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BRASÍLIA,
NOVEMBRO DE 2009
Projeto
Prevenir é Poder.
A Justiça e a Terapia Familiar na Construção da Paz e a Não
Violência
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A Justiça e a Terapia
Familiar na Construção da Paz e a Não Violência
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Prof.ª Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri
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| Introdução |
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“O
que precisamos aprender é reconhecer como os
problemas locais e globais estão
interconectados.
Nenhum dos problemas do nosso tempo podem ser
entendidos de maneira isolada.
Para resolvê-los, precisamos aprender como pensar
sistemicamente
em termos de relacionamentos, padrões e contextos”.
(Capra, 2008)
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A
mudança mais empolgante para nosso globo é a de novos
valores, onde a busca de direitos civis, pela paz, a justiça
social, os alimentos saudáveis, os cuidados com a saúde e
novos hábitos de consumo, trabalhados com a mitigação do
aquecimento global, vão incluir as complementariedades
ocultas nas incompatibilidades. Falar de violência, nesse
novo paradigma, é articular novas compreensões a todos os
protagonistas desse drama.
Sabemos que a educação
é o melhor caminho para a mudança de paradigmas e a família,
a escola e a comunidade são os primeiros grandes vínculos de
inserção da sustentabilidade de padrões éticos na vida dos
cidadãos. Precisamos pensar numa atmosfera que nos una a
todos: sexólogos, juízes, psicólogos, médicos, assistentes
sociais, advogados, promotores, educadores, pais, professores
e famílias em uma consciência de co-responsabilidade.
Numa época em que se
fala tanto de sustentabilidade, é preciso refletir também
sobre quais comportamentos violentos precisam ser revistos em
seus valores morais e éticos. Um comportamento social ecológico
precisa sanar as feridas passadas e prevenir as futuras, numa
consciência amparada pela espiritualidade, do sentido do
saber que todos estamos ligados ao todo, na busca da justiça
ecológica e social.
A Organização das Nações
Unidas (ONU) definiu o conjunto de valores, atitudes, tradições,
comportamentos e estilos de vida associados à cultura
de paz na Declaração
e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz,
divulgada em 13
de setembro de 1999.
Diversas instituições em todo o mundo aderiram a esta
declaração e se empenham na concretização destes ideais.
Em
2004, a
ONU definiu a Cultura de Paz como um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados no
respeito à vida, no fim da violência e na promoção e prática da não-violência por meio da
educação, do diálogo e da cooperação. No pleno respeito aos princípios de soberania,
integridade territorial e independência política dos Estados e de não
ingerência nos assuntos que são, essencialmente, de jurisdição
interna dos Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e o direito internacional. No pleno respeito
e na promoção de todos os direitos
humanos e liberdades fundamentais; No
compromisso com a solução pacífica dos conflitos.
Nos esforços para satisfazer as necessidades de
desenvolvimento e proteção do meio-ambiente
para as gerações presente e futuras. No respeito e promoção
do direito ao desenvolvimento.
No respeito e fomento à igualdade de direitos e oportunidades de mulheres e homens. No
respeito e fomento ao direito de todas as pessoas à liberdade
de expressão,
opinião
e informação.
Na adesão aos princípios de liberdade, justiça, democracia, tolerância, solidariedade, cooperação, pluralismo,
diversidade cultural,
diálogo e entendimento
em todos os níveis da sociedade e entre as nações e animados por uma atmosfera nacional e
internacional que favoreça a paz.
O que envolve ser não-violento?
A não-violência precisa ter existência nas áreas dos
pensamentos, das palavras e da ação. É necessário que o
corpo também se decida pela não-violência. A
filosofia é sempre uma re-flexão, ou seja, um voltar-se
sobre si mesmo, sobre a própria experiência e a própria ação.
O medo da própria
morte aparece como o grande propulsor da ação violenta. É
como se matando o outro eu me vingasse de ser mortal e
fortalecesse minha ilusão de imortalidade. É no
reconhecimento do outro que a existência humana começa e
este reconhecimento ocorre de modo natural quando enxergarmos
o outro. Colocar-se no lugar do outro é olhá-lo, percebê-lo
e sentí-lo com os seus olhos, pensamentos e sentimentos.
Aristóteles anuncia
virtudes cardeais para serem nutridas: coragem, prudência,
temperança, justiça e o exercício diário da prática de
perdoar, como importante meio de quebrar o encadeamento ação
violenta/reação violenta. O perdão vem romper com a reciprocidade e a imitação da violência,
buscando a liberdade; enquanto que o ressentimento, o rancor e
o ódio aprisionam o indivíduo aos grilhões do passado.
Nós, humanos,
somos a sociedade mais complexa dos seres vivos. Podemos
criar, acalentar, educar e formar nossa prole e, ao mesmo
tempo, agredir, humilhar, destruir, abusar e matar essa mesma
descendência. A violência permeia a nossa história, em cada
cultura do passado e do presente, ao longo da nossa evolução.
Especialmente nos chocam a violência intrafamiliar, seja
entre cônjuges, contra crianças, mulheres, homens, bebês e
idosos.
Um dos problemas da era
global e da internet,
é a banalização que a divulgação violenta do chamado
mundo plano propicia. Cenas e imagens que deveriam nos causar
repulsa, podem ser significadas como entretenimento e diversão
fascinantes e ocupar espaços lúdicos e educativos de nossas
crianças e adolescentes.
Há heterogeneidade e
complexidade na violência, desde comportamentos, idéias, ações
e palavras. Esta violência deve ser contextualizada, pois
influencia e é influenciada pelas histórias de adolescentes
que matam colegas nas escolas, mães que assassinam seus
filhos, homens que matam suas parceiras e crianças, mulheres
que espancam e humilham seus parceiros, bombas e terrorismo
efetuados em nome de deuses, torturas e genocídios, entre
outras. Esta polidimensionalidade e complexidade devem conter,
no assunto que pretendemos abordar neste artigo, o impacto da
violência e do medo no desenvolvimento de nossas crianças,
adolescentes, famílias, mulheres, homens e idosos.
Em
1974, a
Organização Mundial de Saúde (OMS), já denunciava que o
lar é o lugar mais violento das Américas e o FBI, em 1995,
alegou que 48% de violências contra crianças ocorrem dentro
de casa de várias formas: pelos pais biológicos, namorados e
namoradas de pais separados, pais e mães adotivos, padrastos
e madrastas, tios, primos e irmãos mais velhos. O grau de
toxidade desses abusos, inclui a humilhação, a exploração
e a degradação a que a vítima é submetida.
Em
1989 a
luta contra essa violência foi incluída no Estatuto da Criança
e do Adolescente – Lei 8069/90 e na Convenção
Internacional dos Direitos da Criança (1989). Violência
sexual contra crianças e adolescentes é crime contra a vida.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, prevê penas.
A lei Maria da Penha, nº.
11.340/06, sancionada em 7 de agosto de 2006, trouxe
importantes mudanças nos tipos de crimes de violência contra
a mulher e os procedimentos judiciais correspondentes. Um dos
destaques dessa lei é a caracterização da violência doméstica
como uma violação dos direitos humanos.
Será que podemos aí
incluir como disparadores de violência familiar a mídia?
Alguns programas de televisão, de videogames, da internet,
de algumas músicas e do cinema podem ser classificados como
abusivos para nossas crianças?
Pesquisas realizadas em
1995, realizadas por Houston, demonstraram que a exposição
de crianças à mídia, que exibe vários tipos de programas
violentos nos lares, constituem a maior força de valores
culturais que contribuem para a banalização da violência,
dentro da esfera protetora familiar. Este é também um dos
grandes paradoxos da violência intrafamiliar: a família
violenta é protetora, confunde e submete suas vítimas.
É na complexidade e
circularidade que propomos aqui uma visão sistêmica,
multicausal e com necessidades de intervenções
prolitransdisciplinares à violência, onde todos os
protagonistas: vítimas, agressores e co-agressores, devem ser
tratados, cuidados e educados.
Urge uma psicoeducação
da paz que leve em consideração a co-construção sócio
familiar da não-violência. Para isto, é preciso ter a
conscientização de que a violência é um fenômeno que
precisa da desconstrução das alternativas únicas de
afastamento, punição e/ou prisão do agressor; para uma
atitude não apenas disciplinatória, onde esse personagem
agressor possa também ser tratado na profundidade necessária
ao desenvolvimento familiar e social.
Outras questões dessa
politransdisciplinariedade aqui citada, é a necessária revisão
das metodologias de avaliação à situação traumática
vivida por toda família, especialmente por parte de todos os
profissionais que executam as intervenções: médicos,
policiais, psicólogos, assistentes sociais e juizes, entre
outros. As chamadas falsas denúncias, por exemplo, podem
significar retraumatizações, igualmente humilhantes e
degradantes às vítimas das famílias violentas e
violentadas.
Nossas políticas públicas
de saúde e sociedade civil necessitam de capacitações reais
profundas e amplas para atender agressores sexuais, vítimas e
co-agressores; numa visão “empoderada” de novos recursos
para os tratamentos adequados, que a família e a sociedade
precisam. Sem falar das duvidosas absolvições que instituições
escolares e religiosas produzem, caracterizando uma sociedade
que se mostra, às vezes, abusiva e permissiva.
Profissionais e
comunidade necessitam construir uma rede mais capacitada e
enfrentadora da violência a que nossas crianças,
adolescentes, mulheres, homens e idosos são, pelo silêncio e
segredos, cruelmente submetidos.
A idéia do Projeto
PREVENIR É PODER foi uma feliz coincidência de objetivos, na
década de oitenta, da F&Z Assessoria e Desenvolvimento em
Educação e Saúde de São Paulo e do Rotary Club de São
Paulo Butantã, cujo trabalho coordenado pela autora, com inúmeros
trabalhos realizados em favor do combate à AIDS e às violências
em geral, iniciou em 1986, um projeto que já beneficiou mais
de 20 mil pessoas no Brasil: crianças, adolescentes,
mulheres, homens, idosos, famílias e educadores, num objetivo
comum de “prevenir e
empoderar” as famílias, seus membros e sua comunidade,
numa luta vitoriosa de orientação e prevenção contra este
mal que aflige a humanidade: a violência.
A metodologia usada neste
Projeto Prevenir é Poder é o Sociodrama Construtivista da
Violência (Zampieri, 1996) e tem como mérito sua capacidade
de atingir os indivíduos psicologicamente, na esfera de sua
identidade pessoal, à medida em que amplia a informação e a
personaliza ao transmití-la, por meio de vivências das violências
diversas no lar e na sociedade em geral, contextualizada e
representada nas mais diversas situações do cotidiano das
vidas do público-alvo, suas relações amorosas, de gênero,
de poder, seus métodos contraceptivos, seus padrões morais,
religiosos e éticos. É uma metodologia avaliada em defesa de
teses e monografias de mestrado, doutorado e pós doutorado e
pode oferecer um comprometimento pessoal entre os
participantes, que, por sua vez, podem funcionar como elemento
multiplicador dessa educação preventiva.
O
objetivo geral deste Projeto PREVENIR É PODER, é criar
uma linguagem comum e capacitação sobre trabalhos, educação
e prevenção primária, secundária e terciária da violência.
Este específico que aqui denominados de: PREVENIR É PODER: A
JUSTIÇA E A TERAPIA FAMILIAR NA CONSTRUÇÃO DA PAZ E A NÃO-VIOLÊNCIA,
é proposto e promovido pelas parcerias entre: o Tribunal de
Justiça de Brasília, o INTERPSI de Brasília e a Pontifícia
Católica de Goiás, e tem como objetivos específicos co-construir estratégias de prevenção de
violências a crianças, adolescentes, mulheres, homens e
idosos e educar adultos que influenciam a rede sócio-familiar
dessas pessoas. Também o de co-criar estratégias para
eventuais denúncias e encaminhamentos de violências intra e
extra familiares, e multiplicar este trabalho treinando
profissionais das áreas da saúde mental e da justiça.
As estratégias
aplicadas são pesquisas das informações existentes sobre
violência através de questionários, de Cinedramas
Construtivistas, de Sociodramas Construtivistas tematizados, com
o uso de estimulações bilatérias, exposições dialogadas;
oficinas de teorização e de capacitação técnica para a
luta contra a violência e a construção da Paz.
Há 500 anos Leonardo da
Vinci preconizou a fundamental interdependência de todos os
fenômenos naturais e humanos na compreensão e busca de saídas
para a vida no cosmos. É preciso falar de um modo sustentável
de viver, num aspecto social de justiça ecológica, ética e
social. A violência, que ocorre neste exato momento, em
tantos casos, nos convida à ação. Urge uma co-construção
com o sentido de solidariedade para com as pessoas e suas famílias
violentas, presentes e futuras. Um movimento que pretende dar
início a novos processos de uma cultura da Paz, como
preconiza a ONU e como, ousada e realisticamente, pretendemos
nós.
A parceria da Terapia
Familiar com a Justiça são os grandes pilares para este
PROJETO PREVENIR É PODER: A JUSTIÇA E A TERAPIA FAMILIAR NA
CONSTRUÇÃO DA PAZ E A NÃO VIOLÊNCIA em Brasília neste mês
de novembro de 2009, onde o INTERPSI, a PUCGO e o Tribunal de
Justiça, juntos, constroem esta aliança pela PAZ e a não
violência, capacitando profissionais da saúde, da educação
e da justiça para a força da conscientização e o
“empoderamento” de intervenções pela Paz!
