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Quais de nós teve educação sexual nas famílias de origem?
O que aprendemos sobre virgindade, erotismo, sexualidade, prazer,
orgasmos, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e Aids?
Onde aprendemos? Como aprendemos?
A educação é um processo contínuo e eterno, que tem bases
de solidez, confiabilidade e “empoderamento” para as questões
da vida, dentro do sistema familiar, especialmente na infância e na
adolescência.
Como estão preparadas as famílias atuais, com filhos
adolescentes, para lidar com a pandemia da Aids, os perigos do HPV e
o problema da gravidez precoce? Tudo isto inserido num contexto
social permeado de violências afetivas, sexuais, psicológicas e
sociais; a destruição que as drogas podem provocar e tantas novas
possibilidades e modalidades de formação de famílias? Hoje temos
famílias de pais homossexuais, famílias recasadas, famílias
adotivas e monoparentais, entre outras.
Tantos são os desafios e tantas as oportunidades de
crescermos como educadores, pais e filhos. Quanto mais nos unirmos,
lutando contra a tentação de certezas, para buscar o compartilhar
dos conhecimentos que respeitem as diferenças, tanto menos
problemas teremos, tanto menos impotentes nos sentiremos frente a
estas questões: gravidez precoce e Aids.
Os índices de gravidez, natalidade e aborto entre
adolescentes no Brasil, preocupam profissionais das áreas de saúde
e ciências sociais e são vistos como expressão de várias
transformações sociais, como a liberalização dos costumes
sexuais e o baixo uso de contracepção por adolescentes.
Além de ser uma forma de expressar amor, sexo é uma fonte
de prazer e saúde, e pode ter como finalidade a reprodução
humana. De uma relação sexual pode sugerir uma gravidez que
normalmente acontece se, durante o coito, o homem ejacular na vagina
da mulher e se ela estiver no período fértil.
É comum alguns homens pensarem que a prevenção e a própria
gravidez são um problema apenas da mulher. Afinal, é ela quem
carrega o filho na barriga, que o pare e o amamenta. Eles querem
sexo, mas não se comprometem com essas questões. Essa é a queixa
de muitas jovens. Ter compromisso é uma questão de conscientização
e do próprio desejo do jovem de assumir, com responsabilidade, a
relação a dois.
Os pais que acolhem seus filhos, que os informam e lhes
permitem um espaço para diálogos contam mais facilmente com a
aproximação e abertura deles para falarem de qualquer problema.
Uma gravidez indesejada é um transtorno na vida do adolescente. Com
quem ele pode contar? Agora não adianta mais só prevenir, pois o
fato está consumado.
O ideal seria que a adolescente procurasse adultos de sua
confiança, principalmente o médico, para orientá-la. A jovem que
não pode contar com o apoio dos pais toma outras medidas, às vezes
desastrosas, como deixar de se alimentar para esconder a barriga
justamente na fase da gravidez, quando precisa de uma dose boa de
nutrientes. Em desespero, recorre a conselho de amigos ou pessoas
que não têm conhecimentos corretos para orientá-la e a
adolescente pode decidir por providenciar um aborto utilizando-se de
métodos perigosos, ou mesmo fazê-lo contra sua vontade. Fatos como
este afetam a saúde, a auto-estima e causam conflitos que poderão
fragilizá-la mais ainda.
Há
situações que favorecem a gravidez não planejada na
adolescência, como:
*
Falta de informações e orientação sexual.
*
Abandono ou rejeição dos pais.
*
Abuso sexual ou estupro.
*
Influência de modelos exibidos pela mídia.
*
Falta de conhecimentos dos métodos anticoncepcionais
e condições para adquiri-los.
*
Ficar livre da pressão dos pais através do
casamento.
*
Tentativa de prender o namorado por causa do filho
que espera.
*
Chamar atenção sobre si mesma.
*
Curiosidade.
*
Contrariar ordens familiares.
*
Carência afetiva. Desejo de que o bebê seja a fonte
de carinho.
*
Desejo de buscar poder. |
O aborto é uma questão polêmica. Algumas pessoas são a
favor, outras, contra. A legalidade do aborto varia conforme as leis
de cada país. No Brasil, o aborto é considerado um crime, salvo
quando é feito para salvar a vida da gestante ou quando a gravidez
se deu pelo estupro.
