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PROGRAMA DE AJUDA HUMANITÁRIA

 

ABUSOS SEXUAIS INTRAFAMILIARES.
NARRATIVAS, TRAUMAS, SOCIODRAMA CONSTRUTIVISTA E EMDR.
Ana Maria Fonseca Zampieri¹

INTRAFAMILIAR SEXUAL ABUSES.
NARRATIVES, TRAUMAS, CONSTRUCTIVIST SOCIODRAMA AND EMDR.

Resumo: A autora apresenta narrativas teóricas e de depoimentos de protagonistas de abusos sexuais intrafamiliares: crianças, adolescentes e adultos abusados, adultos abusadores e mães co-abusadoreas. A partir da sistematização de como ocorrem essas violências nas famílias, tendo como referência básica autores sistêmicos como Barudy (1998) e Humberto Maturana (2009), sua experiência clínica e como coordenadora de programas de prevenção e de ajuda humanitária na comunidade, a mesma discorre sobre a necessidade urgente de maiores visibilidades deste fenômeno, por parte de psicoterapeutas, sexólogos, pais e professores, na luta contra esse fenômeno. Apresenta o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) de Shapiro (2001) e o Sociodrama Familiar Construtivista (Zampieri, 1996) como propostas pós modernas de intervenção psicoterapêuticas para abusados, abusadores e co-abusadores e projetos chamados de Prevenir é Poder, para as famílias de comunidades carentes.

Palavras-chave: Traumas; abusos; sociodrama familiar construtivista; EMDR; prevenção.

Abstract:
The author presents, theoretical narratives and of depositions of protagonists of intrafamiliar sexual abuses: children, adolescents and adults abused, adult abusers and co-abusadoreas mothers. From the systematization of as these violences in the families occur, having as basic reference sistemics authors as Barudy (1998) and Humberto Maturana (2009) and its clinical experience and of coordinator of programs of prevention in the community, the same one discourses on the urgent necessity of bigger visibilities on the part of psychotherapists, sexologists, parents and professors, in the fight against this phenomenon. Quickly it presents the EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) of Shapiro (2001) and the Familiar Sociodrama Constructivist (Zampieri, 1996) as proposals after abused psicoterapêuticas modern of intervention for, abusers and co-abusers and projects called Prevention is Power, for the families of poor communities.

Key words: Traumas; abuses; constructivist familiar sociodrama ; EMDR; prevention.

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¹  Pós doutorada, doutora e mestre em Psicologia Clínica. Terapeuta Sexual. Terapeuta de Casais e Famílias. Terapeuta em EMDR e Brainspoting

            INTRODUÇÃO

“O que precisamos aprender é reconhecer como os problemas locais e globais estão interconectados. Nenhum dos problemas do nosso tempo podem ser entendidos de maneira isolada.
Para resolvê-los, precisamos aprender como pensar sistemicamente
em termos de relacionamentos, padrões e contextos”.

(Capra, 2008)