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CAPÍTULO
I: VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS
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Gercini Lina Siqueira
Helenice Gama Dias de Lima
Maria Aparecida Medeiros da Fonseca
Monique Guerreiro de Moura
Valéria
Cristina Fagundes
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Desde o século XVII no
Brasil - colônia, o abandono de crianças vinha se tornando
um problema que preocupava autoridades que o denunciavam
solicitando providências do rei. Havia muitas crianças
enjeitadas, abandonadas e foi criado, no século XVIII, o
sistema da Roda: essas crianças eram colocadas numa
“roda”, dispositivo cilíndrico que rodava do exterior
para o interior, onde as crianças eram recolhidas. Era esse o
sistema legal e assistencial para as crianças abandonadas ou
enjeitadas. Foi um período de desvalorização da criança,
inclusive de sua existência e vida (Silveira Faleiros,1995).
No Brasil - império no século XIX, a tônica da
legislação para a infância, nas primeiras décadas, faz menção
ao recolhimento de crianças órfãs e expostas a riscos,
preocupação baseada na ideologia cristã de amparar a infância
(ibidem).
Como o Brasil caminhava para a urbanização e a
industrialização, no final do século XIX, ganharam importância
os conhecimentos médicos sobre higiene e a família passou a
ser o alvo privilegiado dos higienistas e, assim, médicos e
juristas debruçaram-se sobre a criança, criando novos
saberes que indicavam a consciência da importância da infância
para o ideal de nação civilizada (ibidem).
Com o advento da República no século XX,
especialmente em suas duas primeiras décadas, teve lugar o
período mais profícuo da história da legislação
brasileira para a infância (Rizzini, 1995).
Foi a partir do século XIX e metade do século XX que
o padrão de cuidado com os filhos passou a ser caracterizado
por modo de ajuda, no qual se considera que as crianças sabem
do que precisam como qualquer outra pessoa. As mudanças no
modo de cuidar dos filhos provocaram impacto tanto nas crianças
quanto nos pais.
A sociedade civil brasileira despertou para uma
mobilização intensa em favor da criança e do adolescente,
pela gravidade do fenômeno da violência. Começou, então, a
se organizar em fóruns de debates que pressionaram a formulação
de leis de amparo à infância, numa perspectiva de direitos e
de proteção integral. Surge o ECA – Estatuto da Criança e
do Adolescente -, criado pela Lei 8.069, aprovada em junho de
1990, em substituição ao Código de Menores de 1979, que
continha um caráter arbitrário quanto às noções do menor
em situação irregular e de periculosidade. O ECA representou
um marco histórico de respeito e dignidade de um ser antes
considerado “coisificado”, mero objeto. Sabe-se das
dificuldades estruturais quanto a sua aplicação na sociedade
brasileira. Essa doutrina propõe políticas sociais e ações
especiais com vistas à garantia de direitos à infância e à
adolescência, restabelecendo a regulamentação de direitos e
a doutrina da proteção integral que asseguram a todas as
crianças e adolescentes, indistintamente, os direitos
fundamentais de seres humanos no exercício pleno da
cidadania. Assim, o ECA considera como crianças os indivíduos
de até 12 anos de idade incompletos.
A infância deve ser
considerada uma condição do ser criança, sendo importante respeitá-la e considerar seu
universo de representações, visto que ela é um sujeito
participante das relações sociais inserido no processo histórico,
social, cultural e psicológico. O registro de suas representações
significa possibilitar à criança escrever sua própria história
que até então foi produzida somente pelos adultos como uma
história sobre a criança.
A criança constrói a
sua matriz de identidade através das experiências vividas
com os membros da sua família. A família é a matriz do
desenvolvimento psicossocial da criança e ela deve propiciar
a acomodação da sua participação em diversos grupos,
subsistemas familiares e a uma sociedade para lhe garantir o
sentido de pertencimento, de separação e de individuação.
A família e a criança crescem juntas e a maneira como os
seus membros atravessam as mudanças pertinentes ao
desenvolvimento das etapas do seu crescimento modela e
programa os comportamentos da criança. É na família que a
criança tem atendidas as suas necessidades básicas de proteção,
socialização, apoio e afeto. Se a família é um sistema
aberto, em transformação, atento à hierarquia de poder, à
complementaridade de funções e aceita a interdependência de
papéis, estabelecendo fronteiras claras entre os subsistemas,
garantirá o desenvolvimento de habilidades interpessoais
favoráveis à comunicação saudável entre os seus membros.
Sendo assim, a criança sentir-se-á pertencendo àquela família
específica e à medida que ela cresce será preparada para se
separar e individuar-se com segurança e com a certeza de
poder contar sempre com o apoio da “sua família” (Minuchin,
1990). Por outro lado, se não há nitidez das fronteiras
dentro de uma família, a comunicação se torna difícil, as
funções protetoras ficam prejudicadas, podendo desenvolver
padrões disfuncionais de relacionamento, ocasionando o
desenvolvimento truncado da criança. Pode haver uma possível
repetição disso nas
relações adultas: é o caso da violência, assunto que
pretendemos tratar aqui.
Segundo Gabel (1997),
violência implica o uso de força física (estupro, sevícias)
ou psicológica (ameaças, abuso de autoridade). Podemos
incluir também atos cometidos contra indivíduos, cuja idade
e/ou deficiência mental os tornem incapazes de compreender
seu significado. Quanto à violência infantil, esta pode ser
caracterizada como todo ato capaz de causar constrangimento físico
ou moral no indivíduo. Além das marcas físicas, a violência
deixa seqüelas emocionais que futuramente irão
atrasar/prejudicar o aprendizado, o desenvolvimento físico e
emocional, relações sociais, além de gerar um impacto de
longo prazo com repercussões na vida familiar e social.
No Brasil, assim como em
outras partes do mundo, em diferentes culturas e classes
sociais, independente de sexo ou etnia, crianças e
adolescentes são vítimas da violência doméstica, sendo
este um fenômeno universal e endêmico.
Existem quatro formas mais comuns de violência
intrafamiliar: a física, a psicológica, a negligência e a
sexual.
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A violência física ocorre quando alguém causa ou tenta causar dano
por meio de força física, de algum tipo de arma ou
instrumento que possa causar lesões internas,
externas ou ambas.
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A violência psicológica inclui toda ação ou omissão que causa ou
visa a causar dano à auto-estima, à identidade ou ao
desenvolvimento da pessoa.
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A negligência é a omissão de responsabilidade de um ou mais membros
da família em relação a outro, sobretudo àqueles
que precisam de ajuda por questões de idade ou alguma
condição física, permanente ou temporária.
*
A violência sexual é toda ação na qual uma pessoa, em situação
de poder, obriga uma outra à realização de práticas
sexuais, utilizando força física, influência psicológica
ou uso de armas ou drogas (DAY ET. AL).
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O Relatório de 2002,
elaborado pela Organização Mundial de Saúde, aponta que, na
maioria dos países, meninas apresentam maior risco do que
meninos para o infanticídio, abuso sexual, negligência física
e nutricional, assim como para a prostituição forçada.
Segundo o documento, os meninos, em vários países,
apresentam maior risco de sofrer castigos físicos mais
graves. Da mesma forma, bebês prematuros, gêmeos e
deficientes físicos ou mentais demonstram estar sob maior
risco de abuso físico e negligência, características
capazes de interferir na formação do vínculo ou do apego,
tornando esta população mais vulnerável ao abuso, embora
tais fatores não apareçam como preponderantes para a violência
quando outros fatores são considerados, como variantes
parentais e sociais. Crianças que testemunham violência, por
sua vez, estão mais predispostas a reproduzir, quando
adultas, relacionamentos disfuncionais com suas próprias famílias.
A violência gera várias
conseqüências:
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1 – Manifestações
da violência psicológica:
Danos
imediatos: • pesadelos repetitivos; •
ansiedade, raiva, culpa, vergonha; • medo do
agressor e de pessoa do mesmo sexo; • quadros fóbico-ansiosos
e depressivo-agudos; • queixas psicossomáticas; •
isolamento social e sentimentos de estigmatização.
Danos
tardios: • aumento significativo na incidência
de transtornos psiquiátricos; • dissociação
afetiva, pensamentos invasivos, ideação suicida e
fobias mais agudas; • níveis intensos de ansiedade,
medo, depressão, isolamento, raiva, hostilidade e
culpa; • cognição distorcida, tais como sensação
crônica de perigo e confusão, pensamento ilógico,
imagens distorcidas do mundo e dificuldade de perceber
a realidade; • redução na compreensão de papéis
complexos e dificuldade para resolver problemas
interpessoais. |
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2 - Manifestações
da violência física:
O local mais acometido pela violência física no
corpo da criança e do adolescente é a pele. A lesão
pode incluir desde vermelhidão, equimoses ou
hematomas, até queimaduras de 1º a 3º grau. É
comum encontrarem-se marcas do instrumento utilizado
para espancar crianças ou adolescentes. Elas podem
apresentar forma de vara, de fios, de cinto ou até
mesmo da mão do agressor. Uma das manifestações
mais graves da violência física contra a criança é
a Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome).
Caracteriza-se por lesões de gravidade variável, que
ocorrem quando uma criança, geralmente um lactente,
é severa ou violentamente sacudida. Pode causar
cegueira ou lesões oftalmológicas, atraso no
desenvolvimento, convulsões, lesões da espinha, lesões
cerebrais, culminando com a morte. |
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3 - Manifestações
de negligência:
A negligência pode envolver falha na alimentação
adequada, em providenciar cuidados médicos ou em
proteger a criança de perigos, atraso nas vacinas,
perder documentos, deixar crianças sozinhas ou fora
da escola. |
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4 - Manifestações
da violência sexual:
A
curto prazo: • secularização excessiva,
como atividade masturbatória compulsiva; •distúrbios
do sono, aprendizagem, alimentação e conduta isolada
• banhos freqüentes • sintomas psicóticos •
quadros ansiosos, obsessivo-compulsivos, depressão,
• expressões repetidas através de gestos; •
sentimentos de rejeição, confusão, humilhação,
vergonha e medo.
A
longo prazo: • abuso de álcool e outras
drogas; • promiscuidade; • disfunções sexuais;
• coitofobia • disfunções menstruais • imagem
corporal pobre; • sexualização ou abuso de seus
filhos; • comportamento auto e heterodestrutivo; •
baixa auto-estima e culpa; • sentimentos de vergonha
e traição; • distúrbios psiquiátricos; •
homossexualismo. |
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A
violência física contra crianças ainda é um fenômeno
marcante nas famílias brasileiras. Virou “mania” bater
nas crianças para educá-las (Azevedo & Guerra, 2001).
A violência física
contra crianças ainda é um fenômeno marcante nas famílias
brasileiras. Virou “mania” bater nas crianças para educá-las
(Azevedo & Guerra, 2001).
Educar de modo autoritário
significa moldar, controlar e julgar os comportamentos e as
atitudes dos filhos de acordo com o padrão de conduta
estabelecida pelos pais. Eles supervalorizam a obediência à
autoridade como uma virtude e utilizam medidas punitivas, e até
mesmo abusivas, para “quebrar a vontade do filho”, caso
sintam que sua autoridade está ameaçada. (Ellis, 1997).
O limite de tolerância é mínimo e “quase sempre os
pais batem nos filhos porque não conseguem controlar sua própria
impulsividade. Quando eles próprios não conseguem substituir
ações por palavras, transmitem aos filhos que muita coisa se
resolve “no tapa e no grito” (Maldonado, 1999).
Azevedo & Guerra ( 2001) referem que “toda ação
que causa dor física numa criança, desde um simples tapa até
o espancamento fatal, representam um só continuum
de violência”, ou seja, a punição física de crianças
é considerada como violência, mesmo sendo chamada “punição
mais leve (do tipo, palmada no bumbum), já que tem implicações
de dor física. Dessa forma, uma simples palmada pode
representar uma porta aberta para quadros de violência mais
grave.
Na violência sexual, manifesta-se, como o expressa
Saffioti (2005), o poder do macho. Esse poder é o maior poder
exercido dentro do contexto familiar e se exerce sobre o corpo
e a psique da criança. Esta é submetida, pois não tem
escolha, ao poder/prazer do mais forte e ao segredo sobre esta
relação. O abuso sexual é, assim, o aproveitamento de crianças
para a sua participação em atividades sexuais por parte de
uma pessoa, dotada de autoridade e poder e reconhecida pela
criança que se encontra em posição de desigualdade.
O abuso sexual envolve uma série de atos que implicam
uma rede de silêncio, tolerância, conivência, medo e
impunidade por parte dos membros da família onde ocorre o
abuso, bem como por parte de amigos, vizinhos, companheiros de
escola/trabalho/lazer, professores e pessoal dos serviços de
saúde e de segurança (Ferrari, 2002).
A violência é um fenômeno multifatorial. Assim,
faz-se necessário um olhar multidimensional para que sua
identificação seja cada vez mais perceptível, e que estratégias
eficazes sejam desenvolvidas para a sua prevenção. Contudo,
na sociedade moderna a violência contra crianças tem
crescido paulatinamente, o que nos impulsiona a refletir sobre
tal fenômeno e suas conseqüências na saúde mental das
crianças. A prevenção garante direitos e, sobretudo, a saúde
psicológica e emocional das nossas crianças e adolescentes.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GABEL, M. (1997)Crianças
vítimas de abuso sexual. Summus, São Paulo.
RIZZINI, I. & PILOTTI, F. (1995) A
arte de governar crianças: a história das políticas
sociais, da legislação e da assistência à infância
no Brasil. Ed. Universitária Santa Úrsula, Rio
de Janeiro.
TREMBLAY, R. E., GERVAIS, J., PETITCLERC, A. (2008) Prevenir
a violência pelo aprendizado na primeira infância.
