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TERAPIA
SEXUAL CONJUGAL: ESTUPRO E DISFUNÇÕES SEXUAIS.
UMA ARTICULAÇÃO METODOLÓGICA ENTRE PSICODRAMA,
SOCIODRAMA CONSTRUTIVISTA E EMDR.
SEXUAL
COUPLE THERAPY: RAPE AND SEXUAL DISFUNCTIONS
METHODOLOGIC ARTICULATION:
PSYCHODRAMA, CONSTRUCTIVISM, SOCIODRAMA AND EMDR.
TERAPIA SEXUAL,
ESTUPRO, PSICODRAMA, EMDR.
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Ana Maria
Fonseca Zampieri, Profª. Drª.
Terapeuta Sexual.
Terapeuta de Casais e Famílias. Psicodramatista. Terapeuta
em EMDR.
F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde.
SP.
Rua Joaquim Floriano, 466 – cj. 2108
CEP: 04534-002, Itaim Bibi – São Paulo/SP
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Fone/fax: (11) 2165-8118
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RESUMO
A autora apresenta um caso clínico
de sua pesquisa de terapia sexual com casais, onde disfunções
sexuais estão relacionadas a estresses pós-traumáticos do casal e
disfunções sexuais de: anorgasmia e disfunção erétil
secundária, após um estupro sofrido pela esposa há cerca de três
anos e assistido pelo marido. A partir de compreensões embasadas na
terapia sexual clássica de Kaplan (1999), do Sociodrama
Construtivista da autora (Zampieri, 1996), do Psicodrama de Moreno
(1974) e do EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprossation) de
Shapiro (2001), articula estes métodos para uma terapia sexual que
intervém nos aspectos intra e interpsíquicos do casal, buscando
tratar os estresses pós-traumáticos, e as disfunções sexuais
supra citadas após uma violência por estupro. Apresenta protocolos
descritivos das sessões terapêuticas do casal com nomes fictícios
de Maria e João, com trabalhos de Psicodrama Interno e EMDR para
intervenções intrapsiquicas e o Onirodrama e Sociodrama
Construtivista para as interpsiquicas , durante o processo da
terapia sexual.
Palavras chave: Terapia Sexual
Conjugal, Trauma, Estupro, Psicodrama, Sociodrama Construtivista,
EMDR.
ABSTRACT
The autoress presents one clinical case of her’s research of
sexual therapy in married couples, with anorgasmic ans secondary
erectile disfunciton, related to disorder of stress post traumatic,
after being the wife raped and the husband forced to see the
violence, about three years ago. Throughout basic concepts of sexual
therapy by Kaplan (1999), and concepts of Construtivist Sociodrama
of the authoress herself, Zampieri (1996), and concepts of
Psychodrama by Moreno (1974) and finally concepts of EMDR – Eye
Movement Desensitization and Reprocessing, by Shapiro (2001), the
autoress articulate one form of sexual therapy, that goes trough
aspects of intra and interpsychic life of the married couple, toward
the healing the describing each technique applied to each issue,
inter or intrapsychic aspects, of the healing process of the couple.
Key words:
Sexual
Therapy in Married Couples, Trauma, Rape, Psychodrama,
Constructivism Sociodrama, EMDR.
TERAPIA SEXUAL CONJUGAL:
TRAUMA E DISFUNÇÕES SEXUAIS PÓS ESTUPRO.
ARTICULAÇÃO METODOLOGICA ENTRE O PSICODRAMA E EMDR.
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“Cada um
de nós é quem é, porque tem suas próprias memórias” |
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Isquierdo, 2004 |
INTRODUÇÃO
Tenho pesquisado formas de tratar
disfunções sexuais, na terapia sexual com casais, onde articulo os
referenciais teóricos, filosóficos e técnicos das abordagens da
terapia sexual clássica de Helen Kaplan (1999); Sociodrama
Construtivista de minha autoria (1996) do Psicodrama e Moreno
(1974), especialmente do Psicodrama Interno, e do Onirodrama ao EMDR
(Eye Movement Desensitization Reprocessation) de Francine Shapiro
(2001).
Nesse artigo especificamente
apresento protocolos de uma terapia sexual conjugal, com queixas de
anorgasmia e disfunção erétil secundárias, após uma violência
por estupro sofrida pela mulher
e assistida pelo marido, há três anos, data do inicio da
terapia sexual.
Os traumas adultos são, em sua
maioria, fatos inesperados que podem durar segundos ou horas. A
severidade deles é particular e depende da estrutura genética e
psicológica do ambiente da pessoa traumatizada. Neurologistas têm
mostrado por exames cerebrais que em pessoas expostas a traumas
prolongados o hipocampo se reduz e impede alguns níveis de
funcionamento cerebral. Lembramos que o hipocampo “é a região do
cérebro que recebe os fatos objetivos e o retransmite à amigdala
para a resposta emocional e ao neocórtex para uma análise”. (Grand,
2006: 110).
Os traumas infantis trabalhados nos
adultos podem ser expressos por sintomas. Em minha prática clínica
percebo e confirmo estudos que falam da severidade de violências
verbais, humilhações, violências físicas, sociais, sexuais e
abandonos emocionais sofridos na infância, especialmente.
A terapia familiar sociodramática
construtivista revela as feridas da alma e os danos existenciais que
essas violências produzem nas pessoas, ao longo de suas vidas. É
uma terapia que propõe a co-construção de novas e mais adequadas
soluções para os conflitos intra e interpsíquicos,
legitimidando-se a capacidade de cada um e dos veículos para tal.
Sabemos que em muitas sociedades há
tendências à negação do abuso infantil. A dra. Judith Livis
Human (1992) fala-nos que estudar traumas infantis é prestar
depoimentos sobre a capacidade do ser humano de viver tragédias,
onde silêncio e o segredo são os alimentos dos abusos infantis e a
negação e a cegueira social frente a uma criança abusada, e
costuma constituir uma nova forma de abuso e trauma. Quanto mais
jovem for esta criança, menos terá seu cérebro formado para
compreender o que se passa, e tanto mais poderá “esquecer” as
cenas perturbadoras, para melhor sobreviver. É comum observarmos
que crianças “saem de seu corpo” enquanto são abusadas, por
exemplo. É uma forma de “não sentir” a dor provocada em sua
essência humana. No trabalho com EMDR observamos, com freqüência,
essas dissociações defensivas.
Outra observação freqüente é o
aspecto olfativo dos traumas de abuso sexual além, de outras
queixas como flashbacks, hipervigilância, pesadelos noturnos e amnésias
dissociativas entre outros.
