetivas. No caso da violência contra o idoso, somam-se outras dificuldades: a vergonha, humilhação e o constrangimento, derivados da perda de autonomia; ou o receio das conseqüências de uma denúncia, como uma punição a seu familiar, que é freqüentemente o próprio cuidador. Tais dificuldades, somadas à precariedade de recursos disponíveis, dificultam a denúncia e o encaminhamento das ações de caráter assistencial ou jurídico.

 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FERNANDES, M. G. M.;ASSIS, J. F. (1999) Maus-tratos contra o idoso: Definições e estratégias para identificar e cuidar. Rev. Gerontologia,  vol. 7, n.3, p.144-149.

MAFFIOLETTI, V.L.R. (2005) Velhice e família: reflexões clínicas. Psicol. cienc. prof., vol.25, no.3, p.336-351.

SARTI, C.A. (2001) A velhice na familia atual. Acta Paul Enf, v. 14, n. 2, maio/ago.

 

   


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