Centro de Excelência para o Desenvolvimento da
Primeira Infância – Universidade de Montreal: Canadá.
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Para a Organização Mundial de
Saúde (OMS), adolescente é o indivíduo que se encontra entre os dez e vinte anos de
idade. Já no Estatuto da criança e do adolescente (ECA), lei
8.069 de 1990, Art 2°, é estabelecido outra faixa etária
dos doze aos dezoito anos.
É uma fase do desenvolvimento humano, marcada por um
período de transição entre a infância e a vida adulta onde
ocorrem intensas modificações nos aspectos biológico,
mental e social, caracterizado por um contexto demasiadamente
complicado de inseguranças, medos, iniciativa, autonomia e
construção da identidade constantemente questionados em
busca de uma confirmação. Esse conjunto de transformações
caracteriza a crise normal da adolescência e tem repercussões
diretas na sua vida relacional, sobretudo com os pais. O fenômeno
mais visível a que o pré-adolescente e o adolescente têm
que se acostumar durante este período é a transformação
fisiológica e morfológica. Estes são associados à fase
conhecida como “puberdade” (“idade viril”) que está
ligada com o aparecimento da menstruação e da pilosidade púbica
nas garotas e pela emissão de esperma pelos rapazes. Todos
esses fenômenos físicos suscitam reações psicológicas
(que é marcado pelas primeiras reações emocionais e
psicossociais, cujas manifestações variam em função da
cultura e da pessoa) e produzem efeitos sobre a personalidade
do indivíduo na formação da identidade, que requer adaptação.
Alguns aspectos da
identidade pessoal envolvem características sobre as quais o
adolescente não tem controle, como o sexo, raça, etnia e nível
socioeconômico. Além dessas características
preestabelecidas, o adolescente começa a se auto-avaliar em
varias dimensões diferentes: aceitação social pelos
colegas, habilidades acadêmicas e esportivas, habilidades no
trabalho, aparência pessoal e outros aspectos que o
adolescente sente necessidade de escolher de acordo com seus
valores.
A família, conforme
Alarcão (2002) é demarcada por diferentes etapas, chamadas
por ele de ciclo vital da família, que tem sido tomado como
referência à família nuclear tradicional, composta por pai,
mãe e filhos, embora seja comum encontrar novas constituições
e configurações da família atualmente. Para que se
possa haver uma compreensão global sobre o ciclo vital,
dividem-no em cinco etapas, que se inicia com a Formação do Casal que é o nascimento da família nuclear onde o
casal une-se também à respectiva família de origem dos
parceiros – heranças familiares e aquisições novas. A
segunda etapa consiste na Família com filhos pequenos, período marcado pelo nascimento do
primeiro filho. Alarcão (2002) complementa, afirmando que é
nesta altura que os pais sobem de geração, passando a ter
responsabilidades e experiências que anteriormente pertenciam
aos seus próprios pais. É nesta fase que a díade alarga-se
a uma tríade, há uma nova reelaboração, distribuições e
transformações de papéis e funções na dinâmica familiar.
A terceira etapa é a Família
com filhos na escola, momento em que há a abertura do
sistema familiar ao mundo extra-familiar. É nessa fase que a
família é posta à prova no exterior no que diz respeito a
sua imagem, tanto pela competência da criança com relação
a seu desempenho escolar quanto àquela competência que
possui para conviver com os outros. A quarta etapa é a Família
com filhos adolescentes que demarca novo equilíbrio entre
o individual, o familiar e o social, não só do adolescente,
mas com todos os membros da família e o sistema como um
todo.Por ultimo, a etapa da Família
com filhos adultos em que há a saída dos filhos (síndrome
do ninho vazio) e a chegada de novos membros como netos,
genros e noras. Nesse período, os pais passam por situações
de doenças, aposentadoria e perdas, entre outros.
A família é vista como
um sistema, uma reunião, um grupo, um conjunto de pessoas que
define uma teia relacional de globalidade e, só assim nessa
perspectiva holística é que poderá haver uma compreensão
correta sobre o sentido do que é família (Relvas,
2000). Segundo esta autora a família é “entendida como um
organismo vivo, portanto, é de se supor que ela também sofra
um processo de desenvolvimento no sentido de sua evolução. O
desenvolvimento familiar é a mudança da família como grupo,
bem como às mudanças nos seus membros individuais, ao nível
funcional, interacional e estrutural” (p. 16).
A família é o local
onde a natureza e a cultura se encontram, juntamente com as
bases das atitudes sexuais, assumindo posturas mais
significativamente culturais do que inatas. Sendo considerada
um sistema maior dentro dos componentes familiares, é
composta pelo subsistema conjugal, subsistema filhos e
subsistema fraterno e na fase
da adolescência, ela não mais emerge como o centro do
mundo na vida do adolescente, sendo este o momento em que,
para Wagner et al (2002), as regras costumam ser questionadas
e até mesmo contestadas, o que de fato necessário para a
construção de sua identidade. Como um sistema, encontra-se
inserida em outros sistemas, como é o caso da sociedade e ao
mesmo tempo em que determina algumas de suas características
também sofre as influências de seus padrões estabelecidos.
Relvas
(2000, p. 145) assinala que “Mais do que em qualquer outra
etapa é imperioso o alargamento dos espaços individuais no
seio da família, sem que isso conduza ao esboroamento do próprio
espaço grupal que, apesar de redefinido, deve ser reforçado
na sua coesão.” A autora ressalta que o que é
tradicionalmente esperado como papel da família é a preparação
ao longo das etapas anteriores do jovem para a socialização
e a individualização e isso, só poderá ser desempenhado
com sucesso se houver pelos demais membros da família e
principalmente dos pais, uma (re)afirmação individual. A
forma como cada família vive e convive é primordial para que
se perceba como é o desempenho desse jovem frente a essa
fase, levando-se em conta o peso do contexto social, uma vez
que são grandes as expectativas criadas em torno da adolescência.
Por ser a adolescência
um processo que demanda profundas transformações, em
especial a comunicação familiar, uma das tarefas da família
consiste em aumentar a flexibilidade a fim de promover a
integração de independência dos filhos (Wagner,
et al 2005). O contexto familiar torna-se extremamente
importante, viabilizando o diálogo satisfatório entre pais e
filhos, uma vez que se observa neste período o início do
cuidado dos adolescentes em filtrar as informações antes de
contá-las aos pais.
Nas famílias, cujas relações
são caracteristicamente muito rígidas, a dificuldade de
comunicação entre pais e filhos pode ser mais freqüentes,
pois os jovens acabam perdendo a confiança que têm em seus
pais e estes, outrora, tornam-se incapazes de perceber as
mudanças ocorridas em seus filhos. Resumindo, a adolescência
é uma fase de intensas emoções e na qual o sujeito busca a
consolidação da sua própria identidade e com estas
manifestações ocorre também o afastamento dos pais e um
maior envolvimento com o grupo. Esse afastamento em muitos
momentos pode ser interpretado como rebeldia, mesmo não
havendo motivos para isso. Sendo que a adolescência é
expressa de uma maneira geral através de comportamentos e
desejos ambivalentes, na qual definem como os jovens vivenciam
e relatam suas experiências familiares.
Alarcão (2002)
complementa dizendo que esta é a etapa mais longa e difícil
do ciclo vital, na medida em que exige um permanente equilíbrio
entre as exigências do sistema familiar e as aspirações de
cada membro da família, pois é nessa etapa são depositados
nos adolescentes as mais contraditórias expectativas, ora com
atitudes paternalistas de quem já viu muito e tudo sabe, ora
com uma atitude de reverência pela irreverência e capacidade
de correr riscos que os caracteriza. Relvas (2000, p. 148)
afirma que “prisioneiros destas injunções os adolescentes
procuram encontrar as terceiras vias de respostas, que algumas
vezes assumem caráter marginal ou patológico – se sou e não
sou, o que fazer – e tentam ser não sendo, estar na
comunidade não estando, através, por exemplo da violência.”
A família revela-se como
um sistema integrado, que busca manter a estabilidade e o
senso de equilíbrio em seus relacionamentos internos e
externos, no decorrer de sua história. No entanto, também
contemplam a possibilidade de que tal estabilidade possa ser
ameaçada por mudanças e por períodos de desequilíbrio
(crises imprevisíveis). Uma crise prevista, no decorrer do
ciclo vital de desenvolvimento, pode ser exemplificada pela
troca de funções e responsabilidades exercidas pelos pais em
relação aos seus filhos. Durante a infância, os papéis
familiares são, principalmente, de nutrição, de proteção
e de socialização. Com a entrada na adolescência, o
relacionamento e o funcionamento da família mudam. Os
adolescentes necessitam mais apoio e orientação que o
cuidado dedicado a eles anteriormente. No decorrer da vida,
essa função é exercida num contexto dinâmico de organização
e de relação e poder. Nesse contexto emergem: distribuição
desigual de autoridade e poder entre os membros da família;
relação centrada em papéis e funções rigidamente
definidas; indiferenciação dos papéis com apagamento de
limites entre os membros; ambiente estressor, com dificuldade
de diálogo e descontrole de agressividade; estrutura de
funcionamento fechada, com pobre interação social; situações
de crises ou perdas (morte, separação, migração, entre
outras); baixo nível de desenvolvimento da autonomia dos
indivíduos; história de violência familiar na família de
origem das pessoas envolvidas; abuso de drogas; antecedentes
criminais ou uso de armas; comprometimento psicológico/psiquiátrico
dos indivíduos; dependência econômica/emocional e baixa
auto-estima entre os membros (BRASIL, 2002). Todos
esses fatores predispõem à violência.
Por causa dessas crises e
desequilíbrios, que podem ser momentâneos ao longo do ciclo
vital da família, a violência intrafamiliar não é, na
maioria dos casos, claramente identificável. Origina-se de
relações interpessoais assimétricas e hierárquicas,
marcadas por desigualdade e subordinação (Koller, 1999 apud
DE ANTONI; KOLLER, 2000). Pode ser fruto de uma crise não
resolvida na família, ou um padrão de relacionamento que
acompanha a história familiar daquele grupo. A ocorrência de
violência intrafamiliar pode ser ocultada como um segredo, o
que revela a coesão doentia deste grupo. O ingresso na
adolescência, que se evidencia pela transformação emocional
e cognitiva, pode tornar, no entanto, o (a) jovem mais capaz
de enfrentar e desvelar a situação de violência e, assim,
buscar recursos diferenciados para amenizar ou resolver esta
situação. Estes adolescentes podem denunciar o agressor,
defender-se dele ou saírem de casa (De
Antoni; Koller, 2000).
A violência não é fenômeno
social exclusivo de nossa época, mas sim resultado de uma
cultura que vem se estabelecendo ao longo da história, na
qual as relações de poder desempenham papel fundamental. São
permeadas por questões de gênero e de hierarquia,
chegando-se a uma sociedade preponderantemente adultocêntrica
e machista em que, segundo se pode deduzir, o segmento social
mais frágil é o da mulher-criança (SAFFIOTI, 1989 apud
HABIGZANG et al, 2006).
No tocante à vitimização
de adolescentes dentro dos lares, diz-se que esta seria
inerente a relações subjetivas, interpessoais e hierárquicas,
em que há um abuso do poder característico, por parte do
adulto responsável (OLIVEIRA, 1989 apud HABIGZANG et al,
2006). O mesmo autor enfatiza que essa sujeição de jovens a
diversas formas de maus-tratos no ambiente familiar pode ter
duração indefinida, devido à sacralidade dessa instituição
e à autoridade que os pais exercem sobre seus filhos,
impondo-lhes um pacto de silêncio e, por vezes, de
cumplicidade.
Em outras palavras, a
violência doméstica poderia ser a expressão do excesso do
poder disciplinador e coercitivo dos pais ou responsáveis,
que faz da vítima um objeto, desrespeitando seus direitos
fundamentais, à vida, à liberdade, à integridade física e
a segurança. Em termos operacionais, ela compreenderia:
|
(...)
qualquer dano físico ou psicológico não acidental
contra um menor de dezesseis ou dezoito anos –
segundo o regime de cada país -, ocasionado por seus
pais ou cuidadores, que ocorre como resultado de ações
físicas, sexuais ou emocionais, por omissão ou
comissão, e que ameaçam o desenvolvimento normal,
tanto físico como psicológico da criança (Fuster;
Ochoa, 1995, apud apud HABIGZANG et al, 2006.
p. 379).
|
As
conseqüências decorrentes da vivência de violência parecem
ser inúmeras, porém há certa dificuldade em descrevê-las
de modo sistemático, porque, dependendo do caso, as seqüelas
são agravadas ou amenizadas com o tempo e podem se manifestar
tardiamente ou, ainda, nunca aparecerem e se ter a situação
da pessoa considerada como “assintomática” (CEREZO, 1995
apud HABIGZANG et al, 2006). Contudo, existe a presença de
uma série de problemas em crianças, que poderiam ser
decorrentes dos maus tratos familiares e que englobam desde
comprometimentos orgânicos até emocionais e/ou
psicossociais, destacando-se os danos ao desenvolvimento
neurológico, intelectual, social, a baixa auto-estima, os
comportamentos agressivos, o isolamento, as dificuldades de
relacionamento, depressão, ideação de homicídio e de suicídio,
dificuldade de adaptação sexual, sentimento de culpa,
abandono da escola, prostituição e rejeição familiar; e,
é importante enfatizar, com conseqüências que estariam
sendo observadas a curto e a longo prazo.