As pessoas favoráveis ao aborto defendem, entre outras
coisas, a liberdade e o direito da mulher de decidir sobre a
interrupção da gravidez indesejada. As pessoas que são contra o
aborto afirmam que a vida tem início no momento da concepção.
Em alguns casos de gravidez não planejada, é comum os
adolescentes acreditarem, de forma simplista, que o aborto é uma
solução. Pelos depoimentos, podemos observar que há estresse e
culpa na grande maioria das jovens que abortaram.
Calcula-se que, no Brasil, sejam realizados em torno de 1,5
milhão de abortos por ano, sendo grande parte de adolescentes.
Algumas das causas que justificam esse ato índice é a falta de uma
política governamental de planejamento familiar, de educação
sexual nas escolas e na família. A falta de informação ou de
dinheiro contribui para que a maioria da população não tenha
acesso aos métodos anticoncepcionais, como DIU, pílulas, camisinha
e outros recursos.
Quando as adolescentes tentam fazer um aborto sem
acompanhamento médico, colocam em risco a saúde e suas próprias
vidas. Portanto, por esta e outras razões, é importante que saibam
o que estão querendo com a relação sexual. Ter filhos? Busca
apenas do prazer? Sendo assim, ambos devem estar de acordo e a par
dos cuidados necessários. Por uma questão de respeito a si próprio,
à outra pessoa e a um terceiro, possivelmente um bebê, é preciso
que cada um tenha consciência do que está querendo. A partir daí,
é conveniente que dialoguem e cheguem a uma conclusão mútua. Se
querem ter relações sexuais e não querem ter filhos, que pensem
em métodos anticoncepcionais. Esta é uma forma de prevenir.
É certo que a exigência tradicional de virgindade feminina
até o casamento, a desmoralização e estigmatização das não-virgens
têm se alterado significativamente.
A concepção moderna de amor e de eleição pessoal e
subjetiva do amado, associada à difusão televisiva de uma imagem
extremamente sexualizada da mulher moderna, passou a comportar a
legitimação social e familiar de certos contatos corporais entre
os casais de namorados como abraços, beijos e carícias arrojadas
que podem ser trocados publicamente. Ser atraente e sensual, capaz
de despertar o interesse do outro sexo, tornou-se um importante
valor para a identidade feminina, tal como a sexualidade difundida
pelos meios de comunicação de massa. A exibição de erotismo e
sensualidade associa-se à interdição do exercício pleno da
sexualidade por mulheres solteiras.
Como se formula a identidade feminina adolescente dentro
desse quadro de ambigüidades? De que forma mulheres adolescentes
estruturam sua subjetividade com relação a normas e valores
contraditórios?
Um número cada vez maior de mulheres adolescentes urbanas
tornam-se grávidas sem o desejarem.
“-
Se a garota carregar o preservativo na bolsa, tira a idéia
de que ela transou por não resistir ao calor da paixão, de
que foi sem querer...”
Selma, 15 anos |
Enquanto que para o homem adolescente a exploração do
interesse heterossexual é considerada normal e desejável, para a
mulher adolescente há uma associação entre erotização que
estimula a jovem a ser sedutora, feminina e simultaneamente ao
platonismo, procrastinando-se o exercício da sexualidade para o
momento da descoberta do grande amor ou do homem com o qual ela
queira casar. Desta forma, enquanto é socialmente admitido ao homem
adolescente experimentação e erro de atitudes sexuais, vistas como
coisas da idade, nos quais ele pode treinar e experimentar sua
criatividade, à mulher adolescente multiplicam-se os discursos e práticas
que condicionam e treinam sua aptidão ao papel que deve, assumir na
sociedade: mãe e esposa, isto é, reprodutora e não
produtora da vida e do social.
Vejamos um depoimento de uma adolescente, que aqui chamaremos
de Maria. Ela tem 15 anos e define adolescência assim:
| “-...Adolescência...
Deixa eu ver... Pra mim é um momento na minha vida, um
momento que você começa a se descobrir... Começa a querer
pensar com a sua cabeça, viver suas experiências, seja
certo, seja errado, quebrando a cara... Um tempo que você
pode aproveitar mais a vida, se divertir, estudar...”
|
A identificação com a mulher independente e
profissionalizada, fornece o principal modelo de identidade adulta,
cuja base a adolescente se vê nessa fase da vida e na qual anseia
manter ou ampliar a relativa liberdade alcançada com relação à
família, sem abrir mão da proteção e sustentação que ela
proporciona.