Na abordagem psicoterápica do EMDR
consideramos como inseparáveis: pensamentos, memória sensorial,
emoção e experiência corporal, como componentes da vida psicológica.
Grand (2006) diz que as sensações corporais são uma forma de
comunicação visceral que pode trazer importantes informações ao
processo psicoterapêutico, quando processadas com estímulos
bilaterais. As recordações decorridas durante o processamento de
EMDR, mostram como o corpo fala por metáforas sensoriais, como o
processamento ajuda a mente a interpretá-las e como há integração
das recordações e emoção no processamento.
EMDR possibilita conexões
neurofisiológicas entre as várias partes do cérebro e do corpo
dentro de um sistema. Pessoas com problemas pós traumáticos, poderão
ter dificuldades para realizar essas conexões. Habitualmente, crenças
negativas aqui se sustentam sistematicamente nos traumas. Pelo
processamento do EMDR podemos trazer crenças e sensações
positivas, que podem estimular vários recursos neurofisiológicos,
e psicológicos do paciente, numa aplicação para auto-conhecimento
de como possuem, ainda, recursos para lidarem com situações de
vulnerabilidade emocional e corporal.
Pessoas mais deprimidas vivem no
passado e as mais ansiosas, no futuro. O EMDR traz a pessoa para o
presente, na chamada atenção dual, onde presente e passado estão
diferenciados e estimulados. EMDR, assim favorece, a remissão e/ou
minimização dos traumas das pessoas.
Izquierdo (2004) fala-nos que da
maioria das memórias sobram fragmentos duvidosos e modificados pela
passagem do tempo e que podemos, desta forma, confundir os vários
acontecimentos de nossa vida, as pessoas envolvidas neles e as
circunstâncias exatas dos mesmos. Isto é atribuído a perdas de
muitas sinapses e neurônios onde dividem algumas memórias, que
ocorrem ao longo de nossas vidas. Esquecemos porque os mecanismos
que formam e evocam memórias são saturáveis. Temos no cérebro
humano muitos bilhões de neurônios. Os do córtex cerebral recebem
entre 1000 e 10000 conexões ou sinapses procedentes de outras células
nervosas e emitem prolongamentos que fazem conexões com tantos
outros neurônios. De cada uma dessas sinapses podem surgir memórias.
Assim, de acordo com Izquierdo (2004) esquecemos em boa parte, para
poder pensar, não ficarmos loucos, podermos conviver e, enfim, para
sobreviver.
Além disso, podemos ter memórias
falsas, a partir da mistura de memórias verdadeiras. O neuropsicólogo
dos Estados Unidos, Daniel Lchacter (2003) descreve estas misturas
de memórias. Gabriel Garcia Márquez (2003) já disse que a vida não
é exatamente o que se viveu, mas o que a gente lembra que viveu e o
que podemos contar do que lembramos. Muitas vezes involuntariamente,
outras propositalmente, criamos memórias falsas a partir de dados
reais.
Há em nossas vidas, um processo de
relatividade de memórias, que as mantém em estado latente.
Izquierdo (2004) diz que isto pode ser um mecanismo de defesa;
especialmente de episódios dolorosos, humilhantes ou aterrorizantes
e que podem provocar estresses importantes. Isto é uma forma de
reagir ao medo só na presença de situações que o exigem, não a
qualquer hora. Diz ainda, o autor, que “há coisas que nosso cérebro
recorda, mas nós não” (Izquierdo, 2004: 110).
Pessoas que agem de maneira defendida
podem estar sendo impedidas, por aspectos do seu contexto, de se
comportar ou pensar de maneiras válidas e saudáveis. Normalmente
esses problemas estão ligados à cultura de gênero, que impede a
discussão de alguns valores, mitos e tabus, especialmente no que se
refere à sexualidade. Quando no Sociodrama Construtivista
discutimos os temas impedidos, nos vários níveis do sistema
familiar e/ou conjugal, pode-se decidir a melhor maneira de mudar um
relacionamento, usando para tal inclusive, as mudanças internas que
podem constituir barreiras artificiais nos níveis intrapsíquicos.
Von Glaserfeld chamava de
perspectivismo o conjunto de pressupostos de uma pessoa que
determina como ela vê os fatos de sua vida. Por isto, o terapeuta
sociodramatista construtivista vê a mente como o nível mais básico
de qualquer sistema humano, que tem níveis múltiplos que interação
acrescentamos a isto, o conceito de recursividade, que se refere às
interações entre os vários sistemas inter e intrapsíquicos que,
com o tempo faz com que comportamentos e crenças sobre a natureza
da condição humana influenciem-se consistente e reciprocamente.
Assim, não conhecemos a realidade objetivamente porque a realidade
é uma construção interna associada às realidades externas.
Interpsíquicamente falando, a mente
têm diálogos internos que pode capacitá-la resolver problemas,
controlar e liderar as vidas das pessoas com novas perspectivas,
aplicadas, criativas e saudáveis.
Na terapia de João e Maria, nomes
fictícios dados a eles, que apresentaremos a seguir, houve sessões
de Sociodrama Construtivista para discutir como o conjunto de
valores, crenças de gênero e mitos de cada um, afetam e
influenciam suas vidas sexuais, afetivas e amorosas. Essa discussão
acontece em três níveis: na relação eu-eu de cada um, na relação
eu-tu: a relação conjugal e na relação eu-nós: cada um com suas
famílias de origem, amigos e outros, portanto, discussões de níveis
intra e interpsíquicos. Desta forma, vemos os sintomas na
complexidade bio-sócio psico-espiritual dos contextos interpessoais,
na terapia sexual.
METODOLOGIA
Casal: Maria: 31 anos, educadora. Nível
sócio econômico médio alto.
João: 32 anos, executivo. Nível sócio econômico médio alto.
O caso apresentado, de terapia sexual
conjugal, teve articulações metodológicas da seguinte forma:
1) História clínica do casal. Sessões
individual e conjugal.
2) Genograma das duas famílias de
origem e com pesquisa das vidas e padrões intergeracionais de
sexualidade, casamentos e violências sofridas. Sessões individual
e conjugal.
3) Utilização da abordagem psicoterápica
EMDR (Eye Moviment Desensitization and Reprocesing) para tratar os
traumas individuais de João e de Maria, incluindo as cenas do
estupro e assaltos sofridos por eles. Em sessões individuais.
4) Aplicação de Onirodrama com o
casal junto na sessão.
5) Sessões de Sociodrama
Construtivista. Em sessões conjugais.
6) Exercícios e técnicas sexuais
para disfunção erétil secundária e anorgasmia secundária de
Lopiccolo (1987), Kaplan (1999) e Cavalcanti & Cavalcanti
(1997). Sessões: individuais e conjugais.