            Numa época em que se fala tanto de sustentabilidade, é preciso refletir também sobre quais comportamentos sexuais precisam ser revistos em seus valores morais e éticos. Um comportamento sexual ecológico precisa sanar as feridas passadas e prevenir as futuras, numa consciência amparada pela espiritualidade do sentido do saber que todos estamos ligados ao todo, na busca da justiça ecológica e social.
            Sabemos que a educação é o melhor caminho para a mudança de paradigmas e a família e a escola são os primeiros grandes vínculos de inserção da sustentabilidade de padrões éticos na vida dos cidadãos. Precisamos pensar numa atmosfera que nos una a todos: sexólogos, educadores, pais, professores e famílias, uma consciência de co-responsabilidade.
            A mudança mais empolgante para nosso globo é a de novos valores, onde a busca de direitos civis, pela paz, a justiça social, os alimentos saudáveis, os cuidados com a saúde e novos hábitos de consumo, trabalhados com a mitigação do aquecimento global, vão incluir as complementariedades ocultas nas incompatibilidades. Falar de abuso sexual intrafamiliar, nesse novo paradigma, é articular novas compreensões a todos os protagonistas desse drama.
            Nós humanos somos a sociedade mais complexa dos seres vivos. Podemos criar, acalentar, educar e formar nossa prole e, ao mesmo tempo, agredir, humilhar, destruir, abusar e matar essa mesma descendência. A violência permeia a nossa história, em cada cultura do passado e do presente, ao longo da nossa evolução. Especialmente nos chocam a violência intrafamiliar, seja entre cônjuges, contra crianças, bebês e idosos.
            Um dos problemas da era global e da internet, é a banalização que a divulgação violenta do chamado mundo plano propicia. Cenas e imagens que deveriam nos causar repulsa, podem ser significadas como entretenimento e diversão fascinantes e ocupar espaços lúdicos e educativos de nossas crianças e adolescentes.
            Há heterogeneidade e complexidade na violência intrafamiliar, desde comportamentos, idéias, ações e palavras. Esta violência deve ser contextualizada, pois influencia e é influenciada pelas histórias de adolescentes que matam colegas nas escolas, mães que assassinam seus filhos, homens que matam suas parceiras e crianças, bombas e terrorismo efetuados em nome de deuses, torturas e genocídios, entre outras. Esta polidimensionalidade e complexidade devem conter, no assunto que pretendemos abordar neste artigo, o impacto da violência e do medo no desenvolvimento de nossas crianças, adolescentes e famílias.
            A infância pode ser uma época altamente perigosa, pois estes seres estão dependentes de adultos e de sua família nuclear. E pode ser exatamente nessa matriz de identidade, a família nuclear, onde comportamentos e crenças abusivas são inoculadas.
            Em 1974, a OMS já denunciava que o lar é o lugar mais violento das Américas e o FBI, em 1995, alegou que 48% de violências sexuais contra crianças ocorrem dentro de casa de várias formas: pelos pais biológicos, namorados de pais separados, pais adotivos, padrastos e madrastas, tios, primos e irmãos mais velhos. O grau de toxidade desses abusos, inclui a humilhação, a exploração e a degradação a que a vítima é submetida.
            Será que podemos aí incluir como disparadores de violência sexual familiar a mídia? Alguns programas de televisão, de videogames, da internet, de algumas músicas e do cinema podem ser classificados como abusivos sexuais para nossas crianças.
            Pesquisas realizadas em 1995, realizadas por Houston, demonstraram que a exposição de crianças à mídia que exibe vários tipos de programas violentos nos lares, constituem a maior força de valores culturais que contribuem para a banalização da violência, dentro da esfera protetora familiar. Este é também um dos grandes paradoxos da violência sexual intrafamiliar: a família abusiva é protetora, confunde e submete suas vítimas.
            Se pensarmos que crianças vítimas de abusos sexuais dentro de casa, ficam mais vulneráveis à violência escolar também, iniciaremos uma compreensão aterrorizadora, e mais profunda, da complexa tríade da violência e de abusos a que nossas crianças podem ser submetidas: lar, escola, família.
            Recordo-me de um atendimento clínico onde um homem adulto de nome fictício Pedro, já com seus 50 anos, e de bom nível socioeconômico e intelectual, durante uma sessão de EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) dizia:

“... eu via meu pai, pela fresta da porta do meu quarto, obrigando a minha mãe a ter sexo com ele... eu gritava para ele parar com aquilo, eu chorava desesperado e pedia um socorro que ninguém escutava... e quando ele me pegava no meu quarto, eu gritava pela minha mãe, mas ela não me ouvia... hoje eu vejo que ela preferia que ele abusasse de mim como quisesse, porque assim ela ficava livre dele... não sei de quem mais tenho raiva, de meu pai ou de minha mãe... O que mais me dava desgosto era no dia seguinte, os dois rindo juntos... eles eram uns sem vergonhas...”

            Milhares de crianças são vítimas e politraumatizadas por violências no lar, na escola e na comunidade. Para muitas delas, o lar, a escola e a comunidade são locus de medo, dominação, negligência e abusos.
            É preciso ver para crer? Ou crer para ver?  Se é preciso saber que não vemos o que negamos perceber, dar visibilidade a lares e escolas abusivas é uma das nossas responsabilidades como psicoterapeutas sexuais.   Se nos conscientizarmos da realidade abusiva familiar a que nossas crianças estão expostas, certamente passaremos a enxergar os sinais invisíveis dos hematomas de suas almas feridas.

           
O S MITOS

            Há vários mitos com relação à violência e abusos infantis como: que isso pode ser do direito privado de cada família e que ninguém deve interferir; que as crianças e adolescentes são provocadoras do abuso por terem atitudes sedutoras e/ou erotizadas; que é uma questão de pobreza e de pessoas pouco instruídas ou de classe social mais baixa. Todavia, este fenômeno não é exclusivo de nenhum critério de raça, cor, etnia ou cultura. Não há, na maioria das vezes, episódios isolados e, infelizmente, os casos mais freqüentes estão entre pais biológicos e filhas e filhos. A pobreza não é a causadora da violência intrafamiliar e de toda a negligência a que nossas crianças são submetidas, mas um dos fatores de risco, somado a outros como, a rejeição da revelação, da visibilidade e ação preventiva e terapêutica a essas questões.

