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ABUSOS
SEXUAIS INTRAFAMILIARES.
NARRATIVAS, TRAUMAS, SOCIODRAMA CONSTRUTIVISTA E EMDR.
Ana Maria Fonseca
Zampieri¹
INTRAFAMILIAR SEXUAL ABUSES.
NARRATIVES, TRAUMAS, CONSTRUCTIVIST SOCIODRAMA AND EMDR.
Resumo:
A autora apresenta narrativas teóricas e de depoimentos de
protagonistas de abusos sexuais intrafamiliares: crianças,
adolescentes e adultos abusados, adultos abusadores e mães
co-abusadoreas. A partir da sistematização de como ocorrem essas
violências nas famílias, tendo como referência básica autores
sistêmicos como Barudy (1998) e Humberto Maturana (2009), sua
experiência clínica e como coordenadora de programas de prevenção
e de ajuda humanitária na comunidade, a mesma discorre sobre a
necessidade urgente de maiores visibilidades deste fenômeno, por
parte de psicoterapeutas, sexólogos, pais e professores, na luta
contra esse fenômeno. Apresenta o EMDR (Eye Movement
Desensitization and Reprocessing) de Shapiro (2001) e o Sociodrama
Familiar Construtivista (Zampieri, 1996) como propostas pós
modernas de intervenção psicoterapêuticas para abusados,
abusadores e co-abusadores e projetos chamados de Prevenir é Poder,
para as famílias de comunidades carentes.
Palavras-chave: Traumas; abusos; sociodrama familiar
construtivista; EMDR; prevenção.
Abstract: The author presents, theoretical narratives and of
depositions of protagonists of intrafamiliar sexual abuses: children,
adolescents and adults abused, adult abusers and co-abusadoreas
mothers. From the systematization of as these violences in the
families occur, having as basic reference sistemics authors as
Barudy (1998) and Humberto Maturana (2009) and its clinical
experience and of coordinator of programs of prevention in the
community, the same one discourses on the urgent necessity of bigger
visibilities on the part of psychotherapists, sexologists, parents
and professors, in the fight against this phenomenon. Quickly it
presents the EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) of
Shapiro (2001) and the Familiar Sociodrama Constructivist (Zampieri,
1996) as proposals after abused psicoterapêuticas modern of
intervention for, abusers and co-abusers and projects called
Prevention is Power, for the families of poor communities.
Key words: Traumas; abuses; constructivist familiar
sociodrama ; EMDR; prevention.
______________
¹
Pós doutorada, doutora e mestre
em Psicologia Clínica.
Terapeuta
Sexual. Terapeuta de Casais e Famílias. Terapeuta em EMDR e
Brainspoting
INTRODUÇÃO
“O que
precisamos aprender é reconhecer como os problemas locais e
globais estão interconectados. Nenhum dos problemas do
nosso tempo podem ser entendidos de maneira isolada.
Para resolvê-los, precisamos aprender como pensar
sistemicamente
em termos de relacionamentos, padrões e contextos”.
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(Capra, 2008)
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Numa época em que se fala tanto de sustentabilidade, é
preciso refletir também sobre quais comportamentos sexuais precisam
ser revistos em seus valores morais e éticos. Um comportamento
sexual ecológico precisa sanar as feridas passadas e prevenir as
futuras, numa consciência amparada pela espiritualidade do sentido
do saber que todos estamos ligados ao todo, na busca da justiça
ecológica e social.
Sabemos que a educação é o melhor caminho para a mudança
de paradigmas e a família e a escola são os primeiros grandes vínculos
de inserção da sustentabilidade de padrões éticos na vida dos
cidadãos. Precisamos pensar numa atmosfera que nos una a todos: sexólogos,
educadores, pais, professores e famílias, uma consciência de
co-responsabilidade.
A mudança mais empolgante para nosso globo é a de novos
valores, onde a busca de direitos civis, pela paz, a justiça
social, os alimentos saudáveis, os cuidados com a saúde e novos hábitos
de consumo, trabalhados com a mitigação do aquecimento global, vão
incluir as complementariedades ocultas nas incompatibilidades. Falar
de abuso sexual intrafamiliar, nesse novo paradigma, é articular
novas compreensões a todos os protagonistas desse drama.
Nós humanos somos a sociedade mais complexa dos seres vivos.
Podemos criar, acalentar, educar e formar nossa prole e, ao mesmo
tempo, agredir, humilhar, destruir, abusar e matar essa mesma
descendência. A violência permeia a nossa história, em cada
cultura do passado e do presente, ao longo da nossa evolução.
Especialmente nos chocam a violência intrafamiliar, seja entre cônjuges,
contra crianças, bebês e idosos.
Um dos problemas da era global e da internet, é a banalização
que a divulgação violenta do chamado mundo plano propicia. Cenas e
imagens que deveriam nos causar repulsa, podem ser significadas como
entretenimento e diversão fascinantes e ocupar espaços lúdicos e
educativos de nossas crianças e adolescentes.
Há heterogeneidade e complexidade na violência
intrafamiliar, desde comportamentos, idéias, ações e palavras.