Focalizando mais
especificamente aspectos psicossociais, Bringiotti (1999 apud
HABIGZANG et al, 2006) afirma que uma relação de violência
na infância produz problemas que certamente se manifestarão
frente a outras pessoas. Assim, esses jovens, comparados aos
que não sofreram maus tratos, apresentam um número alto de vínculos
inseguros e têm mais condutas de esquiva diante de adultos não
familiares. Por outro lado, nas relações com pares, as crianças
e adolescentes maltratados tendem a exibir maior agressividade
e menor tolerância à frustração, o que sugere terem elas
dificuldades em assumir as perspectivas do outro e em
discriminar suas emoções para poder desenvolver um modelo de
relação simétrico, baseado no sentimento de igualdade e de
confiança, visto que suas experiências são caracterizadas
pela exploração, submissão e violação.
Quanto às representações
de si mesmas, ainda segundo Bringiotti (1999 apud HABIGZANG et
al, 2006), essas crianças e adolescentes carecem de confiança
nelas próprias, suas perspectivas de futuro são incertas, além
de expressarem mais freqüentemente sintomas de tristeza e
depressão. Também é comum que se observem atrasos no
desenvolvimento cognitivo, decorrente de uma lenta aquisição
de habilidades acadêmicas, concorrendo assim para a repetência
e atraso escolar. No que diz respeito ao desenvolvimento
moral, Fuster e Ochoa (1995 apud HABIGZANG et al, 2006)
sugerem que as crianças e adolescentes maltratados manifestam
uma compreensão deficiente de regras sociais e, citando
alguns estudos, destacam que as vítimas de maus-tratos
constroem seus juízos morais e sociais a partir de suas
experiências e, portanto, podem internalizar padrões de
conduta que refletem as normas/valores subjacentes à vivência
de abuso/negligência.
Como se vê a violência
contra crianças e adolescentes pode afetar todos os aspectos
da vida da criança, como psicológicos, físicos,
comportamentais, acadêmicos, sexuais, interpessoais,
espirituais, comprometendo a auto-estima e estimulando a ocorrência
de violência subseqüente. Há uma tendência em subestimar
os efeitos da violência doméstica contra a criança e o
adolescente como menos sérios, acreditando que o impacto
parece ser temporário e desaparecer no transcorrer do
desenvolvimento infantil. O trauma não deve ser
desconsiderado por seus efeitos a longo prazo não serem
evidenciados de imediato. Deve ser reconhecido como um sério
problema da infância. Mesmo que crianças vitimizadas sejam
retiradas de suas casas, os efeitos da experiência vivida
repercutirão em toda sua vida.
|
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
ALARCÃO,
M. (2002) (des) Equilíbrios
Familiares. Editora Quarteto, 2ª Ed.
BRASIL. Ministério da Saúde. (2002) Violência
intrafamiliar:
orientações para a prática
em serviço. Brasília
(DF): Ministério da Saúde.
DE ANTONI, C; KOLLER, S.H. (2000) A
visão da familia entre os adolescentes que sofreram
violência intrafamiliar. Est. Psicol., vol. 5, n.
2, jul/dez, Natal.
HABIGZANG, L.F; AZEVEDO G.A; KOLLER, S.H et al. (2006)
Fatores de risco e de proteção na rede de
atendimento a criança e adolescente vitimas de violência
domestica. Revista
Psic. Reflexão e Critica. Vol. 19, n. 3, Porto
Alegre, p. 379-390. Disponível em: <www.scielo.br.>
Acesso em 31 de outubro de 2009.
PENSO M. A. (2003)Artigo da Tese de Doutorado Dinâmicas Familiares e Construções Identitárias de Adolescentes
Envolvidos
em Atos Infracionais
e com Drogas. Instituto de Psicologia da
Universidade de Brasília.
RELVAS, A.P.(2000) O
ciclo vital da família: Perspectiva Sistémica.
Editora Afrontamento, 2ª Ed.
WAGNER, A; et al. (2005) Estratégias de comunicação
familiar: a perspectiva dos filhos adolescentes.
Psicologia
Reflexão e Crítica. Porto Alegre, v. 18, n. 2.
Disponível em: www.scielo.br
Acesso em 21 de Novembro de 2006. |
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CAPÍTULO III: VIOLÊNCIAS SEXUAIS INTRAFAMILIARES.
NARRATIVAS, TRAUMAS, SOCIODRAMA CONSTRUTIVISTA E EMDR.
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Prof.ª
Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri
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Se
pensarmos que crianças vítimas de abusos sexuais dentro de
casa, ficam mais vulneráveis à violência escolar também,
iniciaremos uma compreensão aterrorizadora, e mais profunda,
da complexa tríade da violência e de abusos a que nossas
crianças podem ser submetidas: sociedade, escola, família.
Recordo-me de um
atendimento clínico onde um homem adulto de nome fictício
Pedro, já com seus 50 anos, e de bom nível socioeconômico e
intelectual, durante uma sessão de EMDR (Eye Movement
Desensitization and Reprocessing) dizia:
|
“... eu
via meu pai, pela fresta da porta do meu quarto,
obrigando a minha mãe a ter sexo com ele... eu
gritava para ele parar com aquilo, eu chorava
desesperado e pedia um socorro que ninguém
escutava... e quando ele me pegava no meu quarto, eu
gritava pela minha mãe, mas ela não me ouvia... hoje
eu vejo que ela preferia que ele abusasse de mim como
quisesse, porque assim ela ficava livre dele... não
sei de quem mais tenho raiva, de meu pai ou de minha mãe...
O que mais me dava desgosto era no dia seguinte, os
dois rindo juntos... eles eram uns sem vergonhas...”
|
Milhares
de crianças são vítimas e politraumatizadas por violências
no lar, na escola e na comunidade. Para muitas delas, o lar, a
escola e a comunidade são locus
de medo, dominação, negligência e abusos.
É preciso ver para crer? Ou crer para ver?
Se é preciso saber que não vemos o que negamos
perceber, dar visibilidade a lares e escolas abusivas é uma
das nossas responsabilidades como psicoterapeutas sexuais.
Se nos conscientizarmos da realidade abusiva familiar a
que nossas crianças estão expostas, certamente passaremos a
enxergar os sinais invisíveis dos hematomas de suas almas
feridas.
OS MITOS
Há vários mitos com relação à violência e abusos
infantis como: que isso pode ser do direito privado de cada
família e que ninguém deve interferir; que as crianças e
adolescentes são provocadoras do abuso por terem atitudes
sedutoras e/ou erotizadas; que é uma questão de pobreza e de
pessoas pouco instruídas ou de classe social mais baixa.
Todavia, este fenômeno não é exclusivo de nenhum critério
de raça, cor, etnia ou cultura. Não há, na maioria das
vezes, episódios isolados e, infelizmente, os casos mais freqüentes
estão entre pais biológicos e filhas e filhos. A pobreza não
é a causadora da violência intrafamiliar e de toda a negligência
a que nossas crianças são submetidas, mas um dos fatores de
risco, somado a outros como, a rejeição da revelação, da
visibilidade e ação preventiva e terapêutica a essas questões.
COMO SÃO OS
ABUSADORES?
Os abusadores sexuais
intrafamiliares são essencialmente homens, em torno de 94%. (Barudy,
1998). Estabelecem com as vítimas um processo de pedofilização:
uma categoria de abuso do poder, que é comparada à tortura
limpa, onde um familiar adulto destrói uma criança ou
adolescente, de uma forma tão refinada e manipuladora
emocionalmente, que a vítima, muitas vezes, nem consegue se
reconhecer como tal. São pessoas chamadas de distintas, de
todas as classes sociais, de varias profissões, raças,
religiões, etnias de varias nacionalidades. Apesar de seus
aspectos exteriores de normalidade, essas pessoas, quando nos
falam na prática clínica, sentem-se interiormente frágeis
como adultos. Frequentemente têm problemas de auto-estima e
de relacionamento, especialmente homens que não se sentem
capazes de enfrentar sua masculinidade como imaginam que
deveriam e que não são capazes; e buscam, como uma espécie
de solução às suas angústias e temores existenciais, o
abuso de crianças e adolescentes.
Seus processos de
individuação têm problemas por não antigirem a maturidade
esperada em níveis psicossociais e relacionais e alguns deles
relatam sentirem-se pressionados sob forças como: sedução,
culpabilização e/ou segredos, por seus sistemas familiares e
o entorno social. Costumam apresentar dificuldades de
autonomia emocional para participar de relações emocionais
com seus pares.
Gilberto, nome fictício
de um executivo de 41 anos, dizia:
|
“... eu
me sentia gradualmente tomado por uma angústia, um
vazio enorme no peito e na boca do estômago... o
segredo e o isolamento que eu me impunha desde
adolescente... a esposa era doce e me respeitava em
muitas crises de mau humor... daí a solidão me
excitava... a idéia ia tomando conta de mim... a
coisa ia crescendo, crescendo e eu queria um alívio...
depois de consumar o ato... eu me aliviava... e
esquecia...”
|
Muitas vezes estes abusadores estão atados às suas
infâncias, cuja lembrança é a única fase relatada como
feliz e profundamente gratificante. Em algumas sessões de
psicoterapia, deixam claras suas posições de prisão a relações
triangulares com seus pais, onde foram eleitos como
“confidentes” ou “parceiros emocionais” de um deles
contra o outro.
Outros
ofensores sexuais, quando trabalhados em nossa prática clínica,
trazem experiências traumáticas de suas infâncias, de onde
vieram com importantes carências afetivas que se manifestam
por buscas de forças e de poder, que podem dissimular
sentimentos de raiva e de medo do mundo adulto. São pessoas
que relatam tendências a “coisificar” suas vítimas, com
quem têm, às vezes, a ilusão de serem superiores.
Mário, nome fictício de
um senhor advogado de 42 anos, relatou:
|
“... eu
me sentia tão estimulado pela inocência da minha
menina que adormecia no carro, no banco de trás...
comecei a acariciar sua genitália levemente, primeiro
sobre a calcinha e depois debaixo dela... parei o
carro e me masturbava enquanto acariciava a minha própria
filha com três aninhos... parecia uma excitação de
menino... eu ficava exaltadamente feliz... poderoso,
inteiro...feliz... mas bastava ela se mexer ou virar
de lado que eu me assustava e parava imediatamente...
Daí eu me sentia tenso de novo, como quando tive as
primeira relações sexuais com as namoradas... Eu só
me aliviava quando fantasiava aquela situação de
novo... e me masturbava muitas
vezes...compulsivamente...”
|
Problemas de apego e angústias de separação são lembradas
em sessões de EMDR com abusadores sexuais, em minha experiência
clinica. Relatam-nas como elementos de fragilidade, como se não
tivessem feito lutos adequados e sentem-se como perdedores,
especialmente, em situações de desapegos, como diversos
momentos críticos nas esperadas crises previsíveis ao longo
do ciclo de suas vidas familiares. Há ainda, depoimentos de
tendência a isolamento social e grandes dificuldades para
controlar frustrações decorrentes da vida adulta, social,
amorosa e familiar.
|
“...
eu era tido como um garoto amoroso e tímido... quase
não saia de casa, passava os domingos dentro de casa
ou com a família... me assustavam as garotas...eu me
achava pouco atraente... e odiava a possibilidade de
ser rejeitado, então preferia não arriscar nada...
Descobri que namorar as meninas mais feias e mais
pobres era uma saída... Com 16 anos eu peguei a filha
da minha empregada, que tinha uns 3 ou 4 anos e me
masturbava me esfregando no bumbum dela... daí a
coisa foi crescendo e crescendo... hoje eu tenho que
fugir da internet... porque fotos de meninas nuas me
chamam para uma recaída...”
(Depoimento
de Sérgio, nome fictício de um homem com 67 anos e
profissional bem sucedido na área de finanças).
|
Homens como Sérgio carecem de auto afirmação de suas
visibilidades, e têm representação do gênero masculino
transtornados, atribuído a atributos de poder, de dominação
e de força; tipicamente protagonistas de uma cultura familiar
patriarcal e falocrática, que acredita que o homem deve
provar sua superioridade às mulheres e às crianças.
Utilizam a sua sexualidade como instrumento de força, com
desconexões emocionais importantes.
|
“...
Parecia que eu entrava num transe quando eu acariciava
a minha filha à noite... eu ia cobrí-la... todas as
noites e ali eu me masturbava... a delicadeza e a
fragilidade dela era o que mais me excitava... a cara
de anjo dormindo... o cabelo sedoso, a pele macia de
criança...”
(Assim
falou o mesmo fictício Sérgio em uma sessão de
psicoterapia)
|
Há abusadores em série e abusadores
circunstanciais. Nos primeiros, encontramos compulsivos crônicos
e repetitivos atos de pedofilia. Nos segundos, os abusos são
cometidos em momentos de crises existenciais ligadas a
sentimentos de angústia e impotência, em fases de divórcio,
de conflitos conjugais, fracassos profissionais e perda de potência
sexual, entre outros.
Barudy (1998) chama de
pedófilos obsessivos, aqueles que têm como alvo principal e
exclusivo, crianças para suas satisfações sexuais, com quem
têm uma ilusão de amor recíproco. Podem ser cuidadores e
protetores destas crianças e tentam racionalizar seus abusos
como positivos, não apresentando sentimentos de vergonha, nem
de arrependimento.