RESULTADOS
O casal é
jovem, ele com 32 anos trabalha na área de computação e ela com
31 anos, na área de educação. Casados há três anos e meio,
quando, num estacionamento, após saírem de um cinema da cidade de
São Paulo, foram abordados por três homens armados que os
assaltaram e violentaram a esposa. Relataram não ter procurado a
polícia por medo de revanche dos bandidos, que levaram o carro e os
documentos deles onde constavam endereços da residência do casal,
entre outros.
Na ocasião da violência eram
casados há seis meses e passaram a ter dificuldades no
relacionamento sexual apresentando as disfunções sexuais de
anorgasmia e disfunção erétil secundárias, nos dois anos e três
meses que se sucederam até a data da consulta.
Nas primeiras entrevistas, durante as
sessões individuais e conjugais, afirmaram não ter procurado ajuda
antes, porque imaginavam que, com o tempo, os sintomas
desapareceriam espontaneamente.
Nas entrevistas individuais a esposa
relatou estresses pós-traumáticos após o estupro como: hipervigilância;
pânicos; pesadelos noturnos e insônia. Apresentava-se com
dificuldades de dirigir o carro em ambientes menos iluminados,
taquicardia e medo de ser perseguida pelos bandidos. Referiu
dificuldades em conciliar o sono e distrações no trabalho.
Na pesquisa sobre outras
sintomologias e educação sexual do casal, surgiram: padrões rígidos
religiosos, especialmente em relação à vida sexual do marido;
padrões repetitivos de infertilidade na família de origem da
esposa; e uma queixa de inibição sexual durante o namoro e nos
primeiros meses de casamento, por parte da mulher, dizendo que seu
marido sempre foi mais tímido para tomar iniciativas sexuais e
proibia tentativas sexuais fora dos “padrões clássicos” (sic
da paciente). Aprofundando, ela relatou que havia tentado sugerir
sexo oral para ambos, mas que ele ficara chocado com essa
possibilidade, um pouco depois do casamento, pois isso lembraria
atitudes de mulher vulgar.
Além disto, não havia outras
queixas e o casal, em plena fase de adaptação ao casamento, após
quase dois anos de namoro, dizia-se feliz até a violência do
estupro.
Nas sessões conjugais ele relatou
que ficou traumatizado porque eles o obrigaram a assistir ao
estupro, com um revólver apontado para sua cabeça e, a ela,
obrigaram-na a gemer como se estivesse gostando da relação sexual.
O marido afirmou que não a reconheceu nesse momento, pois ela
parecia “uma prostituta no cio” (sic do paciente) gemendo e
rebolando muito. A esposa chorava enquanto ele relatava isto, dizia
que pensara na sobrevivência dos dois e, por esse motivo, encenou a
cena erótica que os assaltantes pediram.
Pesquisando a história pessoal dele,
lembrou-se de uma humilhação importante sofrida quando jovem, aos
17 anos. Estava com uns primos de férias, numa cidade do interior,
quando obrigaram –no a ficar a sós com uma prostituta, num
bordel. O paciente relatou que os primos em questão estavam
preocupados com a virgindade dele e, por isso então, levaram-no a
essa experiência.
A esposa relatou experiências
infantis de ver seu pai alcoólatra batendo em sua mãe e, depois,
forçando–a a “ir para o quarto com ele” (sic da paciente).
No meu entendimento diagnóstico
haveria neste casal possíveis traumas não reprocessados em suas
biografias. Por esse motivo, adotei a articulação metodológica do
Psicodrama, do Sociodrama Construtivista, da terapia sexual clássica
e do EMDR para buscar ajudá-los na solução das disfunções
sexuais.
Aqui relato Protocolos com recortes
selecionados de sessões, onde utilizei esta metodologia articulada,
que tem sido meu objeto de pesquisa clínica diária, nestes últimos
anos.
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Os
nomes são fictícios: João e Maria.
PROTOCOLO: EMDR de João.
Sessão Individual.
Queixa: Humilhação sofrida aos 17 anos.
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1. CONSTRUÇÃO DE UM LUGAR SEGURO: para os momentos de alta
ansiedade na sessão psicoterápica ou em sua vida em
qualquer momento que o necessitasse.
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| JOÃO:
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“Estou
embaixo de uma árvore do sítio de minha avó paterna onde
eu passava férias com primos e irmãos. É um pé de
mangas, cheio de frutas. É um lugar quente, mas com brisa
embaixo das árvores na sombra delas. É de manhã e as
cores predominantes são: verde, vermelho e areia. O perfume
é do cheiro das mangas”
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Palavra
chave: Segurança.
A IMAGEM selecionada por João, para ser desenssibilizada e reprocessada é:
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| JOÃO: |
Estou
no quarto sujo da prostituta. Eu me vejo deitado sobre ela
sem saber o que fazer. Ela diz pra mim: “Como é? Não
tenho o dia todo para você. Anda! Acaba logo com isso!”
Eu começo a chorar e saio da cama humilhado. Ela grita e ri
de mim. Pediu para eu pagar assim mesmo.
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Pedi
que ele encontrasse a CRENÇA NEGATIVA associada a essa
imagem.
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| JOÃO: |
“Eu
não consigo enfrentar desafios.”
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Busquei, com ele, a CRENÇA POSITIVA, alguma crença de
característica positiva que ele possui, na idade atual (32
anos).
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| JOÃO: |
"Eu
posso aprender" |
Uma vez
identificadas as crenças negativa e positiva, procurei
avaliar com ele a profundidade e o poder das mesmas.
Seguindo as escalas de medição propostas por Shapiro
(2001) pedi o grau de perturbação de IMAGEM selecionada
pela Escala de Validades Subjetivas de Perturbação: SUDS (Subjective
Unit of Disturbance Scale) de Joseph Wolpe. Numa escala de
0 a
10 ele avaliou em 10. SUDS = 10.
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Solicitei
que retornasse à IMAGEM selecionada com a crença negativa:
“Eu não consigo enfrentar desafios”
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EMOÇÃO:
Medo e vergonha.
SENSAÇÃO: No peito e na cabeça.
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Depois
perguntei quanto verdadeira ele sentia a crença positiva,
de
1 a
7 a
de: “eu posso aprender” à IMAGEM selecionada. Essa
escala que chamaremos de VOC (Validação de CONOTAÇÃO, de
Francine Shapiro, 2001) obteve o valor igual a 1. VOC=1.
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A estimulação bilateral escolhida por João foi a
auditiva.
Apresentarei alguns momentos da DESENSIBILIZAÇÃO.