Esta violência deve ser contextualizada, pois influencia e é
influenciada pelas histórias de adolescentes que matam colegas nas
escolas, mães que assassinam seus filhos, homens que matam suas
parceiras e crianças, bombas e terrorismo efetuados em nome de
deuses, torturas e genocídios, entre outras. Esta
polidimensionalidade e complexidade devem conter, no assunto que
pretendemos abordar neste artigo, o impacto da violência e do medo
no desenvolvimento de nossas crianças, adolescentes e famílias.
A infância pode ser uma época altamente perigosa, pois
estes seres estão dependentes de adultos e de sua família nuclear.
E pode ser exatamente nessa matriz de identidade, a família
nuclear, onde comportamentos e crenças abusivas são inoculadas.
Em
1974, a
OMS já denunciava que o lar é o lugar mais violento das Américas
e o FBI, em 1995, alegou que 48% de violências sexuais contra crianças
ocorrem dentro de casa de várias formas: pelos pais biológicos,
namorados de pais separados, pais adotivos, padrastos e madrastas,
tios, primos e irmãos mais velhos. O grau de toxidade desses
abusos, inclui a humilhação, a exploração e a degradação a que
a vítima é submetida.
Será que podemos aí incluir como disparadores de violência
sexual familiar a mídia? Alguns programas de televisão, de
videogames, da internet, de algumas músicas e do cinema podem ser
classificados como abusivos sexuais para nossas crianças.
Pesquisas realizadas em 1995, realizadas por Houston,
demonstraram que a exposição de crianças à mídia que exibe vários
tipos de programas violentos nos lares, constituem a maior força de
valores culturais que contribuem para a banalização da violência,
dentro da esfera protetora familiar. Este é também um dos grandes
paradoxos da violência sexual intrafamiliar: a família abusiva é
protetora, confunde e submete suas vítimas.
Se pensarmos que crianças vítimas de abusos sexuais dentro
de casa, ficam mais vulneráveis à violência escolar também,
iniciaremos uma compreensão aterrorizadora, e mais profunda, da
complexa tríade da violência e de abusos a que nossas crianças
podem ser submetidas: lar, escola, família.
Recordo-me de um atendimento clínico onde um homem adulto de
nome fictício Pedro, já com seus 50 anos, e de bom nível
socioeconômico e intelectual, durante uma sessão de EMDR (Eye
Movement Desensitization and Reprocessing) dizia:
| “... eu via meu
pai, pela fresta da porta do meu quarto, obrigando a minha mãe
a ter sexo com ele... eu gritava para ele parar com aquilo,
eu chorava desesperado e pedia um socorro que ninguém
escutava... e quando ele me pegava no meu quarto, eu gritava
pela minha mãe, mas ela não me ouvia... hoje eu vejo que
ela preferia que ele abusasse de mim como quisesse, porque
assim ela ficava livre dele... não sei de quem mais tenho
raiva, de meu pai ou de minha mãe... O que mais me dava
desgosto era no dia seguinte, os dois rindo juntos... eles
eram uns sem vergonhas...”
|
Milhares de crianças são vítimas e politraumatizadas por
violências no lar, na escola e na comunidade. Para muitas delas, o
lar, a escola e a comunidade são locus de medo, dominação, negligência
e abusos.
É preciso ver para crer? Ou crer para ver?
Se é preciso saber que não vemos o que negamos perceber,
dar visibilidade a lares e escolas abusivas é uma das nossas
responsabilidades como psicoterapeutas sexuais.
Se nos conscientizarmos da realidade abusiva familiar a que
nossas crianças estão expostas, certamente passaremos a enxergar
os sinais invisíveis dos hematomas de suas almas feridas.
O
S MITOS
Há vários mitos com relação à violência e abusos
infantis como: que isso pode ser do direito privado de cada família
e que ninguém deve interferir; que as crianças e adolescentes são
provocadoras do abuso por terem atitudes sedutoras e/ou erotizadas;
que é uma questão de pobreza e de pessoas pouco instruídas ou de
classe social mais baixa. Todavia, este fenômeno não é exclusivo
de nenhum critério de raça, cor, etnia ou cultura. Não há, na
maioria das vezes, episódios isolados e, infelizmente, os casos
mais freqüentes estão entre pais biológicos e filhas e filhos. A
pobreza não é a causadora da violência intrafamiliar e de toda a
negligência a que nossas crianças são submetidas, mas um dos
fatores de risco, somado a outros como, a rejeição da revelação,
da visibilidade e ação preventiva e terapêutica a essas questões.