Dados da Pesquisa Nacional sobre Saúde Materno-Infantil e
Planejamento Familiar, no Brasil (2005), apontam a idade de 14 anos
como aquela em que a ocorrência do primeiro intercurso torna-se
significativamente alta entre as mulheres.
A passagem da infância à adolescência dá-se através de
um processo descontínuo e a ocorrência de gravidez não
programada, especialmente quando seguida de maternidade, pode ter ação
disruptora. Isto é tanto mais provável quanto mais jovem for a
adolescente e quanto menos o seu meio sociocultural e a sociedade em
geral, lhe forneçam modelos passíveis de permitir identificação.
Muitas adolescentes negam a gravidez, até praticamente o
momento do parto, e especialmente na primeira gravidez.
A gravidez é o ponto final da adolescência, enquanto aspiração
de participar e de construir uma identidade base para a identidade
adulta de mulher relativamente emancipada.
A importância da televisão e da mídia em geral na difusão
e na produção de sexualidades e identidades é percebida de forma
perspicaz. Todavia, muitas jovens não têm análise crítica
suficiente para diferenciar as fantasias do amor e da sexualidade,
da realidade de seus contextos de vida. Confusas, muitas vezes
idealizam no amor sexual a resposta para seus problemas e frustrações
da vida.
Alguns adolescentes dizem que em casa o pessoal é meio
antiquado, que os pais são tradicionais, outras afirmam que se uma
menina transar com o namorado é normal, e se uma menina engravidar
antes de casar também não é nenhum fim do mundo! Que é melhor
que outras coisas, como por exemplo, se drogar.
Há outros depoimentos, como o de Cecília, de 16 anos que
liga o sexo ao amor, justificando a falta de cuidados com doenças
sexualmente transmissíveis e/ou gravidez.
“-...Quando
você dá por amor... tá consciente, não vai se arrepender
depois... Então, o fundamental é o amor? Só por desejo
você não... O troço também é bom pro corpo, bom pra
mente. Mas... Assim, eu estava falando no caso de... Num
outro caso... No caso de... De viver a dois, entende? Pra se
completarem como casal, entende? O homem quanto mais transa,
mais ama e a mulher, quanto mais ama mais transa”.
Cecília, 16 anos. |
Outra adolescente fala da não premeditação do sexo:
“-...Eu
sempre tentava evitar, não deixar as coisas chegarem lá...
Mas eu gostava dele, né? As coisas foram indo, foram indo,
até que aconteceu: Enquanto você tá moça, você tenta
evitar um pouco... Mas sabe como é homem: sempre insiste
mais um pouco... Até que consegue o que quer...”
Carla, 15 anos. |
A inocência tem sido por vezes denominada de ingenuidade biológica,
na medida em que a adolescente alega desconhecer ou não toma em
consideração seus conhecimentos da sexualidade e da reprodução
ao iniciar vida sexual ativa. Essa ingenuidade apesar da presença
de grande e real desconhecimento de fatos elementares do ciclo
reprodutivo feminino, especialmente entre as adolescentes dos
estratos pobres, aponta para o não-sancionamento do intercurso
sexual.
A não premeditação
do sexo é entendida pelas jovens como evitação de desmoralização
sexual.
“-...Se
uma menina é pega pra cristo, ih! ... Aí é fogo. Porque
os próprios caras só ficam a fim dela pra poder falar; não
tão a fim de um relacionamento, entende? São os rapazes
que “queimam” as meninas com quem eles saem?. As
mulheres são ainda piores. Começam com a fofoca...”
Marilda, 15 anos. |
Uma vez que a necessidade de não premeditação se mantém,
a perda da virgindade não sanciona o exercício da sexualidade
exceto, quando se dá dentro do casamento.
Há, ainda, a necessidade de inscrever a vida sexual ativa
num dispositivo de moralização, evitando a adolescente, de ser
culpabilizada ainda inseguras, após perderem a virgindade e ao
iniciar uma nova relação, recusam-se, a manter encontros em motel
ou a ter relações sexuais na casa de seu namorado ou de seus pais.