Quando
aparecer a seta significa
que os estímulos auditivos estão ocorrendo. |
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| JOÃO: |
“Estou
naquele quarto nojento, com uma mulher muito fria, gorda e
com umas cicatrizes na barriga. Estou em cima dela e
paralisado”.
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“Vejo
que ela me olha com uma cara de desprezo. Devia me achar um
babaca. Eu estou apavorado, com a boca seca e sem me
mexer”. |
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“A
mulher tem um cheiro de perfume muito forte. Eu fico
nauseado. Fecho os olhos para não ver o que vai acontecer.
Tento prender a respiração para não sentir o cheiro e
melhorar as náuseas”.
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“Estou
sentindo o cheiro muito forte. Sinto que vou vomitar na
cama. Estou apavorado”.
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“Não consigo prender a respiração. O cheiro está
cada vez pior. Abro os olhos e olho para ela que parece uma
bruxa. Começo a ficar tonto”.
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| João
chora nesse momento da sessão.
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“Eu estou chorando e vou ter que sair daqui.
Estou passando muito mal. Ela me olha com uma cara muito
estranha. Parece que nunca viu isso acontecer”. |
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“O cheiro é mais forte que nunca. Acho que ela
passou perfume no corpo inteiro. Está insuportável. Vou
vomitar”.
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“Parece que os meus braços não podem
se movimentar. A mulher está me olhando e eu estou
chorando. Tento me levantar mas estou sem forças nos braços.”
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“A mulher agora olha com uma cara melhor. Acho
que ela está com pena de mim. Eu choro muito. Parece que
minhas pernas estão reagindo”. |
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“A mulher me diz para eu me acalmar, que isso
é normal para um rapaz inexperiente, não conseguir ter ereção”. |
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“Só agora percebo que não estou com ereção.
Mas isso não me incomoda mais. Estou aliviado e respirando
melhor”. |
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“O cheiro está mais fraco. Não estou mais com
náuseas. Só sinto vergonha. Não por não ter ereção,
mas por não ter enfrentado os meus primos e estar ali, sem
querer estar ali. Eu não quero ter relação com uma
prostituta”. |
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“A mulher abre a janela do quarto. Entra um
cheiro bom de mato verde. Estou melhor”.
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O
paciente estava calmo. Parecia que o estresse havia
desvanecido. Então, propus a INSTALAÇÃO da crença
positiva. Pedi a ele que unisse a IMAGEM inicial, à crença:
“EU POSSO APRENDER” e iniciei outra vez os estímulos
auditivos bilaterais.
Obtivemos um SUDS: 1 (perturbação mínima) em VOC:
7 (crenças máximas). Na cabeça e no peito, ele relatou não
mais sentir medo e vergonha. |
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Sessão Individual
PROTOCOLO: EMDR de Maria
Queixa: Violência sexual do pai contra a mãe.
Maria
com 7 anos de idade
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1.
CONSTRUÇÃO DE UM LUGAR SEGURO:
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| Maria: |
“No
banheiro da sua casa atual. No chuveiro, com água morna
caindo sobre sua cabeça. Sente o cheiro de limpeza e
perfume do sabonete. De olhos fechados, sente-se
em paz. As
cores predominantes são o branco e o transparente da água.
A temperatura é agradável e amena”. |
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Palavra
chave: PAZ.
IMAGEM: “Meu pai leva a minha mãe arrastada para dentro
do quarto do casal. Ele está bêbado e ela grita muito. Eu
vejo a cena da sala”.
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Crença Negativa: “Sou impotente. Não protejo ninguém”.
Crença Positiva: “Eu sou capaz de ajudar”
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SUDS: 10 (perturbação máxima)
VOC: 2 (crença baixa)
EMOÇÃO: Medo
SENSAÇÃO: Nas pernas.
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Maria: recebeu estimulação bilateral visual horizontal.
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DESENSIBILIZAÇÃO.
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“Ele
a puxa pelo braço e empurra para que ela entre no quarto
com ele”.
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| Maria tem uma crise de choro. |
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“Eu não consigo fazer nada por ela. Coitadinha
da minha mãe! Ela grita por socorro, mas ninguém atende,
Nem eu. Estou ali só olhando aquilo tudo”. |
| Maria
tem nova crise de choro.
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“Por que ela não dá um chute nele? Ele está
bêbado! Se ela tentar... Eu grito para ela: “Bate nele, mãe;
não deixa ele te forçar a nada. Bate nele mãe. Ele está
bêbado!” |
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“Ele a levou para dentro do quarto. Está
batendo nela, coitada! Ela só grita: Não, por favor! Não,
por favor!”. |
| Maria
tem outra crise de choro.
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“Eu
tampo os ouvidos para não escutar os gritos dela.
Coitadinha dela! Mas eu não consigo parar de ouvir! Os dois
gritam lá dentro do quarto”.
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“Eu
vejo uma janela aberta na sala. Puxo uma cadeira. Estou em
cima da cadeira e olho para a rua. Estou vendo se passa alguém.
Fico espiando pela janela. Pode passar alguém!”.
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“Eu grito para a minha mãe que vou chamar alguém
pela janela, alguém vai socorrer!” |
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“O meu pai abre a porta todo assustado, com
aquela cara de monstro, com os olhos esbugalhados e, os
cabelos
em pé. Ele
parece um demônio. Sinto o cheiro de álcool nele! Ele está
lá, me olhando!” |
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“Eu falo que chamei uma pessoa e ele me olha
assustado! Parado! Fica ali, me encarando.” |
| Maria
tem nova crise de choro.
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“Ele
me olha parado. Gozado, eu não tenho medo agora dele. Ele
é que está com medo de mim. Ele está me encarando e eu
também o encaro. Não estou com medo”.
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“Eu
me vejo olhando bem firme pra ele. Eu digo que uma pessoa
está subindo para salvar a minha mãe. Ele me olha
assustado”.
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“Ele
começa a chorar com medo. E sai cambaleando pela porta da
sala. Eu estou sem medo agora. Ele saiu correndo da casa.”
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“Eu
tranco a porta da sala. A minha mãe parou de chorar”.
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“Agora
eu me vejo deitada com a minha mãe na cama dela. Ela está
dormindo e eu estou segurando a mão dela, parece que ela
está em paz agora”.
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“Eu
vejo nós duas no quarto. Estamos em segurança ali, juntas.
A porta da sala está trancada. Estamos descansando em paz,
naquela casa”.
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Maria apresentava-se tranqüila. Fizemos a instalação da
Crença Positiva; unindo, à imagem inicial, a crença:
“eu sou capaz de ajudar”. |
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Medimos o SUDS igual a 1 e o VOC igual a 7.