UMA QUESTÃO POLITRANSDICIPLINAR
É nesta complexidade e circularidade que propomos aqui uma
visão sistêmica, multicausal e com necessidades de intervenções
prolitransdisciplinares, ao abuso sexual intrafamiliar, onde todos
os protagonistas: vítimas, abusadores e co-abusadores, devem ser
tratados; cuidados e educados. Urge uma psicoeducação sexual que
leve em consideração a co-construção sócio familiar do abuso
sexual. Para isto, é preciso ter a conscientização de que o abuso
sexual intrafamiliar é um fenômeno que precisa da desconstrução
das alternativas únicas de afastamento, punição e/ou prisão do
abusador; para uma atitude não apenas disciplinatória, onde esse
personagem abusador possa ser tratado na profundidade necessária ao
desenvolvimento familiar e social. Outras questões dessa
politransdisciplinariedade citada é a necessária revisão das
metodologias de avaliação à situação traumática vivida por
toda família, especialmente por parte de todos os profissionais que
executam as intervenções: médicos, policiais, psicólogos,
assistentes sociais e juizes, entre outros. As chamadas falsas denúncias,
por exemplo, podem significar retraumatizações, igualmente
humilhantes e degradantes às vítimas das famílias abusivas.
Nossas políticas públicas de saúde e sociedade civil
necessitam de capacitações reais profundas e amplas para atender
ofensores sexuais, vítimas e co-ofensores; numa visão menos
disciplinadora, mas, sim, “empoderada” de novos recursos para os
tratamentos adequados, que a família abusiva precisa. Sem falar das
duvidosas absolvições que instituições escolares e religiosas
produzem, caracterizando uma sociedade que se mostra abusiva e
permissiva.
Profissionais e comunidade necessitam construir uma rede mais
capacitada e enfrentadora dos abusos a que nossas crianças e
adolescentes são, pelo silêncio e segredos, cruelmente submetidas.
COMO SÃO OS ABUSADORES?
Os abusadores sexuais intrafamiliares são essencialmente
homens, em torno de 94%. (Barudy, 1998). Estabelecem com as vítimas
um processo de pedofilização: uma categoria de abuso do poder, que
é comparada à tortura limpa, onde um familiar adulto destrói uma
criança ou adolescente, de uma forma tão refinada e manipuladora
emocionalmente, que a vítima, muitas vezes, nem consegue se
reconhecer como tal. São pessoas chamadas de distintas, de todas as
classes sociais, de varias profissões, raças, religiões, etnias
de varias nacionalidades. Apesar de seus aspectos exteriores de
normalidade, essas pessoas, quando nos falam na prática clínica,
sentem-se interiormente frágeis como adultos. Frequentemente têm
problemas de auto-estima e de relacionamento, especialmente homens
que não se sentem capazes de enfrentar sua masculinidade como
imaginam que deveriam e que não são capazes; e buscam, como uma
espécie de solução às suas angústias e temores existenciais, o
abuso de crianças e adolescentes.
Seus processos de individuação têm problemas por não
antigirem a maturidade esperada em níveis psicossociais e
relacionais e alguns deles relatam sentirem-se pressionados sob forças
como: sedução, culpabilização e/ou segredos, por seus sistemas
familiares e o entorno social. Costumam apresentar dificuldades de
autonomia emocional para participar de relações emocionais com
seus pares.
Gilberto, nome fictício de um executivo de 41 anos, dizia:
| “...
eu me sentia gradualmente tomado por uma angústia, um vazio
enorme no peito e na boca do estômago... o segredo e o
isolamento que eu me impunha desde adolescente... a esposa
era doce e me respeitava em muitas crises de mau humor... daí
a solidão me excitava... a idéia ia tomando conta de
mim... a coisa ia crescendo, crescendo e eu queria um alívio...
depois de consumar o ato... eu me aliviava... e
esquecia...”
|
Problemas de apego e angústias de separação são lembradas
em sessões de EMDR com abusadores sexuais, em minha experiência
clinica. Relatam-nas como elementos de fragilidade, como se não
tivessem feito lutos adequados e sentem-se como perdedores,
especialmente, em situações de desapegos, como diversos momentos
críticos nas esperadas crises previsíveis ao longo do ciclo de
suas vidas familiares. Há ainda, depoimentos de tendência a
isolamento social e grandes dificuldades para controlar
frustrações decorrentes da vida adulta, social, amorosa e
familiar.
|
“...
eu era tido como um garoto amoroso e tímido... quase não
saia de casa, passava os domingos dentro de casa ou com a
família... me assustavam as garotas...eu me achava pouco
atraente... e odiava a possibilidade de ser rejeitado, então
preferia não arriscar nada... Descobri que namorar as
meninas mais feias e mais pobres era uma saída... Com 16
anos eu peguei a filha da minha empregada, que tinha uns 3
ou 4 anos e me masturbava me esfregando no bumbum dela... daí
a coisa foi crescendo e crescendo... hoje eu tenho que fugir
da internet... porque fotos de meninas nuas me chamam para
uma recaída...”
|
|
(Depoimento de Sérgio,
nome fictício de um homem com 67 anos e profissional bem
sucedido na área de finanças). |
Homens como Sérgio carecem de auto afirmação de suas
visibilidades, e têm representação do gênero masculino
transtornados, atribuído a atributos de poder, de dominação e de
força; tipicamente protagonistas de uma cultura familiar patriarcal
e falocrática, que acredita que o homem deve provar sua
superioridade às mulheres e às crianças. Utilizam a sua
sexualidade como instrumento de força, com desconexões emocionais
importantes.
|
“...