Os intercursos sexuais entre os dois ocorrem, durante um certo
tempo, em locais e circunstâncias fortuitas, o que permite a ela e
ao namorado, percebê-los como não premeditados. Isto pode durar
algum tempo até que o amor dos dois legitime o início da vida
sexual mais livre e talvez com fantasias de que com eles não vai
acontecer nada de DSTs ou gravidez..
Vários são os elementos de normalização a serem
examinados. Como o amor, que é visto como fator de perda da
razão, de ilusão, de ingenuidade ou perda de controle, não
premeditação da atividade sexual, cessão antes que paixão, paixão
como sinônimo de descontrole, exigüidade de número de parceiro e
fortuidade das circunstâncias em que se deram os intercursos
sexuais. Já Michael Foucault (1982) observava que o discurso que o
indivíduo é capaz de ter sobre si mesmo, adquire efeito, não em
quem o recebe, mas naquele que é extorquido.
O amor pode reduzir-se a amor-concessão, o que permite uma
demissão da própria sexualidade, reduzindo-a à sexualidade do
parceiro. A gravidez e a maternidade tendem a assumir um caráter
quase na ordem natural das coisas, para a subjetividade dessas
adolescentes. O uso de contracepção desmoralizaria sua vida
sexual, mesmo depois do desvirginamento, uma vez que implicaria
consciência e premeditação, antes que cessão e sedução.
Vejamos este depoimento:
“-...Eu
nem queria, ele é que procurava sexo comigo. Eu não queria
perder minha virgindade, mas ele foi me levando no bico. Daí
eu nem pensei em pílula... que nada! Eu sempre dizia não,
mas ele prometeu que a gente ia casar. Eu gostava dele,
tinha amor por ele, né? Tanto é que depois eu chorei, mas
não adianta chorar o leite derramado, né? Quando a gente
gosta acaba se iludindo com aquilo, acredita no amor do
homem, aí, já viu! Que casar que nada!”.
Célia, 14 anos.
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Algumas jovens admitem, cautelosamente, a curiosidade sexual, mas
que cedem ao intercurso sexual por amor:
“-...
No fundo, no fundo... eu tinha muita curiosidade... Ia doer?
Ia sangrar? Todo mundo fala tanto que é bom...”
Carla, 14 anos. |
Existe uma relação entre menarca, primeiro intercurso e
primeira gravidez entre adolescentes de baixa renda. A média de
idade na menarca encontrada é de 13 anos, e a idade média do
primeiro intercurso sexual, 15 anos.
O principal sentimento referido com a menarca é de
dubiedade: por um lado, incômodo, estorvo, nostalgia da infância;
por outro, orgulho e descoberta, sensualização.
Adolescentes, que vivem em famílias e meios onde gravidez
precoce é freqüente, manifestam maior interesse pela maternidade e
menor desejo de abortar.
A reação positiva do namorado é fundamental na opção
pela maternidade. É a coabitação conjugal que irá moralizar sua
gravidez solteira e não a maternidade. A gravidez, uma vez tornada
pública, isto é, uma vez conhecida pela família e pela vizinhança,
altera irremediavelmente sua identidade e posição sócio-familiar,
ainda que ela houvesse se submetido ao aborto. Assim, o aborto só
é considerado útil na medida em que a gravidez não se tornou pública
e ele pode adiar a mudança de identidade de menina a mulher.
Mas relação com o parceiro é fundamental na opção pela
maternidade ou desejo de abortar para a grande maioria das
informantes.
“-...
Quando eu saquei que estava grávida nós ficamos primeiro
em pânico. Depois
, aos poucos a gente foi se alcançando... A gente tinha
muito medo, mas também tinha uma coisa legal entre a gente,
só nós dois sabendo, tendo um problema comum pra
resolver... Tinha uma... Sabe? Uma... cumplicidade? É,
isso, tinha uma cumplicidade gostosa...”
Regina, 15 anos. |
A difusão de valores modernos, como maternidade retardada,
trabalho extralar, estudo e melhor qualificação profissional para
mulheres, percepção do amor em lugar de maternidade como base de
casamento, escolha individual e subjetiva do parceiro, deve, em
maior ou menor grau, entrar em conflito com a normalização
fornecida pelos modelos mais tradicionais. É preciso que as famílias
possam estar em constante discussão sobre essa dinâmica toda, para
melhor educar-se e a seus filhos, especialmente no que se refere à
sexualidade.