            UMA QUESTÃO POLITRANSDICIPLINAR

            É nesta complexidade e circularidade que propomos aqui uma visão sistêmica, multicausal e com necessidades de intervenções prolitransdisciplinares, ao abuso sexual intrafamiliar, onde todos os protagonistas: vítimas, abusadores e co-abusadores, devem ser tratados; cuidados e educados. Urge uma psicoeducação sexual que leve em consideração a co-construção sócio familiar do abuso sexual. Para isto, é preciso ter a conscientização de que o abuso sexual intrafamiliar é um fenômeno que precisa da desconstrução das alternativas únicas de afastamento, punição e/ou prisão do abusador; para uma atitude não apenas disciplinatória, onde esse personagem abusador possa ser tratado na profundidade necessária ao desenvolvimento familiar e social. Outras questões dessa politransdisciplinariedade citada é a necessária revisão das metodologias de avaliação à situação traumática vivida por toda família, especialmente por parte de todos os profissionais que executam as intervenções: médicos, policiais, psicólogos, assistentes sociais e juizes, entre outros. As chamadas falsas denúncias, por exemplo, podem significar retraumatizações, igualmente humilhantes e degradantes às vítimas das famílias abusivas.
            Nossas políticas públicas de saúde e sociedade civil necessitam de capacitações reais profundas e amplas para atender ofensores sexuais, vítimas e co-ofensores; numa visão menos disciplinadora, mas, sim, “empoderada” de novos recursos para os tratamentos adequados, que a família abusiva precisa. Sem falar das duvidosas absolvições que instituições escolares e religiosas produzem, caracterizando uma sociedade que se mostra abusiva e permissiva.
            Profissionais e comunidade necessitam construir uma rede mais capacitada e enfrentadora dos abusos a que nossas crianças e adolescentes são, pelo silêncio e segredos, cruelmente submetidas.

            COMO SÃO OS ABUSADORES?

            Os abusadores sexuais intrafamiliares são essencialmente homens, em torno de 94%. (Barudy, 1998). Estabelecem com as vítimas um processo de pedofilização: uma categoria de abuso do poder, que é comparada à tortura limpa, onde um familiar adulto destrói uma criança ou adolescente, de uma forma tão refinada e manipuladora emocionalmente, que a vítima, muitas vezes, nem consegue se reconhecer como tal. São pessoas chamadas de distintas, de todas as classes sociais, de varias profissões, raças, religiões, etnias de varias nacionalidades. Apesar de seus aspectos exteriores de normalidade, essas pessoas, quando nos falam na prática clínica, sentem-se interiormente frágeis como adultos. Frequentemente têm problemas de auto-estima e de relacionamento, especialmente homens que não se sentem capazes de enfrentar sua masculinidade como imaginam que deveriam e que não são capazes; e buscam, como uma espécie de solução às suas angústias e temores existenciais, o abuso de crianças e adolescentes.
            Seus processos de individuação têm problemas por não antigirem a maturidade esperada em níveis psicossociais e relacionais e alguns deles relatam sentirem-se pressionados sob forças como: sedução, culpabilização e/ou segredos, por seus sistemas familiares e o entorno social. Costumam apresentar dificuldades de autonomia emocional para participar de relações emocionais com seus pares.
            Gilberto, nome fictício de um executivo de 41 anos, dizia:

“... eu me sentia gradualmente tomado por uma angústia, um vazio enorme no peito e na boca do estômago... o segredo e o isolamento que eu me impunha desde adolescente... a esposa era doce e me respeitava em muitas crises de mau humor... daí a solidão me excitava... a idéia ia tomando conta de mim... a coisa ia crescendo, crescendo e eu queria um alívio... depois de consumar o ato... eu me aliviava... e esquecia...”

            Problemas de apego e angústias de separação são lembradas em sessões de EMDR com abusadores sexuais, em minha experiência clinica. Relatam-nas como elementos de fragilidade, como se não tivessem feito lutos adequados e sentem-se como perdedores, especialmente, em situações de desapegos, como diversos momentos críticos nas esperadas crises previsíveis ao longo do ciclo de suas vidas familiares. Há ainda, depoimentos de tendência a isolamento social e grandes dificuldades para controlar frustrações decorrentes da vida adulta, social, amorosa e familiar.

“... eu era tido como um garoto amoroso e tímido... quase não saia de casa, passava os domingos dentro de casa ou com a família... me assustavam as garotas...eu me achava pouco atraente... e odiava a possibilidade de ser rejeitado, então preferia não arriscar nada... Descobri que namorar as meninas mais feias e mais pobres era uma saída... Com 16 anos eu peguei a filha da minha empregada, que tinha uns 3 ou 4 anos e me masturbava me esfregando no bumbum dela... daí a coisa foi crescendo e crescendo... hoje eu tenho que fugir da internet... porque fotos de meninas nuas me chamam para uma recaída...”

(Depoimento de Sérgio, nome fictício de um homem com 67 anos e profissional bem sucedido na área de finanças).

            Homens como Sérgio carecem de auto afirmação de suas visibilidades, e têm representação do gênero masculino transtornados, atribuído a atributos de poder, de dominação e de força; tipicamente protagonistas de uma cultura familiar patriarcal e falocrática, que acredita que o homem deve provar sua superioridade às mulheres e às crianças. Utilizam a sua sexualidade como instrumento de força, com desconexões emocionais importantes.