Parecia que eu entrava num transe quando eu acariciava a
minha filha à noite... eu ia cobrí-la... todas as noites e
ali eu me masturbava... a delicadeza e a fragilidade dela
era o que mais me excitava... a cara de anjo dormindo... o
cabelo sedoso, a pele macia de criança...”
|
| (Assim falou o mesmo fictício Sérgio em uma sessão de
psicoterapia) |
Há abusadores em série e abusadores circunstanciais. Nos
primeiros, encontramos compulsivos crônicos e repetitivos atos de
pedofilia. Nos segundos, os abusos são cometidos em momentos de
crises existenciais ligadas a sentimentos de angústia e impotência,
em fases de divórcio, de conflitos conjugais, fracassos
profissionais e perda de potência sexual, entre outros.
Barudy (1998) chama de pedófilos obsessivos. Aqueles que têm
como alvo principal e exclusivo, crianças para suas satisfações
sexuais, com quem têm uma ilusão de amor recíproco. Podem ser
cuidadores e protetores destas crianças e tentam racionalizar seus
abusos como positivos, não apresentando sentimentos de vergonha,
nem de arrependimento.
Flávio, nome fictício de um dentista de 35 anos, casado e
pai de dois meninos e de uma menina, que abusou sexualmente dos 3
aos 9 anos, relatou:
| “... ela é a
minha princesa... eu sempre a protegi do mundo masculino e
grosseiro... nunca a penetrei, nunca a machuquei... eu
sempre a colocava de costas para mim, no meu colo e
esfregava meu pênis nas pernas dela... era uma espécie de
brincadeira... ela ficava quietinha, não falava nada... era
nosso segredo... acho que todos os pais sentem essa
vontade... e eu jamais iria machucar a minha filha... é uma
sociedade hipócrita a nossa.. quem não quer uma
brincadeirinha de amor, sem malícia, bem inocente... com
uma criança doce...uma princesa meiga...”
|
Há uma espécie de fixação sexual sobre o corpo infantil,
com um certo mito de um “amor” por crianças, provavelmente como
representação de uma intoxicação afetiva erotizada nas
infâncias desses abusadores
| “... meu tio
morava conosco e hoje eu sei que ele era doido... descobri
numa gaveta um monte de fotografias de crianças nuas e eu o
espiei várias vezes se masturbando e olhando para aquelas
fotos... eu tinha uns seis anos... depois eu roubei uma foto
dele e me masturbava, ou parecia que me masturbava... na
adolescência. As meninas peladas nos banheiros no
clube...tomando banho...eu me escondia e ficava num murinho
espiando... sempre me excitou menina nua, bem pequena... daí...
eu não me controlei e abusei de minha sobrinha pequenina...
eu a ensinava a dirigir o carro e a colocava no meu colo,
com o meu pênis para fora...”
|
Este foi um relato de Henrique, 47 anos, nome fictício de um
comerciante, que trabalhava também numa ONG que cuida de
crianças...
|
“...
depois foi com as amiguinhas de minha filha que iam brincar
lá em casa, depois com as meninas da ONG... sempre de três
ou quatro anos... elas não percebem direito o que
acontece...”
|
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Henrique. |
Murray Bowen (1994) fala da capacidade da construção do ego
individual quando as pessoas podem diferenciar-se gradual e
emocionalmente de seus pais e de suas famílias de origem ao longo
de suas vidas. Nessa visão os abusadores sexuais intrafamiliares são
emaranhados emocionalmente com suas famílias de origem e possuem débil
individuação integrada ou seja: ou se sentem muito dependentes ou
muito e magicamente independentes emocionalmente de seus familiares.
Buscam dominar a angústia de desintegração através da “fusão”
com os contatos sexuais com as crianças. Algumas vezes são homens
com quadros depressivos, não expressamente violentos e com uma
certa passividade emocional que lembra as situações sexuais onde
eles próprios foram abusados em sua infância
Cristiano, nome fictício de um professor universitário de
39 anos, revelou:
| “...na hora que meu meio
irmão chegava da escola... meu coração já ficava
acelerado e eu tinha uma certa falta de ar... ele dizia que
era porque eu gostava de chupar o pau dele... e ficava
excitado. Ele era meu ídolo e dez anos mais velho que eu...
bom... eu senti uma coisa parecida quando eu beijava a genitália
da minha filha de 5 anos...”
|
Essas
narrativas, obviamente modificadas para a preservação de sigilos,
são, infelizmente freqüentes nos relatos dos abusadores sexuais.
Elas estão “escondidas” em famílias aparentemente consideradas
perfeitas. Com pais, mães, tios, avós e irmãos aparentemente
perfeitos. O abusador sexual não tem cara de monstro, nem
aparentemente são monstruosos os lares que eles protegem e provém.
E AS MÃES CO-ABUSADORAS?