Outra grande questão de saúde pública em relação aos
nossos adolescentes, é a Aids. Na conferência sobre a Aids
realizada em março deste ano no norte da Alemanha. em Bremen,
relatou-se um número aproximado de 40,3 milhões de pessoas
infectadas no mundo, mais da metade na África. Isto considerando-se
apenas os casos registrados. Esta Conferência estabeleceu
prioridades, junto ao presidente do Programa das Nações Unidas
contra a Aids (UNAIDS) Peter Piot. Entre elas garantir que esses
40,3 milhões de pessoas com Aids tenham acesso a tratamentos
adequados, vidas sem discriminação e a luta para retirar, da
epidemia, todos os tabus que a caracterizam. Dessas 17,5 milhões são
mulheres e 2,3 milhões em crianças abaixo de 15 anos.
Quase metade dos novos casos de Aids no mundo ocorre entre jovens
com idade entre 15 e 24 anos. Desses jovens, metade são do sexo
feminino.
“-..Se
a gente é gorda e negra, não arruma namorado bacana não.
Todas as meninas contam quem “ficou “ com elas. A gente
só tem cara bacana que fica com a gente, se a gente fizer
mais coisas com eles. Não é só beijar na boca não. E se
falar de camisinha, pode espantar os caras...”
Marlene, 16 anos. |
Testar mulheres grávidas rapidamente, é um dos pontos
chaves no tratamento e prevenção da Aids no que se refere a prevenção
vertical de mãe para filho, pois em nosso país como na África a
Aids está feminizada e inserida na violência contra a mulher.
Sabemos que a transmissão sexual é responsável por 85 por
cento dos casos de Aids e que usar o preservativo é 10000 vezes
mais seguro que não usar. Muitas vezes o não uso de preservativos
está ligado ao uso abusivo de álcool e outras drogas, ou aos
chamados namoros firmes, onde os jovens justificam que seu uso pode
gerar desconfiança quanto à fidelidade do casal. Outras jovens,
seguindo padrões de conjugalidade aprendidos com suas mães e avós,
abrem mão do preservativo por medo de serem abandonadas ou
maltratadas física, moral e psicologicamente por seus parceiros.
Também o fato de estarem apaixonadas, faz com que essas jovens
criem falsas imagens de segurança. Aliás, como suas mães o fazem
em relação à fidelidade no casamento.
Outro fator de vulnerabilidade dos jovens ao HIV, é a mídia
que faz grande apelo erótico ao adolescente, unificando padrões de
comportamentos sexuais como algo não planejado, carregado de mitos
e preconceitos, como por exemplo, de que o uso do preservativo pode
dificultar a ereção e o desempenho sexual.
No Brasil estima-se que 600 mil pessoas sejam portadoras do
HIV e que 30 milhões estejam infectadas por alguma doença
sexualmente transmissível. Este quadro é visto em pessoas a partir
de 14 anos de idade, especialmente em pessoas suscetíveis à infecção,
adoecimento e morte pelo HIV, por vulnerabilidades que envolvem:
baixa auto-estima, falta de informação sobre riscos à saúde,
sentimentos de exclusão, baixa escolaridade, dificuldades em acesso
rápido a serviços de saúde, intolerância à diversidade sexual,
especialmente relacionadas à orientação sexual, questões de gênero,
mitos e tabus sobre a sexualidade: direitos
reprodutivos e violência sexual doméstica, entre outros.
A representação do brasileiro como povo altamente sensual e
sexualizado, remonta às primeiras representações dos exploradores
e descobridores do país, onde se geraram, por descontextualizações
culturais, racismo e ordem moral judaica cristã, os primeiros mitos
do brasileiro como libidinoso .e desinibido. A interação sexual
com mistura das três raças: o índio, o negro e o europeu,
facilitou a crença de que o ambiente em que começou a vida
brasileira, foi de intoxicação sexual. Herdamos distinções entre
formas de expressão sexual legítimas e ilegítimas, organizadas em
torno da monogamia e da procriação, onde sexo fora do casamento
heterossexual é pecado, que mantém no silêncio as práticas
sexuais de cada um, revelado pela expressão popular de que “entre
quatro paredes tudo pode acontecer”
E, ainda a manutenção de conceitos de excitação sexual,
prática erótica, diversão e agressão, conceitos estes, ligados
num único complexo simbólico em que há um sistema de referência
erótica no qual as transgressões
sexuais masculinas, ainda são implícita e explicitamente
contextualizadas como positivas e esperadas, na manutenção de uma
virilidade masculina “naturalizada”.