“... Parecia que eu entrava num transe quando eu acariciava a minha filha à noite... eu ia cobrí-la... todas as noites e ali eu me masturbava... a delicadeza e a fragilidade dela era o que mais me excitava... a cara de anjo dormindo... o cabelo sedoso, a pele macia de criança...”

(Assim falou o mesmo fictício Sérgio em uma sessão de psicoterapia)

            Há abusadores em série e abusadores circunstanciais. Nos primeiros, encontramos compulsivos crônicos e repetitivos atos de pedofilia. Nos segundos, os abusos são cometidos em momentos de crises existenciais ligadas a sentimentos de angústia e impotência, em fases de divórcio, de conflitos conjugais, fracassos profissionais e perda de potência sexual, entre outros.
            Barudy (1998) chama de pedófilos obsessivos. Aqueles que têm como alvo principal e exclusivo, crianças para suas satisfações sexuais, com quem têm uma ilusão de amor recíproco. Podem ser cuidadores e protetores destas crianças e tentam racionalizar seus abusos como positivos, não apresentando sentimentos de vergonha, nem de arrependimento.
            Flávio, nome fictício de um dentista de 35 anos, casado e pai de dois meninos e de uma menina, que abusou sexualmente dos 3 aos 9 anos, relatou:

“... ela é a minha princesa... eu sempre a protegi do mundo masculino e grosseiro... nunca a penetrei, nunca a machuquei... eu sempre a colocava de costas para mim, no meu colo e esfregava meu pênis nas pernas dela... era uma espécie de brincadeira... ela ficava quietinha, não falava nada... era nosso segredo... acho que todos os pais sentem essa vontade... e eu jamais iria machucar a minha filha... é uma sociedade hipócrita a nossa.. quem não quer uma brincadeirinha de amor, sem malícia, bem inocente... com uma criança doce...uma princesa meiga...”

            Há uma espécie de fixação sexual sobre o corpo infantil, com um certo mito de um “amor” por crianças, provavelmente como representação de uma intoxicação afetiva erotizada nas infâncias desses abusadores

“... meu tio morava conosco e hoje eu sei que ele era doido... descobri numa gaveta um monte de fotografias de crianças nuas e eu o espiei várias vezes se masturbando e olhando para aquelas fotos... eu tinha uns seis anos... depois eu roubei uma foto dele e me masturbava, ou parecia que me masturbava... na adolescência. As meninas peladas nos banheiros no clube...tomando banho...eu me escondia e ficava num murinho espiando... sempre me excitou menina nua, bem pequena... daí... eu não me controlei e abusei de minha sobrinha pequenina... eu a ensinava a dirigir o carro e a colocava no meu colo, com o meu pênis para fora...”

            Este foi um relato de Henrique, 47 anos, nome fictício de um comerciante, que trabalhava também numa ONG que cuida de crianças...

“... depois foi com as amiguinhas de minha filha que iam brincar lá em casa, depois com as meninas da ONG... sempre de três ou quatro anos... elas não percebem direito o que acontece...”                                               

Henrique.

            Murray Bowen (1994) fala da capacidade da construção do ego individual quando as pessoas podem diferenciar-se gradual e emocionalmente de seus pais e de suas famílias de origem ao longo de suas vidas. Nessa visão os abusadores sexuais intrafamiliares são emaranhados emocionalmente com suas famílias de origem e possuem débil individuação integrada ou seja: ou se sentem muito dependentes ou muito e magicamente independentes emocionalmente de seus familiares. Buscam dominar a angústia de desintegração através da “fusão” com os contatos sexuais com as crianças. Algumas vezes são homens com quadros depressivos, não expressamente violentos e com uma certa passividade emocional que lembra as situações sexuais onde eles próprios foram abusados em sua infância
            Cristiano, nome fictício de um professor universitário de 39 anos, revelou:

“...na hora que meu meio irmão chegava da escola... meu coração já ficava acelerado e eu tinha uma certa falta de ar... ele dizia que era porque eu gostava de chupar o pau dele... e ficava excitado. Ele era meu ídolo e dez anos mais velho que eu... bom... eu senti uma coisa parecida quando eu beijava a genitália da minha filha de 5 anos...”

            Essas narrativas, obviamente modificadas para a preservação de sigilos, são, infelizmente freqüentes nos relatos dos abusadores sexuais. Elas estão “escondidas” em famílias aparentemente consideradas perfeitas. Com pais, mães, tios, avós e irmãos aparentemente perfeitos. O abusador sexual não tem cara de monstro, nem aparentemente são monstruosos os lares que eles protegem e provém.

            E AS MÃES CO-ABUSADORAS?