Flávio, nome fictício
de um dentista de 35 anos, casado e pai de dois meninos e de
uma menina, que abusou sexualmente dos 3 aos 9 anos, relatou:
|
“...
ela é a minha princesa... eu sempre a protegi do
mundo masculino e grosseiro... nunca a penetrei, nunca
a machuquei... eu sempre a colocava de costas para
mim, no meu colo e esfregava meu pênis nas pernas
dela... era uma espécie de brincadeira... ela ficava
quietinha, não falava nada... era nosso segredo...
acho que todos os pais sentem essa vontade... e eu
jamais iria machucar a minha filha... é uma sociedade
hipócrita a nossa.. quem não quer uma brincadeirinha
de amor, sem malícia, bem inocente... com uma criança
doce...uma princesa meiga...”
|
Há uma espécie de fixação sexual sobre o corpo infantil,
com um certo mito de um “amor” por crianças,
provavelmente como representação de uma intoxicação
afetiva erotizada nas infâncias desses abusadores.
|
“...
meu tio morava conosco e hoje eu sei que ele era
doido... descobri numa gaveta um monte de fotografias
de crianças nuas e eu o espiei várias vezes se
masturbando e olhando para aquelas fotos... eu tinha
uns seis anos... depois eu roubei uma foto dele e me
masturbava, ou parecia que me masturbava... na adolescência.
As meninas peladas nos banheiros no clube...tomando
banho...eu me escondia e ficava num murinho
espiando... sempre me excitou menina nua, bem
pequena... daí... eu não me controlei e abusei de
minha sobrinha pequenina... eu a ensinava a dirigir o
carro e a colocava no meu colo, com o meu pênis para
fora...”
|
Este foi um relato de Henrique, 47 anos, nome fictício de um
comerciante, que trabalhava também numa ONG que cuida de
crianças...
|
“...
depois foi com as amiguinhas de minha filha que iam
brincar lá em casa, depois com as meninas da ONG...
sempre de três ou quatro anos... elas não percebem
direito o que acontece...”
|
Murray Bowen (1994) fala da capacidade da construção
do ego individual quando as pessoas podem diferenciar-se
gradual e emocionalmente de seus pais e de suas famílias de
origem ao longo de suas vidas. Nessa visão os abusadores
sexuais intrafamiliares são emaranhados emocionalmente com
suas famílias de origem e possuem débil individuação
integrada ou seja: ou se sentem muito dependentes ou muito e
magicamente independentes emocionalmente de seus familiares.
Buscam dominar a angústia de desintegração através da
“fusão” com os contatos sexuais com as crianças. Algumas
vezes são homens com quadros depressivos, não expressamente
violentos e com uma certa passividade emocional que lembra as
situações sexuais onde eles próprios foram abusados em sua
infância.
Cristiano, nome fictício
de um professor universitário de 39 anos, revelou:
|
“...na
hora que meu meio irmão chegava da escola... meu coração
já ficava acelerado e eu tinha uma certa falta de
ar... ele dizia que era porque eu gostava de chupar o
pau dele... e ficava excitado. Ele era meu ídolo e
dez anos mais velho que eu... bom... eu senti uma
coisa parecida quando eu beijava a genitália da minha
filha de 5 anos...”
|
Essas narrativas, obviamente modificadas para a preservação
de sigilos, são, infelizmente freqüentes nos relatos dos
abusadores sexuais. Elas estão “escondidas” em famílias
aparentemente consideradas perfeitas. Com pais, mães, tios,
avós e irmãos aparentemente perfeitos. O abusador sexual não
tem cara de monstro, nem aparentemente são monstruosos os
lares que eles protegem e provém.
E
AS MÃES CO-ABUSADORAS?
Algumas mães negam-se a ver o que revelam seus
filhos abusados. Algumas delas podem ter sido socializadas em
ideologias familiares de modelos patriarcais altamente
abusivos. Outras, também foram abusadas sexualmente nas
idades de suas filhas e filhos abusados. Protagonistas de uma
identidade sócio-histórica, cerca de um terço dessas
mulheres está em relações conjugais conflitivas e foram
abusadas físico, sexual e/ou psicologicamente em suas famílias
de origem. Paradoxalmente, estas mulheres também se sentem
culpadas por não satisfazer sexual e amorosamente seus homens
violentos e são treinadas a desculpá-los. Algumas delas são
chamadas as quem
“amam demais” ou co-dependentes afetivas. Mesmo quando
essas mães, as chamadas co-abusadoras, aparentam ser
controladoras e fortes, é perigoso e reducionista rotulá-las
como passivas e irresponsáveis, pois, muitas vezes, são
sobreviventes de verdadeiras tragédias emocionais familiares,
onde prematuramente desenvolveram posturas exteriores de
fortes e de poderosas, camuflando fragilidades afetivas
profundas.
Algumas dessas mães
apresentam-se como agressivas e, como descreve Selvini
Palazzoli (1978), são aparentemente autônomas, mas desejosas
de intimidades afetivas e emocionais.
Na prática clínica,
observamos algumas mães que, na hora da revelação do abuso
sexual intrafamiliar, falam da incredulidade de que são
acometidas e descrevem de seus maridos como respeitadores e
bons pais. A idéia desse homem ter abusado seus filhos ou
sobrinhos, lhes parece inconcebível.
A Sra. Maria, mãe de
dois meninos, como ficticiamente aqui chamamos, uma mulher de
39 anos, cujo marido abusou de duas sobrinhas, filhas de sua
irmã mais velha, afirmou:
|
“...
ele seria a última pessoa de quem eu desconfiaria uma
monstruosidade dessas. O que sempre me encantou nele
foi a bondade, o altruísmo, a gentileza comigo e com
meus familiares... Nunca vou poder me perdoar por ter
sido tão cega...”
|
Em situações mais complexas, há mães que parecem
cúmplices do abuso, pois tinham algumas desconfianças, mas não
conseguiam proteger suas crianças ou adolescentes. São
dependentes do abusador física, econômica e/ou
emocionalmente e sentem-se impotentes para assegurar proteção
a seus filhos e/ou dependentes. São essas as mulheres que
mais apresentam recaídas em tentar se aproximar novamente
destes maridos e retiram ou negam as queixas colocadas nos
meios de justiça.
Silvana, 38 anos, vítima
sexual de seu pai biológico dos 5 aos 14 anos, falava de sua
mãe:
|
“...
ela me contou recentemente que se achava pouco
importante para todos, menos para ele, meu pai... e
que ele era bom e fazia com que ela se sentisse
protegida e segura. Ela tinha medo de ficar sozinha
para o resto da vida. Seu pai, o meu avô, batia muito
nela...bebia, batia na mãe e nos irmãos... E que meu
pai, pelo menos, não bebia e não batia na gente...
Ela dizia que ele era um marido e um pai para nós,
muito melhor que o pai dela... Ela parece que me
ofereceu de bandeja para ele... para agradecer porque
ele não batia nela... que crueldade e egoísmo... não
sei quem era pior: ele ou ela. Eu lembro de colocar
tampas de panelas na minha cama para fazer barulho
quando ele ia... eu batia a cabeça na parede... ela
nunca escutou, nunca acordou...”
|
Em
outras situações, mais raras em minha experiência clínica,
porém presentes na literatura especializada (Barudy, 1992)
estão as mães que participam ativamente do abuso, muitas
vezes incitando o marido abusador. Apenas trabalhei com estes
casos em situações de supervisão de colegas que trabalhavam
com crianças institucionalizadas. Todas estas observações
me fazem pensar em cumplicidades complexas e invisíveis, dos
adultos de famílias abusadoras sexualmente. Provavelmente são
casais pouco diferenciados emocionalmente que têm
dificuldades em distinguir o real do imaginado ou idealizado.
|
“...
eu fiquei informada de tudo, mas achei exagero proibí-lo
de ficar com as filhas e sobrinhas... achava que com
meu amor e parceria, ele ficaria totalmente curado...
até que ele voltou a abusar de nossa netinha e aí eu
não agüentei...”
|
|
(Sofia,
67 anos, nome fictício). |
QUAIS
SÃO AS CONSEQUÊNCIAS MAIS FREQUENTES DOS ABUSOS SEXUAIS
INTRAFAMILIARES?
O agressor sexual familiar exerce sobre a vítima,
que depende dele de maneira vital, um controle importante,
seja com mentiras, com sugestionabilidades, com chantagens
emocionais ou ameaças.
Além disso, e como se não
bastasse, a dor, o medo, a impotência e as possibilidades de
a vítima sentir alguma forma de prazer, são freqüentes. Com
a manipulação dos laços afetivos dessa relação, vitimas
desenvolvem pensamentos culpabilizantes e a obrigação do silêncio
e do segredo. Traumas revelados por angústia, medo, alienações
e dissociações, entre outros, estão presentes em algumas vítimas
crianças e adolescentes.
|
“... eu
achava que, por ser uma menina bonita, que tinha coxas
grossas e bumbum arrebitado, era culpada por fazer meu
pai me desejar sexualmente... além disso, como eu
poderia, sendo tão má pessoa, destruir o sustento
financeiro e econômico de toda a minha família?....
eu me sentia totalmente dependente dele... e minha mãe
era fraca, eu tinha que proteger todos...”
|
Assim
relatou Érica, nome fictício de uma jovem de 23 anos, que
finalmente, na psicoterapia, revelou o abuso sexual a que foi
submetida dos 4 aos 17 anos, pelo pai e por um tio paterno. O
depoimento de Érica nos revela o que chamamos de “efeito
vampirizador” onde a vítima torna-se a culpada, a má e não
merecedora de proteção.
A traumatização pela
violência sexual intrafamiliar, cujas vítimas recebem
alimentos afetivos sexualizados, com mensagens falsas e
culpabilizantes, podem apresentar flashbacks,
alucinações, labilidades emocionais, transtornos do sono e
da alimentação; hipergivilância, hiperatividade, evitação,
petrificação afetiva, isolamento, perda de interesses
sociais, familiares, lúdicos e de lazer; transtornos de memória
e de concentração, fobias, pânico, depressão e idéias
suicidas, entre outros.
Quando essas vítimas
apresentam, também, a “síndrome de adaptação” (Summit,
1983) ou de “alienação sacrificial” (Barudy, 1992) podem
manifestar: sedução, erotismo exagerado para sua idade,
agressividade sexual, masturbação compulsiva, promiscuidade
sexual, jogos sexuais agressivos, transtornos de identidade
sexual, prostituição e atração posterior por parceiros
(as) abusivos.
|
“...
eu só sabia seduzir para busca afeto... e isso me
rotulava de safada na família. Então, quando meu
marido a que eu contei o segredo, revelou à minha família
e bateu no meu pai, todos foram contra mim, de novo...
e disseram como eu fui uma pequena putinha, desde os
cinco anos de idade... falaram tantos horrores de mim,
que tive medo de meu marido achar isso também... aliás
eu ainda tenho esse medo... que um dia ele se vire
contra mim...”
(Narrativa de Joana, 32 anos, abusada pelo pai, avô
paterno e motorista da família)
|
Outras características encontradas em crianças, adolescentes e vítimas
de abusos sexuais intrafamiliares são: diminuições das
capacidades de sentir emoções associadas à intimidade, ao
contato físico e à sexualidade. Quadros de anorgasmia primária
e secundária, e de vaginismo, entre outros, podem ser
denunciadores de abusos sexuais intrafamiliares.
Já falamos também da
dissociação com um mecanismo defensivo, onde a vítima, para
resistir à agressão, entregou seu corpo ao agressor, mas não
seus pensamentos e alma.
|
“...
eu me imaginava com um ursinho abraçado a mim e deitada
com o meu bumbum numa estrada cheia de pedrinhas... por
isso podia ter alguma dor...”
|
|
(Joana,
32 anos) |
As famílias com filhos crianças e adolescentes
simbolizam a matriz da educação sexual, é o local nutridor
da saúde, do bem estar e dos direitos a uma vida sexual sem
doenças e sem gravidezes indesejadas.
Uma vida sem violências e sem danos sexuais, prazerosa
e livre de preconceitos.
Entendemos que o abuso
sexual é o ato ou o jogo sexual onde o adulto submete a criança
ou o adolescente, por uma relação desigual de poder, para se
satisfazer e/ou estimular sexualmente, impondo-se pela força
física, por seduções, oferecendo presentes ou por ameaças
quaisquer às próprias vítimas.
Propomos uma educação
sexual que esteja comprometida com os vários temas de referência
culturalmente constituídos, que influenciam a maneira como os
brasileiros compreendem, interpretam e constroem suas próprias
experiências sexuais. Esses sistemas de referências
basicamente são: perspectivas de gênero, valores religiosos,
perspectivas de sexualidade saudável e doente, permitida e
pecaminosa e perspectivas do erótico, onde o sexo não se
volta apenas para a procriação, mas também para a busca do
prazer. A tradição escolar de ensino da sexualidade,
habitualmente se reporta aos temas apenas da genética e
biologia ligados à reprodução humana. Parece que o erotismo
é a pedra – de – toque do nosso atraso em termos de
divulgação referente ao comportamento sexual. Faz parte dos
direitos da criança o direito de pensar também sobre a sua
própria sexualidade.
Sabemos da importância
da co-educação entre pais, professores e seus respectivos
filhos e alunos, onde a sexualidade possa estimular o
desenvolvimento da auto estima das crianças; uma educação
que lhes ofereça conhecimento sobre seus corpos, de forma a
terem a melhor imagem corporal, que se aceitem como pessoas
sexuadas e que desenvolvam seus processos de identidade sexual
da forma mais harmônica, espirituosa e amorosa possível.
A sexualidade deve ser
apresentada de forma integrada em todas as quatro dimensões
da pessoa humana, quais sejam: a biológica, a psicológica,
social e espiritual. Isto é importante na busca da maturidade
individual através do projeto de vida de cada um. Este
projeto deve privilegiar, também, aspectos de normas de
higiene sexual, reflexões sobre a influência de meios de
comunicação social nos comportamentos e atitudes das crianças
e, finalmente, processos de valores éticos humanos e do que
seja a violência sexual e emocional.