Com o advento dos anos sessenta e da pílula
anticoncepcional, época de possibilidade de disjunção entre o
sexo erótico e reprodutivo no Brasil e no mundo, a possibilidade da
atividade sexual irrestrita significava a promessa da democracia, a
quebra da hierarquia e da dominação do modelo patriarcal herdado.
Nesse cenário surge a Aids na década de oitenta,
enfatizando a homofobia enquanto definida como peste gay, sendo a
doença da moral quando sugeria os grupos de risco entre gays,
prostituas e promíscuos e deixando abertas as entradas para a
chamada sagrada família, contaminada por atitudes de
vulnerabilidades em mães, santificadas personagens da nossa
sociedade, que se calaram das DSTs mesmo após o surgimento da
penicilina.
Temos então, nas questões de gênero, de relação
homem-mulher, de duplo padrão de moralidade, de religiosidades
dissociadas das realidades das vidas de seus fiéis, dos mitos e
tabus da sexualidade ainda invisível para se esconder dos pecados e
acusações de anormalidades; das fugas da morte como realidade
controlável pela medicina moderna; de longevidade e promessas de
eterna juventude da indústria capitalista, da crença de que
a chamada terceira idade traz imunidade da santificação do
amor romântico que inibe a objetividade, da ilusão de que somos
livres sem responsabilidades e auto-estima; os elementos
co-fundantes da Aids Imaginária, que nos coloca, brasileiros e
cidadãos do mundo, de crianças a idosos, como “soro
interrogantes” (sem saber se somos HIV positivo ou negativo,
porque raramente fazemos os testes), vulneráveis à infecção do
HIV em moldes similares aqueles que testemunham a dizimação de várias
populações africanas.
Tenho desenvolvido dissertações
e teses de mestrado, doutorado e pós doutorado com as
denominadas pesquisas-ação, onde a pesquisa se dá concomitante a
intervenções nos grupos pesquisados, onde a observação
participante da pesquisadora é considerada, na luta contra a
chamada “africanização” da Aids no Brasil. Estes trabalhos têm
sido realizados no Núcleo de Família e Comunidade do Programa de Pós
Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em
parcerias com diversas instituições e ONGs como a F&z
Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde de São Paulo, A
Associação Saúde da Família de São Paulo, a AIDSCAP Rapid
Response Fund, a Elton John Aids Foundation, o Rotary Club do
Brasil, especialmente o do Butantã, entre várias outras do setor público
e privado do Brasil.
O Sociodrama Construtivista da Aids é um método de
psicoterapia e educação psicosocial grupal que propõe a
co-construção de novas verdades, legitimadas e desconstruídas
pelo grupo em ação, na busca de saídas factíveis para as
realidades psico-sócio-culturais do mesmo, embasadas no sistema de
crenças e valores aprovados pelos mesmos. O terapeuta e/ou o
educador sociodramatista construtivista participa do grupo como um
elemento a mais, na busca dessas saídas e resoluções, enquanto
facilitador dessa desconstrução de mitos, tabus e crenças, pela
proposta da dramatização de personagens sociais, representativos
no micro, no macro grupo social, em seus aspectos co-conscientes e
co-inconscientes sobre os temas trabalhados em conjunto.
Atualmente esta luta consiste num novo Projeto que pretende
alcançar cerca de 15 mil adolescentes
carentes de
11 a
20 anos de idade,
das quintas às oitavas séries do Ensino Fundamental e das três séries
do Ensino Médio, da periferia do Butantã.
A nossa hipótese é de que criados e oferecidos estes espaços
de legitimação das subjetividades destes adolescentes e da
intersubjetividade pela vivência grupal,
os mitos, valores e crenças que dificultam e/ou impedem
atitudes sexuais de menores riscos e vulnerabilidades ao HIV/Aids e
à gravidez precoce, sejam modificados através de maiores
sensibilização e conscientização de recursos pessoais, que os
ajudem a resignificar comportamentos preventivos como força
pessoal, de auto estima e de “empoderamento” contra esta
enfermidade.
Famílias, escolas e adolescentes: são o tripé para a saúde
sexual.
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