            Algumas mães negam-se a ver o que revelam seus filhos abusados. Algumas delas podem ter sido socializadas em ideologias familiares de modelos patriarcais altamente abusivos. Outras, também foram abusadas sexualmente nas idades de suas filhas e filhos abusados. Protagonistas de uma identidade sócio-histórica, cerca de um terço dessas mulheres está em relações conjugais conflitivas e foram abusadas físico, sexual e/ou psicologicamente em suas famílias de origem. Paradoxalmente, estas mulheres também se sentem culpadas por não satisfazer sexual e amorosamente seus homens violentos e são treinadas a desculpá-los. Algumas delas são chamadas  as quem “amam demais” ou co-dependentes afetivas. Mesmo quando essas mães, as chamadas co-abusadoras, aparentam ser controladoras e fortes, é perigoso e reducionista rotulá-las como passivas e irresponsáveis, pois, muitas vezes, são sobreviventes de verdadeiras tragédias emocionais familiares, onde prematuramente desenvolveram posturas exteriores de fortes e de poderosas, camuflando fragilidades afetivas profundas.
            Algumas dessas mães apresentam-se como agressivas e, como descreve Selvini Palazzoli (1978), são aparentemente autônomas, mas desejosas de intimidades afetivas e emocionais.
            Na prática clínica, observamos algumas mães que, na hora da revelação do abuso sexual intrafamiliar, falam da incredulidade de que são acometidas e descrevem de seus maridos como respeitadores e bons pais. A idéia desse homem ter abusado seus filhos ou sobrinhos, lhes parece inconcebível.
            A Sra. Maria, mãe de dois meninos, como ficticiamente aqui chamamos, uma mulher de 39 anos, cujo marido abusou de duas sobrinhas, filhas de sua irmã mais velha, afirmou:

“... ele seria a última pessoa de quem eu desconfiaria uma monstruosidade dessas. O que sempre me encantou nele foi a bondade, o altruísmo, a gentileza comigo e com meus familiares... Nunca vou poder me perdoar por ter sido tão cega...”

            Em situações mais complexas, há mães que parecem cúmplices do abuso, pois tinham algumas desconfianças, mas não conseguiam proteger suas crianças ou adolescentes. São dependentes do abusador física, econômica e/ou emocionalmente e sentem-se impotentes para assegurar proteção a seus filhos e/ou dependentes. São essas as mulheres que mais apresentam recaídas em tentar se aproximar novamente destes maridos e retiram ou negam as queixas colocadas nos meios de justiça.
            Silvana, 38 anos, vítima sexual de seu pai biológico dos 5 aos 14 anos, falava de sua mãe:

“... ela me contou recentemente que se achava pouco importante para todos, menos para ele, meu pai... e que ele era bom e fazia com que ela se sentisse protegida e segura. Ela tinha medo de ficar sozinha para o resto da vida. Seu pai, o meu avô, batia muito nela...bebia, batia na mãe e nos irmãos... E que meu pai, pelo menos, não bebia e não batia na gente... Ela dizia que ele era um marido e um pai para nós, muito melhor que o pai dela... Ela parece que me ofereceu de bandeja para ele... para agradecer porque ele não batia nela... que crueldade e egoísmo... não sei quem era pior: ele ou ela. Eu lembro de colocar tampas de panelas na minha cama para fazer barulho quando ele ia... eu batia a cabeça na parede... ela nunca escutou, nunca acordou...”

            Em outras situações, mais raras em minha experiência clínica, porém presentes na literatura especializada (Barudy, 1992) estão as mães que participam ativamente do abuso, muitas vezes incitando o marido abusador. Apenas trabalhei com estes casos em situações de supervisão de colegas que trabalhavam com crianças institucionalizadas. Todas estas observações me fazem pensar em cumplicidades complexas e invisíveis, dos adultos de famílias abusadoras sexualmente. Provavelmente são casais pouco diferenciados emocionalmente que têm dificuldades em distinguir o real do imaginado ou idealizado.

“... eu fiquei informada de tudo, mas achei exagero proibí-lo de ficar com as filhas e sobrinhas... achava que com meu amor e parceria, ele ficaria totalmente curado... até que ele voltou a abusar de nossa netinha e aí eu não agüentei...”

 (Sofia, 67 anos, nome fictício).