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Na
abordagem do estado corporal, Maria relatou estar muito bem,
sem medo nas pernas. |
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A seguir
apresentarei outro protocolo de EMDR de João, realizado
numa sessão individual. Desta vez, trabalhamos a situação
traumática do assalto e estupro de sua esposa.
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João
manteve o mesmo LUGAR SEGURO do EMDR anterior, embaixo de
uma mangueira no sítio de sua avó paterna a com a palavra
chave: segurança.
A IMAGEM selecionada por João foi: “Ela, a Maria,
está encostada com o cara na parede e o assaltante pede pra
ela gemer e se mexer. Ela faz isso
e o outro bandido me manda ficar de olhos abertos e
olhando pra eles, lá. Tem uma arma apontada para a minha
cabeça”.
A CRENÇA NEGATIVA associada a essa IMAGEM é: “sou
um fraco”. A POSITIVA é: “luto pra sobreviver”.
Quando João associou a IMAGEM à crença negativa:
“sou um fraco”, pesquisei EMOÇÃO: medo e a SENSAÇÃO
de sentir isso no peito.
A avaliação da Escala de Validade Subjetiva de
Perturbação foi 10 e a da Validade de Cognição: “LUTO
PRA SOBREVIVER” foi 2.
Tínhamos, então SUDS=10 E VOC=2 quando iniciamos a
DESSENSIBILIZAÇÃO. Desta vez, João escolheu a estimulação
bilateral tátil nas mãos. |
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Aqui apresento alguns momentos desta sessão.
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Lembrando
que a seta
indica a estimulação
tátil sendo feito nas mãos de João, alternadamente. |
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| JOÃO: |
“Eu estou de pé, encostado no carro com um
cara apontando o revolver na cabeça. Bem perto está a
Maria. O cara desceu as calças dela. Está bravo porque ela
está com uma meia calça de lã. Diz que é ridículo usar
aquilo. Ela está muda. Não chora, nem fala, nem grita”. |
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“O
bandido diz que se eu abaixar a cabeça ou fechar os olhos,
ele vai atirar na minha cabeça. Ele me chama de chifrudo
besta. E me obriga a olhar para Maria e o assaltante
violentando ela”.
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“Eu só penso que os caras vão matar a gente
logo, logo. Eles têm cara de assassinos. Eu não vejo a
cara deles direito, mas, pela voz, sei que são
perigosos”. |
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“Eu obedeço e começo a rezar mentalmente. Peço
a Deus que nos dê uma chance de ficar vivos”. |
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| João tem uma crise de choro.
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“O cara fala para a Maria que ela deve dizer
que é virgem. Que ele é o primeiro cara dela. Para ela
falar com voz de meiga. Para ela
fazer de conta que ela está apaixonada por ele. Para
ela o chamar de: ‘meu amor’”. |
| João chora de novo.
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“O cara aperta o revólver na minha cabeça e me
chama de frouxo, de idiota. Que eu não sabia nem comer a
minha mulher.”
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| João chora. |
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“Maria começa a fazer dengo para ele e chama o
cara de “meu amor”. Ela está com cara normal, não
parece assustada.” |
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“O cara grita com ela e a empurra contra a parede.
Pede para ela se abaixar um pouco e por a mão no pênis
dele. Ele pede para ela fazer carinho no pênis dele, com as
mãos.”
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| João tem nova crise de choro. |
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“Maria obedece e faz tudo o que o cara manda.
Ela geme e faz como se estivesse gostando daquilo. Estou
pasmo. Não parece a mulher que conheço. Ela parece uma
mulher vulgar. Ela faz uns movimentos muito vulgares com o
corpo, com os quadris, com o rosto, com os óculos e com a
voz.” |
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“Maria faz tudo como o cara pede. Eu olho para
ela e não acredito que ela seja capaz de fazer aquilo,
daquele jeito vulgar.” |
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“Ele grita para ela o chamar de “meu amor”
o tempo todo com voz bem meiga. Ela faz isso direitinho. Ela
parece outra mulher”. |
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"O cara só fica falando no meu ouvido: “é
isso aí, seu trouxa”.
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| João chora de novo.
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“O cara acabou o serviço. E deixou ela lá na
parede, de costas. Com a cara na parede. Imóvel! Com as calças
jeans abaixadas. Ela parece uma estátua, coitada.” |
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“O cara fala para eu passar a bolsa dela, o relógio,
o celular e a minha carteira. E as chaves do carro. Ele me
manda abraçar a Maria e fica lá quieto. Para eu fazer de
conta que tô comendo ela. Diz que ainda vão pensar se vão
matar nós dois ou não.” |
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“Eu estou lá abraçado nela. Mas não sinto o
corpo dela. Está muito frio e eu só fico rezando e peço a
Deus que eles não matem a gente.” |
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“Escuto um cara falar pra mim: “E aí,
trouxa, gostou? Viu como se come uma mulher? Você é um
trouxa!” |
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| João chora de novo.
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“Eles riem de mim. E procuram coisas no carro e
na bolsa. Dizem que vão sair com o carro mas se a gente
olhar para trás eles metem bala na gente. Eles falam para a
gente ficar bem parados e esperar uma hora antes de sair
porque tem outros caras espiando a gente e podem atirar. Pra
gente não avisar a polícia porque eles sabem onde a gente
mora.” |
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“Escuto o carro ligado e saindo do
estacionamento. Eu me afasto um pouco do corpo da Maria.
Tenho nojo de encostar nela.” |
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“A gente fica ali, parados, um tempão. Não
sei dizer quanto tempo. Ficamos ali, os dois mudos, sem
falar nada, nem chorar, nem nada.” |
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“Está ficando frio. A Maria está tremendo de
frio, coitada. Eu me vejo vestindo as calças dela. Ela está
muda. Só treme muito. Coitada. |
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“Eu vejo os olhos dela agora. Ela está triste
e chocada. Voltou a ser a minha Maria, doce e meiga. Eu a
abraço agora de verdade. E nós dois estamos chorando,
muito emocionados.” |
| João tem uma crise de choro.
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“Estamos caminhando abraçados para a rua e vemos um
táxi. A gente não consegue parar de chorar todo o
tempo.”