Algumas mães negam-se a ver o que revelam seus filhos
abusados. Algumas delas podem ter sido socializadas em ideologias
familiares de modelos patriarcais altamente abusivos. Outras, também
foram abusadas sexualmente nas idades de suas filhas e filhos
abusados. Protagonistas de uma identidade sócio-histórica, cerca
de um terço dessas mulheres está em relações conjugais
conflitivas e foram abusadas físico, sexual e/ou psicologicamente
em suas famílias de origem. Paradoxalmente, estas mulheres também
se sentem culpadas por não satisfazer sexual e amorosamente seus
homens violentos e são treinadas a desculpá-los. Algumas delas são
chamadas as quem “amam
demais” ou co-dependentes afetivas. Mesmo quando essas mães, as
chamadas co-abusadoras, aparentam ser controladoras e fortes, é
perigoso e reducionista rotulá-las como passivas e irresponsáveis,
pois, muitas vezes, são sobreviventes de verdadeiras tragédias
emocionais familiares, onde prematuramente desenvolveram posturas
exteriores de fortes e de poderosas, camuflando fragilidades
afetivas profundas.
Algumas dessas mães apresentam-se como agressivas e, como
descreve Selvini Palazzoli (1978), são aparentemente autônomas,
mas desejosas de intimidades afetivas e emocionais.
Na prática clínica, observamos algumas mães que, na hora
da revelação do abuso sexual intrafamiliar, falam da incredulidade
de que são acometidas e descrevem de seus maridos como
respeitadores e bons pais. A idéia desse homem ter abusado seus
filhos ou sobrinhos, lhes parece inconcebível.
A Sra. Maria, mãe de dois meninos, como ficticiamente aqui
chamamos, uma mulher de 39 anos, cujo marido abusou de duas
sobrinhas, filhas de sua irmã mais velha, afirmou:
| “... ele seria
a última pessoa de quem eu desconfiaria uma monstruosidade
dessas. O que sempre me encantou nele foi a bondade, o altruísmo,
a gentileza comigo e com meus familiares... Nunca vou poder
me perdoar por ter sido tão cega...”
|
Em situações mais complexas, há mães que parecem cúmplices
do abuso, pois tinham algumas desconfianças, mas não conseguiam
proteger suas crianças ou adolescentes. São dependentes do
abusador física, econômica e/ou emocionalmente e sentem-se
impotentes para assegurar proteção a seus filhos e/ou dependentes.
São essas as mulheres que mais apresentam recaídas em tentar se
aproximar novamente destes maridos e retiram ou negam as queixas
colocadas nos meios de justiça.
Silvana, 38 anos, vítima sexual de seu pai biológico dos 5
aos 14 anos, falava de sua mãe:
| “... ela me
contou recentemente que se achava pouco importante para
todos, menos para ele, meu pai... e que ele era bom e fazia
com que ela se sentisse protegida e segura. Ela tinha medo
de ficar sozinha para o resto da vida. Seu pai, o meu avô,
batia muito nela...bebia, batia na mãe e nos irmãos... E
que meu pai, pelo menos, não bebia e não batia na gente...
Ela dizia que ele era um marido e um pai para nós, muito
melhor que o pai dela... Ela parece que me ofereceu de
bandeja para ele... para agradecer porque ele não batia
nela... que crueldade e egoísmo... não sei quem era pior:
ele ou ela. Eu lembro de colocar tampas de panelas na minha
cama para fazer barulho quando ele ia... eu batia a cabeça
na parede... ela nunca escutou, nunca acordou...”
|
Em outras situações, mais raras em minha experiência clínica,
porém presentes na literatura especializada (Barudy, 1992) estão
as mães que participam ativamente do abuso, muitas vezes incitando
o marido abusador. Apenas trabalhei com estes casos em situações
de supervisão de colegas que trabalhavam com crianças
institucionalizadas. Todas estas observações me fazem pensar em
cumplicidades complexas e invisíveis, dos adultos de famílias
abusadoras sexualmente. Provavelmente são casais pouco
diferenciados emocionalmente que têm dificuldades em distinguir o
real do imaginado ou idealizado.
| “... eu fiquei
informada de tudo, mas achei exagero proibí-lo de ficar com
as filhas e sobrinhas... achava que com meu amor e parceria,
ele ficaria totalmente curado... até que ele voltou a
abusar de nossa netinha e aí eu não agüentei...”
|
|
(Sofia,
67 anos, nome fictício).
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PROJETO
PREVENIR É PODER: UMA POSSIBILIDADE DE PREVENÇÃO NA COMUNIDADE
A idéia do projeto foi uma feliz coincidência de objetivos
da F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde Ltda
e do Rotary Club de São Paulo Butantã, cujo trabalho dirigido pela
autora, com inúmeros trabalhos realizados em favor do combate à
AIDS e às violências sexuais, iniciou em 2006, um projeto já
beneficiou mais de 12 mil crianças e adolescentes da região do
Butantã, para crianças, adolescentes, famílias e educadores, num
objetivo comum de “prevenir e empoderar” as famílias e seus
membros numa luta vitoriosa de orientação e prevenção contra
este mal que aflige a humanidade.
As famílias com filhos crianças e adolescentes simbolizam a
matriz da educação sexual, é o local nutridor da saúde, do bem
estar e dos direitos a uma vida sexual sem doenças e sem gravidezes
indesejadas. Uma vida
sem violências e sem danos sexuais, prazerosa e livre de
preconceitos.