Como identidade sexual é
um processo que se descobre aproximadamente entre dois e sete
anos, é fundamental que as crianças recebam educação
sexual de seus pais e professores nessa faixa etária. Isto
evitaria conflitos internos e a não aceitação de sua imagem
corporal e sexual. Além de prepará-los para perceber, dentro
de sua idade, quando um processo de sedução pode ter
características de abuso sexual e psicológico, e capacitá-los,
então, a quebrar o silêncio e a buscar apoio e proteção.
Educar pais, pagens, professores e profissionais afins,
auxilia a comunicação e visualização deste fenômeno
negado bem como a capacitação destas pessoas para sair da
impotência e buscar ajuda multiprofissional.
A PSICOTERAPIA FAMILIAR SOCIODRAMÁTICA CONSTRUTIVISTA E O EMDR NO TRATAMENTO DE TRAUMAS
DOS ABUSOS SEXUAIS INTRAFAMILIARES
Na abordagem psicoterápica do EMDR consideramos como inseparáveis:
pensamentos, memória sensorial, emoção e experiência
corporal, como componentes da vida psicológica. Grand (2006)
diz que as sensações corporais são uma forma de comunicação
visceral que pode trazer importantes informações ao processo
psicoterapêutico, quando processadas com estímulos
bilaterais. As recordações decorridas durante o
processamento do EMDR, ajudam a mente a interpretá-las e como
há integração das recordações e emoção no
processamento. EMDR possibilita conexões neurofisiológicas
entre as várias partes do cérebro e do corpo dentro de um
sistema. Pessoas com problemas pós traumáticos, poderão ter
dificuldades para realizar essas conexões. Habitualmente,
crenças negativas aqui se sustentam sistematicamente nos
traumas. Pelo processamento do EMDR podemos trazer crenças e
sensações positivas. Que podem estimular vários recursos
neurofisiológicos, e psicológicos do paciente, numa aplicação
para auto-conhecimento de como possuem, ainda, recursos para
lidarem com situações de vulnerabilidade emocional e
corporal.
Pessoas mais deprimidas
vivem no passado e as mais ansiosas, no futuro. O EMDR traz a
pessoa para o presente, na chamada atenção dual, onde
presente e passado estão diferenciados e estimulados. EMDR,
assim favorece a remissão e/ou minimização dos traumas das
pessoas.
Há em nossas vidas, um
processo de relatividade de memórias, que as mantem em estado
latente. Izquierdo (2002) diz que isto pode ser um mecanismo
de defesa; especialmente de episódios dolorosos, humilhantes
ou aterrorizantes e que podem provocar estresses importantes.
Isto é uma forma de reagir ao medo só na presença de situações
que o exigem, não a qualquer hora. Diz ainda, o autor, que
“há cosias que nosso cérebro recorda, mas nós não” (IZQUIERDO,
2002, p. 110).
Pessoas que agem de
maneira defendida podem estar sendo impedidas, por aspectos do
seu contexto, de se comportar ou pensar de maneiras válidas e
saudáveis. Normalmente esses problemas estão ligados à
cultura de gênero, que impede a discussão de alguns valores,
mitos e tabus, especialmente no que se refere à sexualidade.
Quando no Sociodrama Construtivista discutimos os temos
impedidos, nos vários níveis do sistema familiar e/ou
conjugal, pode-se decidir a melhor maneira de mudar um
relacionamento, usando para tal inclusive, as mudanças
internas que podem constituir barreiras artificiais nos níveis
intrapsíquicos.
Von Glaserfeld (2000,p.
39) chamava de perspectivismo o conjunto de pressupostos de
uma pessoa que determina como ela vê os fato de sua vida. Por
isto, o terapeuta sociodramatista construtivista vê a mente
como o nível mais básico de qualquer sistema humano, que tem
níveis múltiplos que interação acrescentamos a isto, o
conceito de recursividade, que se refere às interações
entre os vários sistemas inter e intrapsíquicos que, com o
tempo faz com quem comportamentos e crenças sobre a natureza
da condição humana influenciam-se consistente e
reciprocamente. Assim, não conhecemos a realidade
objetivamente porque a realidade é uma construção interna
associada às realidade externas.
Interpsiquicamente
falando, a mente tem diálogos internos que pode capacitá-la
resolver problemas, controlar e liderar as visas das pessoas
com novas perspectiva, aplicadas, criativa e saudáveis.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Precisamos perceber, nas complexidades das narrativas
dos abusos sexuais intrafamiliares, pais abusadores submissos,
com esposas dominantes e filhos dominados; pais abusadores
dominantes, esposas dominantes e filhos abusados que funcionam
como reguladores da relação conjugal, pais abusadores,
esposas submissas dominadas e filhos abusados protetores e
precocemente adultilizados; uma complexidade multifatorial,
com dificuldades e tensões econômicas, estresses familiares
inúmeros.
Há modernidades que
exigem visões de mundo concentradas no poder do ter e na
substituição das invisibilidades de dores do ser.
Sentimentos de impotência, fracasso social e inferioridade
estão presentes nos familiares abusadores. Este problema nos
diz respeito. Somos co-responsáveis por ele.
Consideramos a família
como um sistema vivo, que possui uma estrutura e organização
próprias e com recursos para lidar com as diversas crises
previsíveis de seu ciclo vital, mantemos também a idéia de
que ela tem um caráter autônomo: com identidade e
iniciativas próprias e um caráter heterônimo: com suas
dependências diversas do seu meio ambiental. Os dois aspectos
colaboram, intercomunicando-se, para mudanças necessárias ao
crescimento da família, com a evolução de seus membros. É
necessária uma capacidade de integração harmoniosa entre a
família e o meio sem perder sua autonomia. De todas as interações
familiares, a relação homem e mulher, em seus papéis de:
pai - mãe; mulher - homem, esposo – esposa e amantes, entre
outros; é a mais importante, no que se refere aos impactos
sobre as crianças. Este é outro problema que nos afeta
diretamente; sexólogos e terapeutas; pois quando há perturbações
nesse sub-sistema conjugal, e uma sobrecarga de peso pelas
alterações intra e interpsiquicas, estes casais podem
produzir violências sexuais, com sua prole ou parentes próximos
infantis, e acabam com um excesso de fechamento e hermetismo,
alimentados pelos segredos de abusos, que conduz, também, a
uma espécie de degradação de suas potencialidades criativas
e reprodutoras de saídas saudáveis. Desta forma, tais casais
e suas famílias, apresentam sintomas, muitas vezes invisíveis
ao meio
em geral. Maturana
e Varela (1984) falam de condutas , que permanecem através
das gerações, pelos significados dados às situações
violentas, que podem acabar sendo um modo de viver,
transmitido pela linguagem também. O adultismo e o machismo,
que estão na base dos comportamentos violentos, são exemplos
dessas ideologias dominantes, herdadas na transgeracionalidade.
Como sexólogos e terapeutas, podemos desconstruir esse poder
violento na reflexão conjunta.
Outro elemento base de
famílias abusivas, de acordo com Egeland e Stroufe (1981) são
os transtornos de apego de crianças vítimas de abusos
sexuais intrafamiliares. Sabemos que, para as crianças, os laços
de apego são sinônimos de sobrevivência. Pais pouco disponíveis
e poucos cuidadores emocionalmente são encontrados em famílias
abusivas. Podemos, como educadores sexuais, ter intervenções
transformadoras na colaboração para pais mais sadios.
O abusador influencia na
abusação e vice-versa. Desta forma, é preciso lembrar que
famílias mais pobres são mais detectáveis que as mais
ricas, quanto às violências sexuais intrafamiliares e ,
inclusive, mais aceitas por nossa cultura como passiveis de
ter todo esse problema. No entanto, em todas as classes
sociais, há violências sexuais exercidas contra crianças e
adolescentes, dentro do sagrado lar. A cegueira ao poder que
alimenta o segredo do abuso é nosso problema também.
A cultura com princípios
morais e religiosos rígidos, com grande crise de valores, com
a veneração pela força e pelo poder, com o buscado
hedonismo a qualquer preço, com a fragilidade de vínculos
com as famílias extensas e a sociedade, acúmulo de frustrações
e solidão alimentada pelos segredos, constituem elementos que
também exercem um papel importante na produção do abuso
sexual intrafamiliar, onde a “coisificação” das crianças
e dos adolescentes são fontes de satisfação imediata, erótica
e sexual. Como podemos, por exemplo, contribuir com uma mídia
mais educadora e menos tóxica?
Jorge Barudy (1998) diz
que o próprio Freud (1913) foi um dos primeiros a reconhecer
a existência e freqüência dos abusos sexuais. Todavia, forçado
pela pressão social de sua época, acabou defendendo a idéia
de que a maioria dos abusos tratava-se de fantasias infantis.
Ferenzi (1982) foi um dos primeiros psicanalistas a opor-se a
estas idéias de fantasias e insistiu no caráter real e
profundamente traumático das experiências sexuais entre
adultos e crianças.
Nos paradigmas clínicos
que chamamos de pós modernos, a articulação entre o EMDR e
o Sociodrama Construtivista Familiar, traz resultados eficazes
nos tratamentos dos traumas individuais conjugais e
familiares, nas diversas disfunções sexuais e afetivas que
direta e indiretamente têm, na sua trama, abusos sexuais
intrafamiliares. Os Sociodramas Construtivistas da Violência
Sexual Intrafamiliar, pretendem, também, a psicoeducação
para prevenção primária deste fenômeno.
|
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CAPÍTULO
IV : VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES
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Ana Vilma Dias de Lucena Silveira
Karina Borges Medeiros
Marcia Angélica F. P. Dourado
Maria Cristina do Nascimento Alves
Mariana Martins Juras
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A violência
doméstica contra a mulher tem destaque em nosso país,
especialmente a partir da aprovação da Lei 11.340/2006,
conhecida como Lei Maria da Penha. É um fenômeno antigo,
ainda enraizado em nossa cultura, onde, por muito tempo,
prevaleceu a doutrina do patriarcado (Lima & Santos, 2009;
Hirigoyen, 2006).
Neste sentido, serão apresentadas neste texto algumas
considerações importantes para a atuação profissional
junto a esta população, como: pressupostos teóricos, tipos
de violência contra a mulher e intervenção profissional.
É
importante ressaltar que a apresentação dessas teorias,
neste texto, será apenas elucidativa, necessário aprofundar
o conhecimento em cada um desses eixos teóricos. Neste
sentido, serão sugeridas referências bibliográficas ao
final do texto.
É
fundamental que se discuta o conceito
de gênero, que é uma categoria essencialmente cultural e
social, em que compreende-se que não se nasce homem ou
mulher, e sim torna-se homem ou mulher ao longo do
desenvolvimento cultural e social (Diniz, 2003; Saffioti,
1999). É necessário refletir, também, acerca da hierarquia
que foi construída entre os gêneros em nossa cultura, onde
favoreceu-se o estabelecimento do patriarcado.
A
cultura do patriarcado, construída na vida familiar e
influenciada pela sociedade, favorece o estabelecimento de papéis
de masculino e feminino rígidos como, por exemplo, as funções
de mando e controle mais voltada aos homens, e de cuidado às
mulheres. Além disso, nossa cultura também promove
sentimentos de vergonha, medo e culpa por parte da mulher e
condutas de vitimização e justificação por parte do homem,
em casos de violência doméstica. Esses processos dificultam
que as mulheres procurem ajuda, não sentindo-se apoiadas e
validadas em seu sofrimento.
A teoria sistêmica
propõe que violência doméstica contra a mulher é um fenômeno
complexo e multidimensional. A partir desta visão, passamos a
observar os indivíduos em relações, em seus sistemas mais
amplos, como a família, a comunidade, a sociedade e a
cultura, além de proporcionar processos de competência e
autonomia as pessoas (Vasconcellos, 1995, 2003).
Os episódios de violência podem ser entendidos a
partir de um ciclo de violência que vai sendo construído e, muitas vezes,
consiste um padrão de relacionamento violento entre o casal.
O ciclo de violência é formado por três fases: aumento da
tensão; tensão máxima/explosão e lua de mel/arrependimento
(Walker, 1979; Angelim, 2004).

Para o aumento da tensão, há uma
crescente de intensidade e freqüência da violência que,
algumas vezes, não é nem percebida como tal. A explosão é
o estopim da violência, onde uma agressão muito grande é
proferida contra a mulher, momento em que ela pode buscar
ajuda. Após isto, o agressor demonstra arrependimento pelo
ato violento e amorosidade, onde irá contextualizar e
justificar o ato violento, a fim de preservar o vínculo
afetivo.
Podemos analisar a teoria do duplo vínculo nos casos de violência conjugal, onde estão
presentes freqüente paradoxos e contradições nesta relação.
Um dos principais paradoxos vivenciados pelas mulheres que
sofrem violência doméstica é a frase “Eu te bato porque
te amo”, que leva a mulher a permanecer em um estado de
confusão em relação à vivência de amor e de violência,
concomitantemente (Angelim & Diniz, 2009; Penfold, 2006).
De acordo com a noção jurídica sobre a Lei
11.340/2006 (Lei Maria da Penha) todos os profissionais que
atuam com a violência contra a mulher, independente de sua área
de atuação, devem conhecer profundamente essa lei, a fim de
orientar toda a sociedade sobre os direitos das mulheres, em
serem respeitadas em sua dignidade e integridade física,
moral, psicológica, sexual e espiritual.
As violências contra a mulher pode assumir várias
formas:
|
§
Física:
É a ofensa à integridade física ou saúde corporal
que pode ou não deixar marcas, como tapas, socos,
empurrões, tiro.