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“Maria me diz para tentar apagar o que
aconteceu de minha mente, porque o mais importante é que
estamos vivos e salvos”. |
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“Estou aliviado e abraçado com ela na sala da
casa de meus pais. Estou muito aliviado agora. A Maria é
uma mulher forte. Depois de tudo que ela passou, ainda fica
preocupada comigo.” |
|
Fizemos a INSTALAÇÃO DA CRENÇA POSITIVA: “luto para
sobreviver” e avaliamos o SUDS em 1 e o VOC em 7. Na
sondagem corporal, João sentia-se calmo, aliviado, cansado
e sem medo no peito.
|
Com
Maria, numa sessão individual fizemos isto em 5 sessões.
Em cada uma delas aparecia um detalhe lembrado,
dessensibilizado e reprocessado. Isto se repete em EMDR com
situações muito traumáticas: ter-se que trabalhar várias
imagens associadas com novas lembranças traumáticas. Aqui
apresentamos apenas o primeiro desses cinco EMDR sobre o
estupro.
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*
EMDR DE MARIA
* Cena do estupro
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IMAGEM: “Eu estou com a cara numa parede. Ele me aperta
muito contra a parede e meu rosto parece que vai esmagar.
Tenho nas mãos uns desenhos num papel e os amasso com muita
força para agüentar a dor. Ele grita comigo e diz que sou
uma horrorosa porque tenho meia calça de lã embaixo da calça
jeans. Diz que a minha calcinha é ridícula e que tenho um
“bumbum” feio e gordo. |
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CONOTAÇÃO NEGATIVA: “Eu sou fraca.”
CONOTAÇÃO
POSITIVA: “Eu posso me controlar.”
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EMOÇÃO:
Medo
SENSAÇÃO: Nas pernas e na cabeça.
AVALIAÇÕES: SUDS: 10
VOC: 4
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Maria escolheu a estimulação bilateral visual horizontal.
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Iniciamos a DESSENSIBILIZAÇÃO.
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Lembrando que
significa estimulação bilateral visual e horizontal sendo
aplicada.
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O seu LUGAR SEGURO, que permaneceu o banheiro de sua
casa atual, no chuveiro, cheiro de sabonete e sensação de
paz e conforto.
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“Vejo-me de costas, com as calças abaixadas e
um homem mais baixo que eu, tentando me penetrar.” |
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 |
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“Ele grita muito comigo. Está nervoso porque não
consegue me penetrar. Ele me xinga de puta, de vagabunda,
que não sei abrir as pernas direito. Eu percebo que ele não
consegue me penetrar e me machuca a cabeça com uma mão e
com a outra tenta abrir minhas pernas.” |
|
 |
|
“Vejo que ele grita muito. Pergunta se eu já
perdi a virgindade. Eu digo que sou casada. Ele fala: “Não
é não! Você é virgem, você vai ser minha agora.” Ele
tem um hábito quente e me cospe no pescoço enquanto grita
no meu ouvido.” |
|
 |
|
“Eu falo para ele que tudo bem, que ainda sou
virgem, mas ele não para de gritar para eu abrir as
pernas.” |
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 |
|
“Eu me agacho um pouco para facilitar a penetração.
Ele arranca os papéis de minha mão. Torce o meu braço
para trás e me manda masturbá-lo com as mãos e dizer que
eu sou virgem e que ele é o meu amor.”
|
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| Maria tem uma crise de choro.
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|
“Eu obedeço tudo. Estou calma agora e penso
que vou fazer tudo o que ele quiser para ele se satisfazer
logo e ir embora. Mas ele não para de gritar comigo.” |
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“Tento ajudar e falo: “Eu te amo” do jeito
que ele pede. Mas ele não para de gritar.” |
| Nova crise de choro.
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“Ele me vira de novo com a cara contra a
parede. Parece que ele está me penetrando mas eu não sinto
nada. Só fico rezando para aquilo acabar logo e ele sair
dali.” |
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“Eu me vejo abraçada a um ursinho que era meu
quando menina. E ele está respirando de um jeito horrível
atrás de mim. Mas eu não sinto nada. E fico abraçando meu
ursinho.” |
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 |
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“Ficou tudo claro agora. Engraçado! O lugar é
o mesmo, mas ficou tudo claro. O cara está atrás de mim,
me empurrando contra a parede mas parou de gritar, ele só
está respirando de um jeito forte e esquisito. Mas eu não
sinto nada. Estou abraçada ao meu ursinho.” |
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 |
|
“Parece que todo mundo que passa ali, vê o que
está acontecendo, mas acha normal e continua andando
normal. Eu não consigo pedir socorro.” |
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|
“Agora vejo o revolver na mão dele que me
empurrava a cabeça contra a parede. Ele diz que sou fria e
nojenta e que vai me matar porque eu sou feia.” |
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| Maria tem nova crise de choro.
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“Eu estou abraçada ao o meu ursinho e parece
que eu estou menor. Agora eu pareço uma criança e meu pai
está me batendo com uma cinta. Não é meu pai, é o
bandido me batendo com uma cinta no meu bumbum. Sinto muita
dor.” |
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| Maria chora muito.
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“Ele está me machucando muito. Ficou escuro de
novo, estou no meu tamanho normal e o ursinho sumiu. Ele
pede para eu falar eu te amo e gemer muito. Eu consigo gemer
e falar “Eu te amo”. Sinto muita dor no meu bumbum.”
|
|
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| Maria continua chorando.
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“Ele termina de fazer sexo comigo e me grita para não
olhar para trás e nem vestir as calças. Eu digo que vou
obedecer sim.”
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| Maria chora.
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“Eu peço para ele nos deixar em casa com o
nosso carro porque é tarde e eu estou com muito medo.” |
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|
“Eu estou de costas para ele, chorando e peço.
“Por favor, me leve para casa”. Eu estou tremendo toda
de medo.” |
|
 |
|
“Eu imploro para ele não me deixar ali
sozinha. Ele diz que é isso que eu mereço porque sou muito
feia e nojenta.” |
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|
“Ele me joga no chão, com as calças jeans
abaixadas, nos pés. Ele me diz para parar de chorar senão
ele me atira na cabeça.”
|
|
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| Maria volta a chorar.
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|
 |
|
“Agora ele está rindo debochado de mim. Diz
que sou uma porcaria de mulher e por isso eu ainda era
virgem. Diz que vai embora, para eu não olhar para ele e
parar de chorar.” |
|
 |
|
“Eu falo: obrigada moço. E escuto o carro
ligar e ele sair dali. Fecho os olhos e penso no meu ursinho
de quando eu era criança.” |
|
 |
|
“Vejo que estou sozinha e visto as minhas calças.