A metodologia Sociodrama Construtivista da Violência Sexual
Intrafamiliar tem como mérito sua capacidade de atingir os indivíduos
psicologicamente, na esfera de sua identidade pessoal, à medida em
que amplia a informação e a personaliza ao transmiti-la por meio
de vivências da violência sexual no lar, contextualizada e
representada nas mais diversas situações do cotidiano das vidas do
público-alvo, suas relações sexuais, seus métodos
contraceptivos, seus padrões morais e religiosos. É uma
metodologia avaliada na defesa de três teses: de mestrado,
doutorado e pós doutorado da autora e pode oferecer um
comprometimento pessoal entre os participantes, que, por sua vez,
podem funcionar como elemento multiplicador da educação
preventiva.
Em
1989 a
luta contra essa violência foi incluída no Estatuto da Criança e
do Adolescente – Lei 8069/90 e na Convenção Internacional dos
Direitos da Criança (1989). Violência sexual contra crianças e
adolescentes é crime contra a vida. O Estatuto da Criança e do
Adolescente, o ECA, prevê penas.
No Brasil, apenas a partir de 1830 é que encontramos, no Código
Penal do Brasil Imperial, citações sobre estes fatos. Foi no período
pós-ditadura nos anos 80 que surgiram as primeiras ONGs dirigidas
mais diretamente ao trabalho contra esta violência.
Entendemos que o abuso sexual é o ato ou o jogo sexual onde
o adulto submete a criança ou o adolescente, por uma relação
desigual de poder, para se satisfazer e/ou estimular sexualmente,
impondo-se pela força física, por seduções, oferecendo presentes
ou por ameaças quaisquer
às próprias vítimas.
Propomos uma educação sexual que esteja comprometida com os
vários temas de referência culturalmente constituídos, que
influenciam a maneira como os brasileiros compreendem, interpretam e
constroem suas próprias experiências sexuais. Esses sistemas de
referências basicamente são: perspectivas de gênero, valores
religiosos, perspectivas de sexualidade saudável e doente,
permitida e pecaminosa e perspectivas do erótico, onde o sexo não
se volta apenas para a procriação, mas também para a busca do
prazer. A tradição escolar de ensino da sexualidade, habitualmente
se reporta aos temas apenas da genética e biologia ligados à
reprodução humana. Parece que o erotismo é a pedra – de –
toque do nosso atraso em termos de divulgação referente ao
comportamento sexual. Faz parte dos direitos da criança o direito
de pensar também sobre a sua própria sexualidade.
Sabemos da importância da co-educação entre pais,
professores e seus respectivos filhos e alunos, onde a sexualidade
possa estimular o desenvolvimento da auto estima das crianças; uma
educação que lhes ofereça conhecimento sobre seus corpos, de
forma a terem a melhor imagem corporal, que se aceitem como pessoas
sexuadas e que desenvolvam seus processos de identidade sexual da
forma mais harmônica, espirituosa e amorosa possível.
A sexualidade deve ser apresentada de forma integrada em
todas as quatro dimensões da pessoa humana, quais sejam: a biológica,
a psicológica, social e espiritual. Isto é importante na busca da
maturidade individual através do projeto de vida de cada um. Este
projeto deve privilegiar, também, aspectos de normas de higiene
sexual, reflexões sobre a influência de meios de comunicação
social nos comportamentos e atitudes das crianças e, finalmente,
processos de valores éticos humanos e do que seja a violência
sexual e emocional.
Como identidade sexual é um processo que se descobre
aproximadamente entre dois e sete anos, é fundamental que as crianças
recebam educação sexual de seus pais e professores nessa faixa etária.
Isto evitaria conflitos internos e a não aceitação de sua imagem
corporal e sexual. Além de prepará-los para perceber, dentro de
sua idade, quando um processo de sedução pode ter características
de abuso sexual e psicológico, e capacitá-los, então, a quebrar o
silêncio e a buscar apoio e proteção. Educar pais, pagens,
professores e profissionais afins, auxilia a comunicação e
visualização deste fenômeno negado bem como a capacitação
destas pessoas para sair da impotência e buscar ajuda
multiprofissional.
O objetivo geral destes projetos é criar uma linguagem comum
e capacitação sobre trabalhos e educação de sexualidade e prevenção
de abuso sexual infantil, para crianças da creche Fundação
Julita, da Associação Meninos do Morumbi, de seus pais e/ou
cuidadores, pagens, professores, psicólogos, estudantes de
Psicologia e educadores, incluindo os profissionais convidados dos
bairros São Luis e Paraisópolis, na cidade de São Paulo. Os
objetivos específicos são co-construir estratégias de prevenção
de abuso sexual infantil. Educar adultos que influenciam a rede sócio-familiar
das crianças, sobe sexualidade. Oferecer aos adultos que lidam com
as crianças, alguns critérios de diagnóstico de abusos sexuais
infantis. Co-criação de estratégias para eventuais denúncias e
encaminhamentos de crianças com abusos sexuais intra e extra
familiares. Co-criação de sistema de apoio aos cuidadores que
diagnosticam, denuncia e encaminha crianças abusadas sexualmente.