PROJETO PREVENIR É PODER: UMA POSSIBILIDADE DE PREVENÇÃO NA COMUNIDADE

            A idéia do projeto foi uma feliz coincidência de objetivos da F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde Ltda e do Rotary Club de São Paulo Butantã, cujo trabalho dirigido pela autora, com inúmeros trabalhos realizados em favor do combate à AIDS e às violências sexuais, iniciou em 2006, um projeto já beneficiou mais de 12 mil crianças e adolescentes da região do Butantã, para crianças, adolescentes, famílias e educadores, num objetivo comum de “prevenir e empoderar” as famílias e seus membros numa luta vitoriosa de orientação e prevenção contra este mal que aflige a humanidade.
            As famílias com filhos crianças e adolescentes simbolizam a matriz da educação sexual, é o local nutridor da saúde, do bem estar e dos direitos a uma vida sexual sem doenças e sem gravidezes indesejadas.  Uma vida sem violências e sem danos sexuais, prazerosa e livre de preconceitos.
            A metodologia Sociodrama Construtivista da Violência Sexual Intrafamiliar tem como mérito sua capacidade de atingir os indivíduos psicologicamente, na esfera de sua identidade pessoal, à medida em que amplia a informação e a personaliza ao transmiti-la por meio de vivências da violência sexual no lar, contextualizada e representada nas mais diversas situações do cotidiano das vidas do público-alvo, suas relações sexuais, seus métodos contraceptivos, seus padrões morais e religiosos. É uma metodologia avaliada na defesa de três teses: de mestrado, doutorado e pós doutorado da autora e pode oferecer um comprometimento pessoal entre os participantes, que, por sua vez, podem funcionar como elemento multiplicador da educação preventiva.
            Em 1989 a luta contra essa violência foi incluída no Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8069/90 e na Convenção Internacional dos Direitos da Criança (1989). Violência sexual contra crianças e adolescentes é crime contra a vida. O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, prevê penas.
            No Brasil, apenas a partir de 1830 é que encontramos, no Código Penal do Brasil Imperial, citações sobre estes fatos. Foi no período pós-ditadura nos anos 80 que surgiram as primeiras ONGs dirigidas mais diretamente ao trabalho contra esta violência.
            Entendemos que o abuso sexual é o ato ou o jogo sexual onde o adulto submete a criança ou o adolescente, por uma relação desigual de poder, para se satisfazer e/ou estimular sexualmente, impondo-se pela força física, por seduções, oferecendo presentes ou por ameaças  quaisquer às próprias vítimas.
            Propomos uma educação sexual que esteja comprometida com os vários temas de referência culturalmente constituídos, que influenciam a maneira como os brasileiros compreendem, interpretam e constroem suas próprias experiências sexuais. Esses sistemas de referências basicamente são: perspectivas de gênero, valores religiosos, perspectivas de sexualidade saudável e doente, permitida e pecaminosa e perspectivas do erótico, onde o sexo não se volta apenas para a procriação, mas também para a busca do prazer. A tradição escolar de ensino da sexualidade, habitualmente se reporta aos temas apenas da genética e biologia ligados à reprodução humana. Parece que o erotismo é a pedra – de – toque do nosso atraso em termos de divulgação referente ao comportamento sexual. Faz parte dos direitos da criança o direito de pensar também sobre a sua própria sexualidade.
            Sabemos da importância da co-educação entre pais, professores e seus respectivos filhos e alunos, onde a sexualidade possa estimular o desenvolvimento da auto estima das crianças; uma educação que lhes ofereça conhecimento sobre seus corpos, de forma a terem a melhor imagem corporal, que se aceitem como pessoas sexuadas e que desenvolvam seus processos de identidade sexual da forma mais harmônica, espirituosa e amorosa possível.
            A sexualidade deve ser apresentada de forma integrada em todas as quatro dimensões da pessoa humana, quais sejam: a biológica, a psicológica, social e espiritual. Isto é importante na busca da maturidade individual através do projeto de vida de cada um. Este projeto deve privilegiar, também, aspectos de normas de higiene sexual, reflexões sobre a influência de meios de comunicação social nos comportamentos e atitudes das crianças e, finalmente, processos de valores éticos humanos e do que seja a violência sexual e emocional.
            Como identidade sexual é um processo que se descobre aproximadamente entre dois e sete anos, é fundamental que as crianças recebam educação sexual de seus pais e professores nessa faixa etária. Isto evitaria conflitos internos e a não aceitação de sua imagem corporal e sexual. Além de prepará-los para perceber, dentro de sua idade, quando um processo de sedução pode ter características de abuso sexual e psicológico, e capacitá-los, então, a quebrar o silêncio e a buscar apoio e proteção. Educar pais, pagens, professores e profissionais afins, auxilia a comunicação e visualização deste fenômeno negado bem como a capacitação destas pessoas para sair da impotência e buscar ajuda multiprofissional.
            O objetivo geral destes projetos é criar uma linguagem comum e capacitação sobre trabalhos e educação de sexualidade e prevenção de abuso sexual infantil, para crianças da creche Fundação Julita, da Associação Meninos do Morumbi, de seus pais e/ou cuidadores, pagens, professores, psicólogos, estudantes de Psicologia e educadores, incluindo os profissionais convidados dos bairros São Luis e Paraisópolis, na cidade de São Paulo. Os objetivos específicos são co-construir estratégias de prevenção de abuso sexual infantil. Educar adultos que influenciam a rede sócio-familiar das crianças, sobe sexualidade. Oferecer aos adultos que lidam com as crianças, alguns critérios de diagnóstico de abusos sexuais infantis. Co-criação de estratégias para eventuais denúncias e encaminhamentos de crianças com abusos sexuais intra e extra familiares. Co-criação de sistema de apoio aos cuidadores que diagnosticam, denuncia e encaminha crianças abusadas sexualmente. Orientar adultos a diagnosticar e encaminhar abusadores sexuais para tratamentos e providências afins.  Multiplicar este trabalho treinando estudantes de Psicologia, psicólogos e terapeutas de famílias.
            Este projeto também está sendo desenvolvido com professores, educadores, funcionários e adolescentes acima de 12 anos da EE Antônio Manoel Alves de Lima.
            As estratégias aplicadas são pesquisa das informações existentes sobre sexualidade através de questionários, cinedramas construtivistas, sociodramas construtivistas tematizados, exposições dialogadas, desenhos e esculturas com argila tematizados.
            Também tem sido utilizadas, estas estratégias preventivas, com EMDR Grupal e Sociodramas Construtivistas, com crianças, adolescentes e seus familiares, vítimas de catástrofes, em Programas de Ajuda Humanitária, que temos desenvolvido em Santa Catarina e no Maranhão, estes anos de 2008 e 2009.