§
Psicológica:
são condutas que causam o dano emocional, prejudicam
a auto estima, vise controlar suas ações, como ameaças,
contrangimentos, humilhações, vigilâncias
constantes, perseguições, etc.
§
Sexual:
Constrangimento com o propósito de limitar a auto
determinação sexual e reprodutiva da mulher, seja
submetendo-a a prostituição, impedindo-a de usar métodos
contraceptivos, obrigando-a a manter relações
sexuais ou qualquer outro meio.
§
Moral:
Qualquer ofensa contra a honra, injúria, calúnia ou
difamação.
§
Patrimonial:
Qualquer conduta que configure retenção, subtração,
destruição parcial ou total de seus objetos,
instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens e
etc.
§
Espiritual:
Qualquer conduta que vise limitar ou proibir a mulher
de exercer suas crenças, valores e costumes de sua
religiosidade. |
|
Ressaltamos que todos esses
tipos de violência não se apresentam de forma isolada e que
estão interligados.
A mulher, em situação de violência, é um
sujeito de direitos e é nesse contexto que todo e qualquer
serviço de atendimento deve ser a ela oferecido, o que
significa que o plano de intervenção deve ser elaborado em
conjunto com ela e suas escolhas devem ser respeitadas. As
mulheres não têm que provar a situação de violência a que
foram submetidas. Os profissionais devem ouvi-las, acreditar
no seu relato e tratá-las sem preconceito.
Neste contexto, é importante que toda a família
envolvida na situação tenha espaço para as escutas, tanto a
mulher, quanto o agressor, filhos e familiares; uma vez que
todos sofrem quando vivenciam um ato violento. Outros membros
da rede local também podem ter espaço de discussão e reflexão
sobre o tema, como membros de igreja, escolas e vizinhança,
entre outros. A violência contra a mulher é um fenômeno
cultural e deve ser trabalhado junto aos seus atores.
A atuação
interdisciplinar também é fundamental para este trabalho, em
que toda a rede de atendimento (saúde, justiça, educação,
conselhos de direitos, entre outros) deve estar articulada com
o objetivo de promover atenção integral à mulher e à sua
família.
Por fim, a atualização teórica do profissional que
lida com a violência doméstica contra a mulher deve ser
constante e promover auto-reflexões sobre seus valores e crenças,
especialmente voltados à questão de gênero. Nenhum de nós
está isento das influências culturais e, portanto, é necessário
questionar nossos próprios conceitos, a fim de que possamos
analisar nossas intervenções com essas famílias.
|
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o. (Trabalho original publicado em 2005)
SAFFIOTI, H. I. B. (1999). Já
se mete a colher em briga de marido e mulher. Perspectiva,
São Paulo, 13(4), 82-91. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/spp/v13n4/v13n4a08.pdf
VASCONCELLOS,
M. J. E. de (1995). Terapia Familiar Sistêmica: bases cibernéticas. Campinas: Psy II.
VASCONCELLOS, M. J. E. de (2003). Pensamento
Sistêmico: o novo paradigma da ciência.
Campinas
:
Papirus.
WALKER, L. E (1979). The battered woman. Nova
York
: Harper & Row.
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CAPÍTULO V: VIOLÊNCIA CONTRA HOMENS
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Beatriz Chaves Ros de Castro
Denis Soares da Rocha Tavares
Karine Reis Almeida
Luiz Felipe Castelo Branco da Silva
Roseli
de Fátima M. de Lima Dutra.
|
Embora
a literatura referente à violência contra o homem não seja
tão vasta quanto à dirigida à mulher, os estudos e reflexões
sobre o tema podem indicar caminhos para sua compreensão e
contextualização.
Em qualquer sociedade, há
valores culturais que definem e distinguem os comportamentos
masculino e feminino. Em nossa sociedade de tradição
machista e patriarcalista, as expectativas sobre o desempenho
dos papéis masculinos possuem suas características próprias.
Ao mesmo tempo em que se
destina ao homem o papel de dominador social e mantenedor de
sua família, espera-se dele a capacidade de suportar doses diárias
de frustração no desempenho destes papéis. Essa ambigüidade
apresenta-se como uma violência dissimulada, de origem
dispersa nas relações sociais, que afeta e aprisiona o
homem. Tais circunstâncias podem ter como destino a depressão,
a violência contra semelhantes ou si próprio, ou a banalização
e naturalização na inserção em contextos ou situações de
violência. Em sintonia com este quadro há o fato de que,
para muitos indivíduos do sexo masculino, a violência é
aprendida como uma forma preponderantemente masculina de
resolução de conflitos. Assim, o garoto que apreende de seus
pais o papel de gênero que inclui a violência como um dos
elementos definidores, aprende não somente a efetuá-la como
também a se submeter a ela, pois suportar a violência também
é um dos valores definidores da masculinidade.
Seguindo o raciocínio de
que do homem se espera o desempenho do poder, o homem atual,
desprovido de autoridade no espaço público, no trabalho e na
política, tende a transferir a tentativa de exercê-lo em
outros contextos, vivenciando a contradição de possuidor e
desprovido de tal poder em sua esfera cotidiana próxima e íntima.
Assim, assiste-se às explosões de violência em campos de
futebol, de forma explícita, ou de forma sutil, no ambiente
doméstico. Neste ambiente, a cristalização do homem como
agressor, pelas características físicas evidentes, oculta
sua posição de vítima, quando, por sua companheira, lhes são
dirigidas frases depreciativas, insultantes, humilhante ou
desonrosas, pois o coloca em cheque quanto a sua capacidade de
exercer o papel de gênero a ele destinado. Desta forma, é
necessário para a compreensão da violência a que o homem
está submetido, a ampliação do campo de visão.
A violência doméstica não
pode ser compreendida apenas de forma linear, colocando o
homem como o algoz originário de toda a ação, mas entendê-la
também como uma demonstração de fraqueza e impotência
diante da destituição de sua força e poder.
A marginalização em relação ao poder organizador do
Estado, também contribui sobremaneira com a exposição de
certos grupos a serem ciclicamente autores e vítimas da violência,
tais como favelados ou presidiários. Espera-se do homem que
organize a falta de ordem, quando aparentemente são a força
e a violência os únicos veículos possíveis para a sobrevivência
física e garantia da integridade emocional. A isso se
acrescenta a imposição do uso da violência como meio
culturalmente masculinos para a elevação ou manutenção do
status junto a outros indivíduos. Assim, não é de se
estranhar que os homens são estatisticamente as principais vítimas
de homicídio, geralmente tendo como autores, outros homens.
E, para concluir, sobre a presença do Estado, bem
observa Pascal. Segundo ele, “a justiça separada da força
é impotente” e, por sua vez, “a força separada da justiça
é tirânica”. Assim a violência é o uso injusto da força
(Pascal apud Faye,
1996, p.260; Arblaster, 1996, p.803). Portanto, o governo que
“assegura a arbitragem” a justiça “entre os membros do
corpo político é forte, mas não violento” (Boudon e
Bourricaud, 1993, p.606), assim como a lei, enquanto injusta,
torna-se violenta, mesmo que legal.
|
Tipo
de causa
|
Mulheres
%
|
Homens
%
|
|
Doenças infecciosas e
parasitarias
|
5.4
|
5.7
|
|
Neoplasias (tumores)
|
17.4
|
14.0
|
|
Doenças do aparelho circulatório
|
36.0
|
28.6
|
|
Doenças no aparelho respiratório
|
13.4
|
11.2
|
|
Afecções originarias no período
perinatal
|
2.4
|
2.4
|
|
Causas externas (1)
|
5.4
|
22.3
|
|
Demais causas definidas
|
20.0
|
15.8
|
|
Total
|
100
|
100
|
|
|
Gráfico
5.2.1 Mortalidade proporcional por grupos de idade
segundo o sexo. Estado RJ. Ano
2003.1,442,327,73,62,915,56,81,22428,411,111,5203,6
<1 ano1-1415-2930-4445-5960-7475 e mais Mulheres
Homens
|
Fonte: Ministério de Saúde /SVS - Sistema de Informações
sobre Mortalidade – SIM
Assim como a mortalidade
masculina se distribui de forma mais eqüitativa por todos os
grupos de idade, a feminina se produz na faixa etária de
60 a
74 e sobretudo a partir dos 75 anos. A proporção entre os 15
e 29 anos mostra uma realidade de morte que afeta diretamente
a população jovem masculina.
Pedir
para homens observarem em quais desses itens eles se
reconhecem em seus relacionamentos com sua parceiras, seus
parceiros ou familiares. Isto pode tornar mais visível a violência
a que o homem pode estar sendo submetido.
|
A
sua parceira:
1.
bate, esmurra,
esbofeteia, empurra ou morde você?
2.
ameaça
feri-lo ou aos seus filhos?
3.
ameaça ferir
amigos ou membros da família?
4.
tem súbitos
acessos de raiva ou fúria?
5.
comporta-se de
maneira superprotetora?
6.
fica com ciúmes
sem motivo?
7.
não o deixa
visitar a sua família ou os seus amigos?
8.
não o deixa
trabalhar ou estudar?
9.
destrói sua
propriedade pessoal ou objetos de valor sentimental?
10.
não o deixa
ter acesso aos bens da família, como contas bancárias,
cartões de crédito
ou o carro.
11.
controla todas
as finanças e, obriga-o a prestar contas daquilo que
você gasta?
12.
obriga-o a
fazer sexo contra a sua vontade?
13.
força-o a
participar de atos sexuais que você não aprecia?
14.
insulta-o ou
chama-a por nomes pejorativos?
15.
usa a intimidação
ou a manipulação para controlá-lo ou a seus filhos?
16.
humilha-o
diante dos filhos?
17.
transforma
incidentes insignificantes em grandes discussões?
18.
maltrata ou
ameaça maltratar animais de estimação?
|
|
Uma educação de ação
deve promover que cada pessoa torne-se responsável por
sua existência e atitudes.
A responsabilidade é
pessoal e podemos ser o que nós mesmos fazemos de nossas
circunstâncias na auto determinação pela paz.
|
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Bustamante, R.M. &
Moura, J.F. (2009) Violência
na História. Rio de Janeiro: FAPERJ.
Cano, I. & Santos, N. (2007) Violência
Letal, Renda e Desigualdade no Brasil. Rio de
Janeiro: 7Letras.
Lima, F.R. & Santos, C. (2009) Violência
Doméstica – Vulnerabilidade e Desafios na
Intervenção Criminal e Multidisciplinar. Rio de Janeiro: Editora Lumens Júris. |
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CAPÍTULO VI – VIOLÊNCIA CONTRA IDOSOS
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Anna Cristina Pires de Mello
Denise Macedo Barbosa Villa
Enrique Maia
Maria Angélica S. R. de Barcelos
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Velhice é uma etapa da vida, assim como a infância e
a adolescência, e velho é quem tem 60 anos ou mais. Porém,
dizer que a velhice inicia aos 60 anos, é mero produto de uma
definição social. A sociedade estabelece uma idade para o início
da velhice em resposta às mudanças evolutivas comuns à
maioria das pessoas dos vários grupos etários, considerando
os fatores biológicos, históricos e sociais, segundo Neri e
Freire (2000 apud SARTI, 2001). Assim, a Organização das Nações
Unidas (ONU) estabeleceu 60 anos para os países em
desenvolvimento, e 65 para os países desenvolvidos, tendo
como referência a idade para a aposentadoria e a expectativa
de vida, que é maior nos países desenvolvidos.
Sobre esse marco etário, são calculados os índices
de envelhecimento da população, crescentes em todo o mundo.
As estatísticas nacionais recentes indicam que também no
Brasil o contingente de idosos tem crescido de forma considerável
e estima-se que, até o ano de 2020, o país contará com 40
milhões de velhos (<www.ibge.gov.br>), constituindo-se
no sexto país com mais velhos no mundo.
A
última etapa, a idade da velhice, começa após a
aposentadoria, depois que os filhos já se foram. Erikson
Erikson, em seu livro “O Ciclo de Vida Completo”
(1998), estabelece que é bom chegar à velhice, se não
ficaram problemas não resolvidos em etapas anteriores. Esta
etapa parece ser a mais difícil de todas, porque ela vem
quando ocorre um distanciamento social, um sentimento de
inutilidade, marca da nossa sociedade. Alguns se
aposentam de trabalhos que tiveram durante toda a sua
vida; outros percebem que sua tarefa como pais chegou ao fim e
a maioria crê que suas contribuições não são mais necessárias.
Nesse momento, sente-se a morte eminente. Além disso, o velho
não produz e se sente inútil. Querendo provar a si mesmo e
aos outros que ainda existe, ele acaba se tornando chato por
suas interferências em questões diversas. Por outro lado, as
pessoas se abstêm de um apego ao velho por saberem que sofrerão
a qualquer momento com a sua morte. Assim, muitos são
rejeitados e acabam vitimados pela solidão, principalmente
nos casos em que o cônjuge já faleceu. Esse cenário é mais
comum nas áreas urbanas. Nos meios rurais, o idoso tem muitas
maneiras de se sentir útil e integrado à família. A perda
é o tema predominante, característico das experiências
emocionais dos idosos. Um idoso deve lidar com muitas perdas,
mudança do status e prestígio profissional, e declínio das
habilidades físicas e da saúde. Isso faz com que eles gastem
grande quantidade de energia emocional e física no luto, na
resolução desse e na adaptação às mudanças. Uma resposta
mal adaptada à perda é a depressão.