Orientar adultos a diagnosticar e encaminhar abusadores sexuais para
tratamentos e providências afins.
Multiplicar este trabalho treinando estudantes de Psicologia,
psicólogos e terapeutas de famílias.
Este projeto também está sendo desenvolvido com
professores, educadores, funcionários e adolescentes acima de 12
anos da EE Antônio Manoel Alves de Lima.
As estratégias aplicadas são pesquisa das informações
existentes sobre sexualidade através de questionários, cinedramas
construtivistas, sociodramas construtivistas tematizados, exposições
dialogadas, desenhos e esculturas com argila tematizados.
Também tem sido utilizadas, estas estratégias preventivas,
com EMDR Grupal e Sociodramas Construtivistas, com crianças,
adolescentes e seus familiares, vítimas de catástrofes, em
Programas de Ajuda Humanitária, que temos desenvolvido
em Santa Catarina
e no Maranhão, estes anos de 2008 e 2009.
A PSICOTERAPIA FAMILIAR SOCIODRAMÁTICA CONSTRUTIVISTA E O EMDR
NO TRATAMENTO DE TRAUMAS
DOS ABUSOS SEXUAIS INTRAFAMILIARES
Na abordagem psicoterápica do EMDR consideramos como inseparáveis:
pensamentos, memória sensorial, emoção e experiência corporal,
como componentes da vida psicológica. Grand (2006) diz que as sensações
corporais são uma forma de comunicação visceral que pode trazer
importantes informações ao processo psicoterapêutico, quando
processadas com estímulos bilaterais. As recordações decorridas
durante o processamento do EMDR, ajudam a mente a interpretá-las e
como há integração das recordações e emoção no processamento.
EMDR possibilita conexões neurofisiológicas entre as várias
partes do cérebro e do corpo dentro de um sistema. Pessoas com
problemas pós traumáticos, poderão ter dificuldades para realizar
essas conexões. Habitualmente, crenças negativas aqui se sustentam
sistematicamente nos traumas. Pelo processamento do EMDR podemos
trazer crenças e sensações positivas. Que podem estimular vários
recursos neurofisiológicos, e psicológicos do paciente, numa
aplicação para auto-conhecimento de como possuem, ainda, recursos
para lidarem com situações de vulnerabilidade emocional e
corporal.
Pessoas mais deprimidas vivem no passado e as mais ansiosas,
no futuro. O EMDR traz a pessoa para o presente, na chamada atenção
dual, onde presente e passado estão diferenciados e estimulados.
EMDR, assim favorece a remissão e/ou minimização dos traumas das
pessoas.
Há em nossas vidas, um processo de relatividade de memórias,
que as mantem em estado latente. Izquierdo (2002) diz que isto pode
ser um mecanismo de defesa; especialmente de episódios dolorosos,
humilhantes ou aterrorizantes e que podem provocar estresses
importantes. Isto é uma forma de reagir ao medo só na presença de
situações que o exigem, não a qualquer hora. Diz ainda, o autor,
que “há cosias que nosso cérebro recorda, mas nós não” (IZQUIERDO,
2002, p. 110).
Pessoas que agem de maneira defendida podem estar sendo
impedidas, por aspectos do seu contexto, de se comportar ou pensar
de maneiras válidas e saudáveis. Normalmente esses problemas estão
ligados à cultura de gênero, que impede a discussão de alguns
valores, mitos e tabus, especialmente no que se refere à
sexualidade. Quando no Sociodrama Construtivista discutimos os temos
impedidos, nos vários níveis do sistema familiar e/ou conjugal,
pode-se decidir a melhor maneira de mudar um relacionamento, usando
para tal inclusive, as mudanças internas que podem constituir
barreiras artificiais nos níveis intrapsíquicos.
Von Glaserfeld (2000,p. 39) chamava de perspectivismo o
conjunto de pressupostos de uma pessoa que determina como ela vê os
fato de sua vida. Por isto, o terapeuta sociodramatista
construtivista vê a mente como o nível mais básico de qualquer
sistema humano, que tem níveis múltiplos que interação
acrescentamos a isto, o conceito de recursividade, que se refere às
interações entre os vários sistemas inter e intrapsíquicos que,
com o tempo faz com quem comportamentos e crenças sobre a natureza
da condição humana influenciam-se consistente e reciprocamente.
Assim, não conhecemos a realidade objetivamente porque a realidade
é uma construção interna associada às realidade externas.
Interpsiquicamente falando, a mente tem diálogos internos
que pode capacitá-la resolver problemas, controlar e liderar as
visas das pessoas com novas perspectiva, aplicadas, criativa e saudáveis.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Precisamos perceber, nas complexidades das narrativas dos
abusos sexuais intrafamiliares, pais abusadores submissos, com
esposas dominantes e filhos dominados; pais abusadores dominantes,
esposas dominantes e filhos abusados que funcionam como reguladores
da relação conjugal, pais abusadores, esposas submissas dominadas
e filhos abusados protetores e precocemente adultilizados; uma
complexidade multifatorial, com dificuldades e tensões econômicas,
estresses familiares inúmeros.