Sinto muita dor. Parece que eu apanhei de cinto.” |
|
 |
|
“Eu me vejo aliviada porque ele foi embora e
tudo acabou. Passa uma senhora e eu tento pedir ajuda mas não
consigo falar.” |
|
 |
|
“Estou com muita dor no corpo inteiro. Mas
estou aliviada agora. Acabou. Ele foi embora. Eu quero ir
para casa e tomar um banho e arrancar aquela coisa do meu
corpo.” |
|
 |
|
“Eu vou indo para casa a pé. Está escuro mas
não tenho medo. Penso em chegar em casa, tomar um banho e
dormir.” |
|
 |
|
“Eu estou embaixo do meu chuveiro, e fecho os
olhos para sentir a água na minha cabeça. Eu me sinto em
paz e com sono e cansada.” |
|
 |
|
“Fico ali deixando a água escorrer no meu
corpo. Isso vai me limpando e me aliviando. Estou bem e
cansada. Quero dormir.” |
|
 |
|
A
sessão ficou incompleta. O SUDS abaixou para 5 e o VOC
subiu para 4. Combinamos de “guardar” aquela sessão
numa caixa do consultório e abrir quando ela retornasse.
Voltamos ao seu LUGAR SEGURO e assim completamos essa sessão,
que chamamos de sessão incompleta, por não termos atingido
SUDS igual a 1 ou a zero.
|
Maria fez
mais 4 sessões de EMDR dessa situação do estupro. Em cada
uma delas lembrava de detalhes específicos. Somente na 3ª
sessão colocou o marido na IMAGEM sua, mas relatando que
ele tinha ficado com a parte menos pior: a de ver e ela,
ficou com a de sentir o estupro. Na última sessão de EMDR,
quando o assaltante saiu, ela se viu abraçada ao marido e
chorando juntos. Sua última CRENÇA POSITIVA foi: “Sou
forte. Sei me defender de violência.”
No último EMDR o SUDS foi zero.
|
|
|
| Quando
Maria e João tinham já trabalhado seus traumas em sessões
individuais de EMDR, propus uma sessão de casal para
recordarmos a cena do estupro com outra abordagem: o
ONIRODRAMA CONJUGAL.
|
|
ONIRODRAMA DE JOÃO E MARIA.
|
Após relaxamento respiratório e corporal, ambos
relaxados em poltronas separadas no consultório, propus um
sonho comum e dirigido. O sonho do estupro com as mudanças
que desejassem fazer. Combinei que trabalhariam de olhos
fechados e ele me relataria o sonho com uma batida de caneta
na minha mesa e ela com 2 batidas.
|
|
A
cena escolhida por ambos, para o início do sonho foi: Maria
encostada na parede e o bandido atrás dela. João encostado
no carro com o outro bandido com uma arma apontada para sua
cabeça e ordenando que ele olhasse a cena da violência. O
cenário é um estacionamento de um shopping, num lugar
escuro e vazio.
Quando ambos encontram essa CENA em suas mentes, iniciamos o
ONIRODRAMA que descrevo, em partes, a seguir:
|
| João: |
“Eu escuto: “Passe as chaves e cale a
boca.” Vejo dois homens perto de nós. Um me pega no braço
e o outro rende a Maria encostada na parede.” |
| Maria: |
“Eu estou encostada na parede. Um homem me
prende e diz para eu ficar quieta e obedecer, senão ele me
mata.” |
| João: |
“O cara me diz para olhar para ele e eu obedeço.
Vejo só os cabelos dela e a voz a dela gemendo e dizendo
que “Eu te amo” para aquele sujeito.” |
| Maria: |
“Eu penso que vou sair dali viva e salva e que
faço qualquer coisa para viver e ir embora para casa com
meu marido.” |
| João: |
“Ela parece uma mulher diferente. Parece que
tem uma voz muito sensual para aquele homem. Eu fico
assustado. Parece um filme pornográfico.” |
| Maria: |
“Eu percebo que o cara é um doente mental e
que não tem ereção. Melhor assim. Vou tentar enganá-lo
que está conseguindo ter a relação para ele ir logo
embora. Eu quero me salvar e salvar meu marido!” |
| João: |
“Ela se mexe e geme de um jeito muito estranho.
Parece que não é ela. Eu nunca a vi desse jeito. Fico
perturbado.” |
| Maria: |
“Eu me sinto agora corajosa porque estou
enfrentando esse bandido e essa situação. O cara está
ficando mais calmo e isso é bom para a sobrevivência de nós
dois.” |
| João: |
“Eles parecem isolados de todo o mundo. Parece
uma relação sexual normal, que a Maria está gostando
disso. Eu me sinto um verdadeiro idiota.” |
| Maria: |
“Não paro de pensar que se o cara se achar o
tal, ele vai ficar menos humilhado e vai terminar logo com
aquilo e ir embora. Isso me dá forças para fingir que
estou tendo um orgasmo. Estou fria para controlar a situação.
A gente vai conseguir se salvar, se Deus quiser.” |
| João: |
“Como a Maria tem uma coragem dessas? Eu não
conseguiria me entregar assim para um bandido!” |
| Maria: |
“Eu estou me concentrando só nisso. Eu quero
fazer este cara acabar logo com este pesadelo. Parece que eu
estou conseguindo convencê-lo.” |
| João: |
“Acho que este bandido é um animal doente. Por
que ele tem a necessidade de fazer a Maria gemer e dizer que
o ama?” |
| Maria: |
“Este é um homem agressivo e que deve ter
problemas sexuais. O que está lá com o João também deve
ser problemático. Espero que ele não faça nada com o
ele.” |
| João: |
“Eu nem tinha pensado nisso! Meu Deus, e se
depois for a minha vez? Estou apavorado! Coitada da Maria!
Como será que ela suporta essa humilhação?” |
| Maria: |
Espero que o João olhe para cá, mas tente
pensar em outra coisa. Deve ser duro para ele assistir isto.
Mas nós vamos sair vivos daqui, se Deus quiser!” |
| João: |
“Nossa! A Maria ainda consegue pensar em mim?
Essa é uma mulher de fibra e generosa comigo. Ela não
merece passar por isso.” |
| Maria: |
“Eu já superei tantas coisas difíceis na
minha vida. Vou superar esta também.” |
| João: |
“Estou envergonhado. Eu sou muito mais egoísta
que a Maria. Vou tentar ajudá-la a superar isto. Nós dois
somos fortes quando estamos unidos. Vamos superar isto, com
certeza.” |
| Maria: |
“Ficarmos vivos é o mais importante.” |
| João: |
“Ficamos vivos. Aquilo já aconteceu a três
anos. Não quero mais perder tempo. Vamos superar nossos
problemas, Maria.” |
| Maria: |
“Eu e João, de mãos dadas, vamos embora
daquele lugar e choramos juntos e unidos as dores da gente.