A PSICOTERAPIA FAMILIAR SOCIODRAMÁTICA CONSTRUTIVISTA E O EMDR NO TRATAMENTO DE TRAUMAS
DOS ABUSOS SEXUAIS INTRAFAMILIARES

            Na abordagem psicoterápica do EMDR consideramos como inseparáveis: pensamentos, memória sensorial, emoção e experiência corporal, como componentes da vida psicológica. Grand (2006) diz que as sensações corporais são uma forma de comunicação visceral que pode trazer importantes informações ao processo psicoterapêutico, quando processadas com estímulos bilaterais. As recordações decorridas durante o processamento do EMDR, ajudam a mente a interpretá-las e como há integração das recordações e emoção no processamento. EMDR possibilita conexões neurofisiológicas entre as várias partes do cérebro e do corpo dentro de um sistema. Pessoas com problemas pós traumáticos, poderão ter dificuldades para realizar essas conexões. Habitualmente, crenças negativas aqui se sustentam sistematicamente nos traumas. Pelo processamento do EMDR podemos trazer crenças e sensações positivas. Que podem estimular vários recursos neurofisiológicos, e psicológicos do paciente, numa aplicação para auto-conhecimento de como possuem, ainda, recursos para lidarem com situações de vulnerabilidade emocional e corporal.
            Pessoas mais deprimidas vivem no passado e as mais ansiosas, no futuro. O EMDR traz a pessoa para o presente, na chamada atenção dual, onde presente e passado estão diferenciados e estimulados. EMDR, assim favorece a remissão e/ou minimização dos traumas das pessoas.
            Há em nossas vidas, um processo de relatividade de memórias, que as mantem em estado latente. Izquierdo (2002) diz que isto pode ser um mecanismo de defesa; especialmente de episódios dolorosos, humilhantes ou aterrorizantes e que podem provocar estresses importantes. Isto é uma forma de reagir ao medo só na presença de situações que o exigem, não a qualquer hora. Diz ainda, o autor, que “há cosias que nosso cérebro recorda, mas nós não” (IZQUIERDO, 2002, p. 110).
            Pessoas que agem de maneira defendida podem estar sendo impedidas, por aspectos do seu contexto, de se comportar ou pensar de maneiras válidas e saudáveis. Normalmente esses problemas estão ligados à cultura de gênero, que impede a discussão de alguns valores, mitos e tabus, especialmente no que se refere à sexualidade. Quando no Sociodrama Construtivista discutimos os temos impedidos, nos vários níveis do sistema familiar e/ou conjugal, pode-se decidir a melhor maneira de mudar um relacionamento, usando para tal inclusive, as mudanças internas que podem constituir barreiras artificiais nos níveis intrapsíquicos.
            Von Glaserfeld (2000,p. 39) chamava de perspectivismo o conjunto de pressupostos de uma pessoa que determina como ela vê os fato de sua vida. Por isto, o terapeuta sociodramatista construtivista vê a mente como o nível mais básico de qualquer sistema humano, que tem níveis múltiplos que interação acrescentamos a isto, o conceito de recursividade, que se refere às interações entre os vários sistemas inter e intrapsíquicos que, com o tempo faz com quem comportamentos e crenças sobre a natureza da condição humana influenciam-se consistente e reciprocamente. Assim, não conhecemos a realidade objetivamente porque a realidade é uma construção interna associada às realidade externas.
            Interpsiquicamente falando, a mente tem diálogos internos que pode capacitá-la resolver problemas, controlar e liderar as visas das pessoas com novas perspectiva, aplicadas, criativa e saudáveis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Precisamos perceber, nas complexidades das narrativas dos abusos sexuais intrafamiliares, pais abusadores submissos, com esposas dominantes e filhos dominados; pais abusadores dominantes, esposas dominantes e filhos abusados que funcionam como reguladores da relação conjugal, pais abusadores, esposas submissas dominadas e filhos abusados protetores e precocemente adultilizados; uma complexidade multifatorial, com dificuldades e tensões econômicas, estresses familiares inúmeros.
            Há modernidades que exigem visões de mundo concentradas no poder do ter e na substituição das invisibilidades de dores do ser. Sentimentos de impotência, fracasso social e inferioridade estão presentes nos familiares abusadores. Este problema nos diz respeito. Somos co-responsáveis por ele.