Há modernidades que exigem visões de mundo concentradas no
poder do ter e na substituição das invisibilidades de dores do
ser. Sentimentos de impotência, fracasso social e inferioridade estão
presentes nos familiares abusadores. Este problema nos diz respeito.
Somos co-responsáveis por ele.
Consideramos a família como um sistema vivo, que possui uma
estrutura e organização próprias e com recursos para lidar com as
diversas crises previsíveis de seu ciclo vital, mantemos também a
idéia de que ela tem um caráter autônomo: com identidade e
iniciativas próprias e um caráter heterônimo: com suas dependências
diversas do seu meio ambiental. Os dois aspectos colaboram,
intercomunicando-se, para mudanças necessárias ao crescimento da
família, com a evolução de seus membros. É necessária uma
capacidade de integração harmoniosa entre a família e o meio sem
perder sua autonomia. De todas as interações familiares, a relação
homem e mulher, em seus papéis de: pai - mãe; mulher - homem,
esposo – esposa e amantes, entre outros; é a mais importante, no
que se refere aos impactos sobre as crianças. Este é outro
problema que nos afeta diretamente; sexólogos e terapeutas; pois
quando há perturbações nesse sub-sistema conjugal, e uma
sobrecarga de peso pelas alterações intra e interpsiquicas, estes
casais podem produzir violências sexuais, com sua prole ou parentes
próximos infantis, e acabam com um excesso de fechamento e
hermetismo, alimentados pelos segredos de abusos, que conduz, também,
a uma espécie de degradação de suas potencialidades criativas e
reprodutoras de saídas saudáveis. Desta forma, tais casais e suas
famílias, apresentam sintomas, muitas vezes invisíveis ao meio
em geral. Maturana
e Varela (1984) falam de condutas , que permanecem através das gerações,
pelos significados dados às situações violentas, que podem acabar
sendo um modo de viver, transmitido pela linguagem também. O
adultismo e o machismo, que estão na base dos comportamentos
violentos, são exemplos dessas ideologias dominantes, herdadas na
transgeracionalidade. Como sexólogos e terapeutas, podemos
desconstruir esse poder violento na reflexão conjunta.
Outro elemento base de famílias abusivas, de acordo com
Egeland e Stroufe (1981) são os transtornos de apego de crianças vítimas
de abusos sexuais intrafamiliares. Sabemos que, para as crianças,
os laços de apego são sinônimos de sobrevivência. Pais pouco
disponíveis e poucos cuidadores emocionalmente são encontrados em
famílias abusivas. Podemos, como educadores sexuais, ter intervenções
transformadoras na colaboração para pais mais sadios.
O abusador influencia na abusação e vice-versa. Desta
forma, é preciso lembrar que famílias mais pobres são mais detectáveis
que as mais ricas, quanto às violências sexuais intrafamiliares e
, inclusive, mais aceitas por nossa cultura como passiveis de ter
todo esse problema. No entanto, em todas as classes sociais, há
violências sexuais exercidas contra crianças e adolescentes,
dentro do sagrado lar. A cegueira ao poder que alimenta o segredo do
abuso é nossa problema também.
A cultura com princípios morais e religiosos rígidos, com
grande crise de valores, com a veneração pela força e pelo poder,
com o buscado hedonismo a qualquer preço, com a fragilidade de vínculos
com as famílias extensas e a sociedade, acúmulo de frustrações e
solidão alimentada pelos segredos, constituem elementos que também
exercem um papel importante na produção do abuso sexual
intrafamiliar, onde a “coisificação” das crianças e dos
adolescentes são fontes de satisfação imediata, erótica e
sexual. Como podemos, por exemplo, contribuir com uma mídia mais
educadora e menos tóxica?
Jorge Barudy (1998) diz que o próprio Freud (1913) foi um
dos primeiros a reconhecer a existência e freqüência dos abusos
sexuais. Todavia, forçado pela pressão social de sua época,
acabou defendendo a idéia de que a maioria dos abusos tratava-se de
fantasias infantis. Ferenzi (1982) foi um dos primeiros
psicanalistas a opor-se a estas idéias de fantasias e insistiu no
caráter real e profundamente traumático das experiências sexuais
entre adultos e crianças.
Nos paradigmas clínicos que chamamos de pós modernos, a
articulação entre o EMDR e o Sociodrama Construtivista Familiar,
traz resultados eficazes nos tratamentos dos traumas individuais
conjugais e familiares, nas diversas disfunções sexuais e afetivas
que direta e indiretamente têm, na sua trama, abusos sexuais
intrafamiliares. Os Sociodramas Construtivistas da Violência Sexual
Intrafamiliar, pretendem a psicodramatização para prevenção primária
deste fenômeno.
Há 500 anos Leonardo da Vinci preconizou a fundamental
interdependência de todos os fenômenos naturais e humanos na
compreensão e busca de saídas para a vida no cosmos. É preciso
falar de um modo sustentável de viver, num aspecto social de justiça
ecológica, ética e social. O abuso sexual intrafamiliar, que
ocorre neste exato momento, em tantos casos, nos convida à ação.
Urge uma co-construção com o sentido de solidariedade para com as
famílias abusivas presentes e futuras.
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