Porque é horrível ser violentada assim, mas é muito bom
ter o ombro amigo do nosso amor, para chorar e ter
consolo.” |
| João: |
“Acabou o pesadelo. Nós estamos vivos. Eu abraço
a Maria bem forte e choramos juntos até ficarmos aliviados.
Eu digo a ela para não se preocupar pois eu vou cuidar dela
até ela superar isso tudo que aconteceu com a gente. Eu
digo para Maria, que ela é uma mulher forte, que eu admiro
a coragem dela e que eu a amo muito.” |
| Maria: |
“Vamos para casa e lá tomaremos um banho longo
juntos. O João é muito delicado comigo e me banha como se
eu fosse uma criança pequena. Ele cuida de mim e me diz que
nós dois somos muito mais fortes do que a violência
daqueles bandidos. A violência não vai nos destruir. Nós
não vamos deixar isso acontecer.”
|
|
O casal está muito emocionado com esse momento. E chorando.
Fiz com eles uma despedida daquele sonho. Pedi-lhes que,
ainda de olhos fechados fizessem novamente exercícios de
respiração e que imaginassem como era o consultório onde
estavam e o que veriam quando abrissem os olhos. Falei a
data e a hora daquele momento e os trouxe, lentamente, de
volta ao presente.
O casal, de olhos abertos, se abraçou. Choravam muito,
comovidos.
Solicitei que compartilhassem os sentimentos vividos naquele
Onirodrama e suas descobertas. João pediu desculpas a Maria
e falou como percebeu tê-la abandonado “à sua própria
dor” (sic do João) por uma atitude egoísta e machista,
que ele identificara nesse sonho a dois, pois ele deu mais
importância a ela ter tido sexo com outro homem, do que à
união e o amor deles. Maria disse que isto a aliviava
muito, pois sentia-se duplamente traumatizada: pelo estupro
e pela atitude de rejeição do marido. Relatou atribuir a
disfunção erétil do João a ela não ser mais decente e
merecedora do amor dele.
Após
este trabalho de dessensibilização e busca de novas
narrativas ao estupro sofrido pelo casal, passamos à
terapia sexual clássica com exercícios de Kaplan (1999),
de Cavalcanti & Cavalcanti (1997) e de Joseph Lopiccolo
(1987) para erotização, excitação e aprendizagem orgástica
do casal.
|
|
DISCUSSÂO:
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|
Este
processo de terapia sexual conjugal, demonstra a importância
de o terapeuta sexual indicar e/ou realizar intervenção
psicoterápica para aspectos intrapsíquicos dos componentes
do casal, antes de propor a terapia sexual propriamente
dita, com foco na sexualidade. As queixas apresentadas pelo
casal, de disfunção sexual e anorgasmia secundários, pós
assalto com estupro da mulher, podem ser aqui considerados
como características estresses pós-traumáticos iniciando
a abordagem específica do EMDR aqui proposta.
Vimos
também como o Psicodrama com sua técnica do Onirodrama,
possibilitou a compreensão dos significados subjetivos que
cada um deu ao mesmo fato vivido, buscando a ampliação
para a solução dos problemas decorrentes, e favorecendo
uma comunicação intersubjetiva propícia à solidariedade
e compreensão recíproca do casal traumatizado.
O
Sociodrama Construtivista, ocorrido neste processo terapêutico,
favoreceu a desconstrução de mitos, tabus, e crenças
ligados à uma cultura machista e sexista, onde a mulher
violentada pode ser confundida com a mulher promíscua.
Vimos como foi importante para ambos, perceberem-se
protagonistas de uma patologia sexofóbica sócio históricamente
construída. Sabemos, por literaturas específicas e por
nossa prática clínica, como mulheres são duplamente
traumatizadas quando estupradas: pelo estuprador e pelos
comportamentos sexofóbicos e preconceituosos dos maridos,
parentes, policiais e até médicos que as atendem nessas
ocasiões. E, ainda, como os casamentos podem sofrer
rupturas e/ou afastamentos sexuais e emocionais.
Os
resultados mostram como uma terapia sexual que trabalha os
traumas associados aos sintomas, tem
efeitos positivos ao sintoma sexual do casal e dos
sintomas.
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|
CONSIDERAÇÔES
FINAIS
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|
Estamos
em uma época privilegiada por novos conhecimentos e
tecnologias que favorecem o trabalho do terapeuta sexual,
numa rede multiprofissional fundamental.
Estas
pesquisas embasadas na visão pós moderna da ciência onde
o conhecimento da realidade subjetiva deixa legitima a
construção da comunicação intersubjetiva do casal, na
compreensão da particularização da vivência dos traumas,
na desconstrução de mitos, tabus e valores que
patolologizam nossas vidas sexuais e reforçam uma sociedade
sexista e sexofóbica.
A
articulação metodológica da terapia sexual clássica, com
o EMDR, o Psicodrama e o Sociodrama Construtivista, antes de
ser uma busca de metodologia
do trabalho clínico do terapeuta sexual, configura-se numa
atitude pós moderna de acreditar que nenhuma área do
conhecimento, esgota as possibilidades de tratamento clínico.
Esta
articulação aqui proposta, obviamente reflete a formação
clínica da autora. Porém, acredito que tantas outras
possibilidades, desde que embazadas cientificamente, possam
estar a serviço da saúde sexual de nossa gente.
|
|
“Não
há formulas para a felicidade. Talvez haja para o bem
estar.“
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Izquierdo,
2004: 111 |
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Referências
Bibliográficas
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*
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das inadequações sexuais. São Paulo: Roca.
* GRAND, D. (2006). Curación emocional a máxima
velocidad. Buenos Aires: Sygnus Talleres Gráficos.
* IZQUIERDO, I. (2002). Memória.
Porto Alegre: Artmed
* KAPLAN, H. (1999). Transtornos do desejo sexual -
Regulação disfuncional da motivação sexual. Porto
Alegre: Artmed.
* LOPICCOLO, J. (1987). Descobrindo
o prazer - Uma proposta de crescimento sexual para a mulher.
São Paulo: Summus.
* MORENO, J.L. (1974). Psicodrama.
São Paulo: Cultrix.
* SHAPIRO, F. (2001). EMDR. Eye Movement Desensitization
and Reprocessing - Basic Principles Protocols, and
Procedures. Rio de Janeiro: Nova Temática.
* ZAMPIERI, A.M.F. (1996). Sociodrama Construtivista da
Aids. São Paulo: Psy.
________(2004). Erotismo,
sexualidade, casamento e infidelidade: Sexualidade conjugal
e prevenção do HIV e da AIDS. São Paulo: Ágora.
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