            Consideramos a família como um sistema vivo, que possui uma estrutura e organização próprias e com recursos para lidar com as diversas crises previsíveis de seu ciclo vital, mantemos também a idéia de que ela tem um caráter autônomo: com identidade e iniciativas próprias e um caráter heterônimo: com suas dependências diversas do seu meio ambiental. Os dois aspectos colaboram, intercomunicando-se, para mudanças necessárias ao crescimento da família, com a evolução de seus membros. É necessária uma capacidade de integração harmoniosa entre a família e o meio sem perder sua autonomia. De todas as interações familiares, a relação homem e mulher, em seus papéis de: pai - mãe; mulher - homem, esposo – esposa e amantes, entre outros; é a mais importante, no que se refere aos impactos sobre as crianças. Este é outro problema que nos afeta diretamente; sexólogos e terapeutas; pois quando há perturbações nesse sub-sistema conjugal, e uma sobrecarga de peso pelas alterações intra e interpsiquicas, estes casais podem produzir violências sexuais, com sua prole ou parentes próximos infantis, e acabam com um excesso de fechamento e hermetismo, alimentados pelos segredos de abusos, que conduz, também, a uma espécie de degradação de suas potencialidades criativas e reprodutoras de saídas saudáveis. Desta forma, tais casais e suas famílias, apresentam sintomas, muitas vezes invisíveis ao meio em geral. Maturana e Varela (1984) falam de condutas , que permanecem através das gerações, pelos significados dados às situações violentas, que podem acabar sendo um modo de viver, transmitido pela linguagem também. O adultismo e o machismo, que estão na base dos comportamentos violentos, são exemplos dessas ideologias dominantes, herdadas na transgeracionalidade. Como sexólogos e terapeutas, podemos desconstruir esse poder violento na reflexão conjunta.
            Outro elemento base de famílias abusivas, de acordo com Egeland e Stroufe (1981) são os transtornos de apego de crianças vítimas de abusos sexuais intrafamiliares. Sabemos que, para as crianças, os laços de apego são sinônimos de sobrevivência. Pais pouco disponíveis e poucos cuidadores emocionalmente são encontrados em famílias abusivas. Podemos, como educadores sexuais, ter intervenções transformadoras na colaboração para pais mais sadios.
            O abusador influencia na abusação e vice-versa. Desta forma, é preciso lembrar que famílias mais pobres são mais detectáveis que as mais ricas, quanto às violências sexuais intrafamiliares e , inclusive, mais aceitas por nossa cultura como passiveis de ter todo esse problema. No entanto, em todas as classes sociais, há violências sexuais exercidas contra crianças e adolescentes, dentro do sagrado lar. A cegueira ao poder que alimenta o segredo do abuso é nossa problema também.
            A cultura com princípios morais e religiosos rígidos, com grande crise de valores, com a veneração pela força e pelo poder, com o buscado hedonismo a qualquer preço, com a fragilidade de vínculos com as famílias extensas e a sociedade, acúmulo de frustrações e solidão alimentada pelos segredos, constituem elementos que também exercem um papel importante na produção do abuso sexual intrafamiliar, onde a “coisificação” das crianças e dos adolescentes são fontes de satisfação imediata, erótica e sexual. Como podemos, por exemplo, contribuir com uma mídia mais educadora e menos tóxica?
            Jorge Barudy (1998) diz que o próprio Freud (1913) foi um dos primeiros a reconhecer a existência e freqüência dos abusos sexuais. Todavia, forçado pela pressão social de sua época, acabou defendendo a idéia de que a maioria dos abusos tratava-se de fantasias infantis. Ferenzi (1982) foi um dos primeiros psicanalistas a opor-se a estas idéias de fantasias e insistiu no caráter real e profundamente traumático das experiências sexuais entre adultos e crianças.
            Nos paradigmas clínicos que chamamos de pós modernos, a articulação entre o EMDR e o Sociodrama Construtivista Familiar, traz resultados eficazes nos tratamentos dos traumas individuais conjugais e familiares, nas diversas disfunções sexuais e afetivas que direta e indiretamente têm, na sua trama, abusos sexuais intrafamiliares. Os Sociodramas Construtivistas da Violência Sexual Intrafamiliar, pretendem a psicodramatização para prevenção primária deste fenômeno.
            Há 500 anos Leonardo da Vinci preconizou a fundamental interdependência de todos os fenômenos naturais e humanos na compreensão e busca de saídas para a vida no cosmos. É preciso falar de um modo sustentável de viver, num aspecto social de justiça ecológica, ética e social. O abuso sexual intrafamiliar, que ocorre neste exato momento, em tantos casos, nos convida à ação. Urge uma co-construção com o sentido de solidariedade para com as famílias abusivas presentes e futuras.

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