Mas o avanço tecnológico está proporcionando
melhorias na qualidade de vida em geral e nos cuidados à saúde
em particular. O
progresso inegável da medicina tem permitido que a população
idosa alcance padrões de bem-estar nunca vividos antes; novos
medicamentos, novas tecnologias de diagnóstico, novos
recursos de intervenção sobre o corpo permitem o
prolongamento da saúde, a redução da doença e com isso
menor comprometimento da autonomia física com o avançar da
idade. No entanto, o despreparo das instituições e dos
sujeitos para lidar com as questões sociais e psíquicas próprias
do envelhecimento tem feito crescer o conjunto de sofrimentos
socialmente impingidos aos idosos. Entre eles, está a violência,
que aumenta consideravelmente em todo o mundo.
A família é um complexo sistema de relações e
interações entre seus membros e o meio em que se encontra,
sua dinâmica influencia cada indivíduo em seu próprio
desenvolvimento e reflete a situação e época social. É
necessário conhecer e compreender a sua estrutura e dinâmica,
de maneira contínua ao longo do tempo, pois só assim se
conseguirá uma ampla visão do seu conceito. Os retratos dos
diferentes momentos, porém, são importantes para a compreensão
da evolução do seu desenvolvimento.
Sob a ótica das autoras Carter e McGoldrick (1995), a
família funciona como um sistema que se move através do
tempo, e difere dos demais sistemas sociais pela sua
complexidade e pelo valor dos relacionamentos estabelecidos
entre os membros, que ora são incorporados ao grupo e ora o
deixam. As autoras delinearam estágios do ciclo de
vida familiar que tratam de diferentes momentos que a família
norte americana de classe média vivencia. O primeiro estágio
é chamado de “Saindo de casa: jovens solteiros”,
cuja ênfase está na maneira com que o indivíduo negocia a
sua independência com a família de origem, assim como o seu
afastamento para nesse momento estabelecer objetivos pessoais,
e assumir responsabilidades. O segundo estágio “A união
de famílias no casamento: O novo casal”, diz respeito
à união dos parceiros com um novo sistema e assim o
estabelecimento de novas relações. Em seguida “Famílias
com filhos pequenos” envolve a chegada de um novo membro
e a questão da educação deste paralelamente às demais
tarefas do casal; “Famílias com adolescentes”,
novos valores são estabelecidos pelo adolescente, muitas
vezes diferentes daqueles dos pais; “Lançando os filhos
e seguindo em frente”, os filhos deixam a casa para
tornarem-se independentes, e mais tarde apresentam os cônjuges
ao sistema; e “Famílias no estágio tardio da vida”,
os agora avós procuram se adequar à aposentadoria e aceitar
suas condições físicas.
Não menosprezando a importância das outras etapas,
destacamos neste trabalho esse último estágio citado pelas
autoras, para obtermos uma compreensão maior sobre a família
nesta fase e os processos de violência que se apresentam
contra o idoso.
A
família é definida como um grupo enraizado numa sociedade
que sofreu mudanças importantes
decorrentes da maior participação da mulher no mercado de
trabalho, da redução do tamanho da família, do surgimento
de novos papéis de gênero e da maior longevidade, mas tem
uma trajetória que lhe delega responsabilidades sociais,
especialmente perante o idoso, a família vem assumindo um
papel importante e inovador, na medida em que o envelhecimento
acelerado da população que estamos constatando é um
processo recente e ainda pouco estudado pelas ciências
sociais.
A Constituição Federal de 1988 apresenta a família
como base da sociedade e coloca como dever da família, da
sociedade e do Estado “amparar as pessoas idosas assegurando
sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e
bem estar e garantindo-lhes o direito à vida”. Parte do
princípio de que a família precisa aprender a situar-se com
relação aos seus velhos. Para tanto, é benéfico orientá-la
sobre como tratá-los, o que lhes oferecer, o que lhes pedir,
como relacionar-se com eles nas diversas esferas da vida
familiar e social. Busca-se conscientizá-la, ou melhor,
convencê-la, de que as pessoas com mais de sessenta e cinco
anos continuam sendo úteis (MAFFIOLETTI, 2005).
A
situação familiar dessas pessoas, nesta fase da vida,
reflete a influência de fatores demográficos e de saúde,
ocorridos em etapas anteriores do ciclo vital. O tamanho da
prole, a mortalidade diferencial, a viuvez, as separações,
os recasamentos, as migrações vão conformando, ao longo do
tempo, distintos tipos de arranjos familiares e domésticos,
os quais, com o passar da idade, adquirem características
específicas, que podem colocar o idoso, do ponto de vista
emocional e material, em situação de segurança ou de
vulnerabilidade.
Com as fragilidades que muitas vezes acompanham o
processo de envelhecimento é comum surgirem conflitos entre
os filhos quando a situação dos pais passa a lhes exigir
novas responsabilidades e cuidados. Percebemos, em nossa
experiência prática, que os idosos carregam a expectativa de
receberem atenção e cuidados dos filhos e netos no momento
em que perderem ou tiverem suas capacidades diminuídas, sendo
este um fantasma constante a perseguir e preocupar os mais
velhos. Goldani (1999 apud
SARTI, 2001) lembra que são numerosos os
resultados de pesquisas internacionais que desmistificam a idéia
de que residir com filhos ou fazer parte de uma família
extensa é garantia para uma velhice segura ou livre de violência
e maus-tratos. Denúncias de violência física contra
idosos aparecem nos casos em que diferentes gerações
convivem na mesma unidade doméstica (Debert, 1999 apud SARTI,
2001).
Segundo Maffioletti (2005) na realidade, a família
precisa de um período de adaptação para aceitar e
administrar com serenidade a nova situação, de forma a
respeitar as necessidades dos pais e evitar que se sintam um
encargo para os filhos. Daí a importância do idoso
concentrar esforços para, nos mais diversos sentidos, não se
entregar à inatividade evitando o mais possível o sentimento
de dependência da família que tanto aflige o idoso.
A
lei estabelece que todo cidadão tem o dever de denunciar à
autoridade competente qualquer forma de negligência,
maus-tratos ou desrespeito ao idoso. As violências contra
idosos se manifestam de três formas:
(a) estrutural:
aquela que ocorre pela desigualdade social e é
naturalizada nas manifestações de
pobreza, de miséria e de discriminação. Um
exemplo que leva a essa situação é o próprio salário
mínimo recebido pelo o idoso que não lhe dá condições
de obter um boa qualidade de vida.
(b) institucional:
está presente na prestação de serviços de saúde,
assistência e previdência social que prestam serviços,
na maioria dos casos, exercidos com burocracia
impessoal e discriminadora. São exemplos, a exposição
a longas filas, a falta de comunicação ou a
comunicação confusa e a ausência de uma relação
pessoal compreensiva. Também compreende aqui as
instituições, clinicas e casas de repouso onde as
pessoas são maltratadas, despersonalizadas, destituídas
de qualquer poder e vontade, faltando-lhes alimentação,
higiene e cuidados médicos adequados. Idosos são
vistos, em muitos casos, como ocupantes de um leito.
(c) interpessoal:
que se refere às interações e relações
cotidianas ou também podemos chamar de violência
familiar que são particularmente os abusos e negligências
que se reproduzem por choque de gerações, por
problemas de espaço físico e por dificuldades
financeiras que costumam se somar a um imaginário
social que considera a velhice como ‘decadência’
e os idosos como “passado” e “descartáveis”.
Estudos sobre a violência contra idosos mostram que
os autores dessa modalidade de violência são em
geral adultos maduros, mais comumente filhos e netos
das vítimas, mas também amigos, inquilinos e
cuidadores (Fernandes;
Assis, 1999). |
O
agressor familiar, em geral, se caracteriza assim:
|
v
vive na mesma casa que a vítima;
v
depende do idoso ou o idoso depende
dele;
v
é abusador de álcool e drogas, ou o
idoso dependente dele é abusador ;
v
tem vínculos afetivos frouxos e pouco
comunicativos com o idoso;
v
vive socialmente isolado e assim mantém
o idoso;
v
sofreu ou sofre agressões por parte
dos idosos; depressão ou transtorno mental.
|
Os vínculos estreitos
entre agressores e vítimas indicam a necessidade de se
levar em conta os elos de dependência entre ambos, o histórico
de sua relação e a dinâmica transgeracional, fatores que
podem não apenas constituir as condições mais imediatas
que precipitam a violência como representar obstáculos
importantes para sua redução. Por isso, a natureza e a
qualidade do vínculo entre o agressor e a vítima serão
especialmente importantes na definição das formas de
intervenção que querem reduzir a violência.
Segundo a autora quando
fazemos referência ao gênero, as mulheres idosas são
vitimas de violência no interior da casa mais do que os
homens, enquanto esses são vitimas na rua. Mas constata-se
que ambos os sexos são vulneráveis quando apresentam
dependência física ou mentalmente, quando apresentam
problemas de esquecimento, confusão mental, alterações no
sono, incontinência, dificuldades de locomoção,
necessitando de cuidados intensivos em suas atividades da
vida diária.
Conforme
Fernandes e Assis (1999) as formas mais comuns de violência
familiar contra o idoso são assim classificadas:
1) os abusos físicos,
entendidos como ações agressivas e brutais que
podem ocasionar fraturas, hematomas, queimaduras ou
outros danos físicos);
2) os abusos
psicológicos, definidos como as diversas formas
de privação ambiental, social ou verbal; a
negação de direitos, as humilhações ou o uso de
palavras e expressões que insultam ou ofendem; os
preconceitos e a exclusão do convívio social;
3) os abusos
financeiros ou a exploração econômica,
definidos como a apropriação de rendimentos ou o
uso ilícito de fundos, propriedades e outros ativos
que pertençam ao idoso; geralmente cometidos por
familiares, em tentativas de forçar procurações
que lhes dêem acesso a bens patrimoniais dos
velhos; na realização de vendas de bens e imóveis
sem o seu consentimento; por meio da expulsão deles
do seu tradicional espaço físico e social do lar
ou por seu confinamento em algum aposento mínimo em
residências que por direito lhes pertencem, dentre
outras formas de coação. Os abusos também são
cometidos pelo próprio Estado nas questões
referentes a aposentadoria, pensões e concessão de
benefícios, planos de saúde, bancos e lojas.
Devido a idade também são vitimas de
estelionatários devido a sua vulnerabilidade
física e econômica em agências bancárias, caixas
eletrônicas, lojas, ruas e transportes e de várias
modalidades de crimes cometidos por inescrupulosos
que tripudiam sobre.
4) a negligência,
entendida como a situação na qual o responsável
permite que o idoso experimente sofrimento. A
negligência é caracterizada como ativa quando o
ato é deliberado, e como passiva quando resulta de
conhecimento inadequado das necessidades do idoso ou
de estresses do cuidador, resultante da necessidade
de ministrar cuidados prolongados;
5) Abuso
sexual, violência sexual são termos que se
referem ao ato ou jogo sexual de caráter homo ou
hetero-relacional, utilizando pessoas idosas. Esses
abusos visam a obter excitação, relação sexual
ou práticas eróticas por meio de aliciamento,
violência física ou ameaças.
6) Abandono
é uma forma de violência que se manifesta pela
ausência ou deserção dos responsáveis
governamentais, institucionais ou familiares de
prestarem socorro a uma pessoa idosa que necessite
de proteção. |
Os acidentes
de transportes e as quedas
também são considerados formas de violência contra o
idoso, pois, as quedas podem ser atribuídas a vários
fatores: fragilidade física, uso de medicamentos que
costumam provocar algum tipo de alteração no equilíbrio,
na visão, ou estão associadas à presença de enfermidades
como osteoporose. Os meios de transporte, com pessoas e
assistência despreparada para o atendimento adequado ao
idoso, elevam as causas de mortes, lesões e traumas em
idosos, bem como as casas de repouso, instituições e até
mesmo a própria casa que não possui instalações que
acomodem adequadamente o idoso.
A
identificação dessas formas de violência requer intervenção
interdisciplinar e atenção dirigida para os sinais de sua
ocorrência. O comportamento agressivo e hostil do cuidador,
sua ausência de disponibilidade para prestar os cuidados diários
requeridos pela pessoa idosa, assim como a preocupação
excessiva com o controle do idoso ou a queixa reiterada da
carga que ele representa, são indícios de que a relação
deve ser melhor examinada. Além disso, certos tipos de lesões
e ferimentos freqüentes no idoso; sua aparência
descuidada; desnutrição; comportamento muito agressivo ou
apático; afastamento, isolamento; tristeza ou abatimento
profundo são também sinais que merecem investigação.
Desta maneira, em conseqüência dos maus tratos sofridos
muitos idosos passam a sentir depressão, alienação,
desordem pós-traumática, sentimentos de culpa e negação
das ocorrências e situações que os vitimam e a viver em
desesperança.
Intervir
na questão da violência doméstica implica em trabalhar as
relações, denunciando a quebra do respeito e da proteção
nas relações de trocas afetivas. No caso da violência
contra o idoso, somam-se outras dificuldades: a vergonha,
humilhação e o constrangimento, derivados da perda de
autonomia; ou o receio das conseqüências de uma denúncia,
como uma punição a seu familiar, que é freqüentemente o
próprio cuidador. Tais dificuldades, somadas à
precariedade de recursos disponíveis, dificultam a denúncia
e o encaminhamento das ações de caráter assistencial ou
jurídico.
|
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FERNANDES, M. G. M.;ASSIS, J. F. (1999) Maus-tratos
contra o idoso: Definições e estratégias para
identificar e cuidar. Rev. Gerontologia, vol. 7, n.3,
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MAFFIOLETTI,
V.L.R. (2005) Velhice e família: reflexões
clínicas. Psicol. cienc. prof., vol.25, no.3, p.336-351.
SARTI, C.A. (2001) A
velhice na familia atual. Acta Paul Enf, v. 14,
n. 2, maio/ago. |
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